Com 1/2 do Brasil inadimplente, quem sustentará o consumo?
Com 83,9 milhões de brasileiros inadimplentes, o consumo enfrenta os efeitos do endividamento das famílias e dos juros elevados. Para os empresários, o cenário exige atenção às vendas, à rentabilidade e à geração de caixa. Como sustentar o crescimento quando metade da população adulta enfrenta dificuldades para pagar suas dívidas?

O Brasil chega ao segundo semestre de 2026 diante de uma realidade econômica que merece atenção de quem empreende. O endividamento das famílias, os juros elevados e o comprometimento da renda impõem desafios ao orçamento doméstico e à capacidade de consumo. Para o empresário, essa realidade aparece diariamente no movimento das lojas, nas negociações comerciais, na procura por parcelamentos e na pressão sobre as margens. A dimensão do problema fica ainda mais evidente quando observamos os números da inadimplência no país.
Segundo a Serasa, o país chegou a 83,9 milhões de pessoas inadimplentes, o equivalente a aproximadamente 51% da população adulta, com mais de R$ 586 bilhões em dívidas em aberto. O cenário se torna ainda mais preocupante quando 82% das famílias brasileiras declaram possuir algum tipo de dívida e quase 30% relatam contas em atraso, conforme levantamento da Confederação Nacional do Comércio referente a agosto. Esses números revelam uma população que precisa administrar compromissos financeiros acumulados enquanto continua pagando alimentação, moradia, transporte e demais despesas essenciais. O problema chega ao comércio pela redução da renda disponível, pela maior resistência aos preços e pela dificuldade crescente de transformar o interesse de compra em vendas efetivamente recebidas.
O ambiente macroeconômico amplia essa pressão. Embora o Banco Central tenha reduzido a taxa Selic para 13,75% ao ano em setembro, o crédito continua caro para consumidores e empresas. A inflação acumulada em 12 meses chegou a 4,22% em agosto, enquanto o consumo das famílias recuou 0,4% no segundo trimestre de 2026. Para o empreendedor de médio porte, o desafio é particularmente complexo: fornecedores pressionam por reajustes, a folha de pagamento exige previsibilidade, o capital de giro custa caro e os clientes procuram condições de pagamento cada vez mais flexíveis. Nesse contexto, aumentar as vendas pode exigir descontos, prazos maiores e investimentos comerciais que comprometem a rentabilidade. O empresário precisa acompanhar simultaneamente o comportamento do consumidor e a capacidade financeira de sua própria operação.
A grande questão para o último trimestre de 2026 é compreender de onde virá a capacidade de consumo necessária para sustentar o crescimento das empresas. O brasileiro continua precisando consumir, mas uma parcela expressiva da população já comprometeu sua renda futura. Para os empresários, isso exige uma revisão criteriosa das projeções de faturamento, das políticas de crédito, do posicionamento comercial e, principalmente, da geração de caixa. Em um mercado pressionado pelo endividamento, a capacidade de vender continuará importante, entretanto será cada vez mais necessário compreender quanto dessas vendas efetivamente se transforma em dinheiro disponível para manter a empresa funcionando. Afinal, quando metade da população adulta enfrenta dificuldades para pagar suas dívidas, a saúde financeira do consumidor passa a ser também uma preocupação central de quem empreende.
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Pai do Pedro e da Eva; Fundador da Elevion Consultoria; Diretor de Negócios da Rede de Franquias Animal Farma. Consultor e Conselheiro Empresarial.
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