Terapeuta aponta sinais de que o empresário precisa de ajuda
Ex-torneiro mecânico que virou terapeuta de empresários, Pedro dos Santos contou no Empreenda News Cast como a ansiedade ligada ao trabalho se manifesta no corpo e na rotina, e por que perder a vontade é o alerta mais sério.

Insônia na semana do fechamento do mês, taquicardia, coluna travada, horas perdidas no celular. Para o terapeuta Pedro dos Santos, nada disso é o sinal mais grave de que um empresário precisa cuidar da cabeça. O mais grave é quando ele olha para as metas e não sente mais nada. "Ele vê os desafios e ele míngua", resumiu.
Pedro, que atende empreendedores e é embaixador do Empreenda no interior de São Paulo, foi o convidado do Empreenda News Cast, apresentado por João Taumaturgo, um dos fundadores do Empreenda News. O episódio foi gravado em 29 de setembro.
Do SENAI à filosofia
Pedro mora em Itupeva, cidade vizinha de Jundiaí, e começou a trabalhar cedo. Filho de Manuel e Vera, cresceu numa família prática: quem queria sair no fim de semana precisava ter o próprio dinheiro. Aos 15 anos, uma tia conseguiu uma vaga de aprendiz numa indústria da região, com curso no SENAI, e ele seguiu carreira na mecânica, como torneiro mecânico.
A vocação, segundo ele, apareceu antes. Aos 10 anos, num churrasco de família, um pitbull atacou o filhote de cachorro de uma prima. Enquanto os adultos reagiam cada um de um jeito, ele correu para abraçar a menina. Uma tia comentou que ele tinha ido consolar a prima, e foi a primeira vez que ouviu a palavra. "Acho que eu vou fazer isso, vou consolar as pessoas", lembra ter pensado.
No ensino médio, um professor de filosofia chamado Sérgio apresentou Platão à turma, e Pedro passou a ler filosofia por conta própria a partir dos 16 anos. A pergunta que o acompanhou dali em diante foi por que as pessoas sofrem, e por que cada uma sofre de um jeito.
Queimar os barcos
Pedro cursou quatro anos de Psicologia e trancou a faculdade no último ano. O dinheiro dava para a mensalidade ou para uma formação prática em psicoterapia clínica, com atendimento supervisionado numa clínica social, e ele escolheu a segunda. "A faculdade eu sabia que era só o canudo", disse. Começou a atender por volta dos 20 anos e hoje soma cerca de sete anos de consultório.
Durante um tempo, conciliou os atendimentos com o emprego na indústria, até perceber que precisaria largar a carteira assinada para viver só da terapia. Fez a troca sem nenhuma experiência em gestão. Oito meses depois, veio a pandemia. A clínica presencial que ele abriu na cidade fechou depois de oito ou nove meses, no mesmo mês do casamento dele com Vitória.
Foi ali que ele diz ter percebido que ainda pensava como empregado. "Eu não sei nada de marketing, eu não sei nada de vendas. A única coisa que sei fazer é sentar a bunda na cadeira", contou. João completou com uma regra que repete aos empresários: um negócio que depende cem por cento do dono, para tudo, ainda não é um negócio.
Pedro foi atrás de cursos de marketing e vendas e cita como virada uma aula on-line de cerca de duas horas sobre negócios para profissionais da saúde, que mostrava passo a passo como o professor usava o Instagram. Diz que o modelo valeu mais do que a técnica. Mesmo com o tropeço, ele não se arrepende da decisão de largar o emprego fixo. "Só quando você testa sua força, você descobre quem é você."
A ansiedade que vinha do trabalho
Durante cerca de cinco anos, Pedro atendeu pacientes com ansiedade, sem foco em nenhum público. Com o tempo, notou que muitos chegavam dizendo que estavam ansiosos por causa do trabalho, quase sempre empreendedores. Em alguns casos, um problema técnico do negócio desencadeava o problema emocional. Em outros, era o contrário. Foi assim que ele decidiu se especializar em empresários.
Para ele, ansiedade é uma forma de medo, e o empreendedor é quem mais vive com a incerteza de não saber como vai ser o dia seguinte. No Brasil, lembrou João, a burocracia e a carga de impostos aumentam essa pressão.
O caso de que Pedro mais se orgulha começou antes da especialização. Ele acompanhou um jovem advogado que trabalhava num escritório onde se sentia explorado e queria abrir o próprio. Na semana anterior à gravação, o ex-paciente mandou a foto do escritório novo, que ocupa um andar inteiro. Pedro também atendeu o sócio dele.
Os sinais que o empresário costuma ignorar
João contou que, nos últimos seis meses, com o crescimento do Empreenda e a expansão nacional, deixou a atividade física de lado e sentiu o sono piorar. Perguntou ao convidado quais sinais indicam a hora de procurar terapia. Pedro dividiu a resposta em três grupos.
No corpo
São os mais concretos: coluna travando, taquicardia, noites sem dormir, um fechamento de mês que vira um "Deus nos acuda" todas as vezes.
Na vontade
É o que ele chama de impotência. A pessoa continua trabalhando, mas olha para as metas sem energia e começa a achar normal viver assim. "Não é normal", disse. Pedro chama de força agente a vontade que move o ser humano, e afirma que quem age é que é propriamente humano. Na conversa, ele usou a mesma ideia para falar de inteligência artificial: acredita que a IA pode simular vontade própria, mas nunca vai tê-la de verdade.
Nas fugas
Comer demais, passar horas no celular, consumir pornografia, problema que ele diz ser muito comum entre homens. Pedro chama esses hábitos de sintomas de fuga. Ele mesmo mostrou o dedo mínimo, marcado de tanto segurar o telefone.
Planejar, executar, analisar, aprender
A proposta de Pedro é tratar a cabeça com o mesmo ciclo que o empresário usa na empresa: planejar, executar, analisar o resultado e aprender com ele antes de planejar de novo. Na vida mental, segundo ele, o ciclo costuma quebrar de duas formas. Há quem planeje e não execute, perfil comum entre pessoas mais criativas. E há quem só execute, sem parar para analisar.
João, que se descreve como alguém que prioriza a execução, defendeu que o empreendedor às vezes precisa fazer antes de planejar. Pedro concordou, com uma condição: esse modo precisa ter data para acabar. "Se isso não tem data para acabar, isso vira tua vida", disse. E a vida, lembrou, também tem família, fé, exercício e lazer.
Daqui a cinco anos
Pedro estima ter atendido cerca de 500 pessoas até hoje, não só empreendedores. A meta que deixou registrada no episódio é estar entre os três maiores terapeutas de empreendedores do Brasil em cinco anos. Ele explica que escolheu esse público porque o atendimento individual muda vidas, mas alcança pouca gente, e quando o paciente é um empresário, o efeito chega à equipe, à família e aos clientes dele.
Para quem está no momento de arriscar, ele deixou um recado: "A história só acaba quando a tampa do caixão fecha." Enquanto houver ar nos pulmões, disse, ainda há uma tentativa.
PERGUNTAS FREQUENTES
Quais são os sinais de que o empresário precisa de terapia?
Segundo o terapeuta Pedro dos Santos, há três grupos de sinais: corporais (insônia, taquicardia, dores, ansiedade no fechamento do mês), de perda de energia e vontade diante das metas, e comportamentos de fuga, como comer demais e passar horas no celular.
Por que a ansiedade é comum entre empreendedores?
Para Pedro dos Santos, ansiedade é uma forma de medo, e o empreendedor é quem mais convive com a imprevisibilidade sobre o dia seguinte. No Brasil, a burocracia e a carga de impostos aumentam essa pressão.
O que é o ciclo planejar, executar, analisar e aprender aplicado à saúde mental?
É usar na rotina pessoal o mesmo ciclo de gestão da empresa: planejar o dia, executar, avaliar o que funcionou e ajustar o próximo planejamento. Segundo Pedro, o ciclo quebra quando a pessoa só planeja ou só executa.
Quem é Pedro dos Santos?
Terapeuta especializado em empresários, de Itupeva (SP), com cerca de sete anos de atendimento. Antes da terapia, trabalhou como torneiro mecânico. É embaixador do Empreenda no interior de São Paulo.
Onde assistir à entrevista completa?
O episódio está no canal do Empreenda News no YouTube.
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