Três projeções, uma Black Friday. Uma operação só.
Três casas publicaram projeções para a Black Friday de 27 de novembro e os números vão de R$ 11,32 bilhões a R$ 16,6 bilhões. A diferença não é de otimismo, é de janela de contagem.

Em 13 de outubro a Neotrust projetou R$ 13,3 bilhões para o e-commerce brasileiro na Black Friday, contando quatro dias, de 26 a 29 de novembro. Oito dias depois a Abiacom projetou R$ 16,6 bilhões, contando a semana inteira do evento. As duas falam da mesma sexta-feira, 27 de novembro.
Quem lê manchete vê otimismo. Quem toca empresa vê uma pergunta prática e meio incômoda: com qual desses números eu monto novembro? É com ele que se decide quanto estoque comprar, quantos turnos abrir, quanta gente chamar para dezembro e quanto espaço reservar. A distância entre as duas projeções não é de humor. É de janela de contagem.
A mesma data, três respostas
A Neotrust mede quatro dias e trabalha com transações reais de milhares de lojas parceiras. A Abiacom mede a semana. Já são dois recortes diferentes, e isso sozinho explica boa parte da distância entre os dois números.
O detalhe que quase ninguém reproduziu está dentro do próprio material da Abiacom. No mesmo release em que projeta R$ 16,6 bilhões para a semana, a associação separa R$ 11,32 bilhões como o que ela atribui especificamente à Black Friday. E não explica o critério desse recorte.
Num único documento, o mesmo evento vale R$ 16,6 bilhões ou R$ 11,32 bilhões, dependendo da linha que você lê. A projeção da casa que mediu quatro dias cai bem no meio das duas. Nenhum dos números está errado. Eles respondem a perguntas diferentes, e só uma delas é a sua.
Onde as contas se encontram
Quando as projeções não batem, o que serve para planejar não é escolher uma. É procurar onde elas concordam.
Em setembro, o estudo Black Friday Talks, da Stefanini Marketing com Gauge, Ecglobal e W3haus, ouviu consumidores e projetou pedidos para a mesma semana. Refazendo as contas, esse estudo e o da Abiacom partem exatamente da mesma base de 2025, o mesmo número de pedidos e o mesmo tíquete. Da mesma largada, um projeta crescimento perto de um décimo e o outro perto de um terço.
Vale dizer de onde vem cada conta. As duas casas têm interesse no resultado. Uma vende inteligência de mercado para o varejo, a outra representa empresas que vendem na data. Isso não invalida nada, e é justamente o motivo de usar o que elas concordam em vez de escolher entre o que elas discordam.
Discordam em quase tudo e concordam no formato: mais pedidos, cada um um pouco menor. Esse pedaço é o que muda a operação, e é o único que as duas casas sustentam juntas.
Faturamento parecido repartido em mais pedidos menores não é a mesma operação. É mais separação, mais embalagem, mais viagem, mais entrada e saída, mais conversa depois da venda. O dinheiro cresce devagar e o movimento cresce rápido. São duas curvas, e quem dimensiona pela primeira erra a segunda.
Nos mais de mil pátios que operamos país afora, a lição das vésperas de data de pico é sempre a mesma. O movimento não chega distribuído. Ele se concentra em poucas horas, e a capacidade que dá conta da média do mês não dá conta dessas horas.
Escolher o número de cima também custa
Dimensionar pela projeção maior tem preço, e ele aparece em janeiro. Estoque que ficou, hora extra contratada, espaço alugado, turno montado para um pico que veio menor. Dimensionar pela menor tem outro preço, e esse aparece antes: venda que não foi atendida, prazo que estourou, devolução.
A réplica das casas que publicam projeção é honesta. Elas não prometem resultado, projetam cenário, e todas avisam a janela que usaram. Quem some com a janela no caminho é a leitura apressada, a nossa, quando a gente guarda o número grande e esquece a frase que explicava de onde ele veio.
Quem absorve a diferença é a operação, que recebe um plano calculado para um cenário e um dia que chegou em outro. Não existe escolha segura entre as três contas. Existe escolha declarada.
Dá para trabalhar com números que não batem
Dá, e é mais simples do que parece. Escolher uma das projeções e escrever ao lado dela de qual janela ela veio, para que todo mundo que usar aquele número use o mesmo. Dimensionar o piso com contratação firme e deixar o topo contratado em opção, em vez de comprar o cenário inteiro na véspera. E combinar antes qual sinal faz virar de cenário no meio do caminho, porque na quinta à noite já dá para saber se o movimento está vindo pela curva de cima ou pela de baixo.
Nada disso depende de tecnologia nova. Depende de a projeção escolhida estar escrita em algum lugar que a operação consiga ler, com a janela ao lado, antes de o mês começar.
Em 27 de novembro ninguém vai conferir qual das três projeções acertou. Vão conferir se a operação deu conta do dia que chegou.
Sobre o autor

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CEO e co-fundador da CloudPark, empresa especializada em tecnologia para gestão e automação de estacionamentos. Apaixonado por automação, empreendedor, investidor e palestrante, dedico minha trajetória a desenvolver soluções que simplificam operações, geram resultados e impulsionam a evolução da mobilidade urbana. Há mais de 12 anos lidero equipes, projetos e estratégias de crescimento, sempre com foco em inovação, eficiência e experiência do cliente. Acredito que grandes transformações acontecem quando tecnologia, pessoas e propósito trabalham na mesma direção.
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