Manter o que já existe consome 70% da verba de TI
Em três de cada quatro empresas grandes, setenta por cento ou mais do orçamento de TI vai para manter o que já está no ar. O gargalo apontado pela pesquisa não é verba: é preparo de equipe.

Uma pesquisa da TQI, feita com a Fundação Dom Cabral e a Integratum, perguntou a empresas brasileiras de grande porte para onde vai o dinheiro de tecnologia. O resultado, divulgado em 16 de setembro, é que em três de cada quatro delas setenta por cento ou mais do orçamento de TI fica preso na manutenção do que já está no ar.
O plano do ano, aquele que tem inteligência artificial, dado em tempo real e integração nova, disputa o que sobra. Quem toca empresa no Brasil costuma começar essa conversa pelo projeto novo. A pesquisa sugere que a pergunta mais útil vem antes: quanto do orçamento já estava comprometido quando a reunião começou.
O que a palavra legado esconde
Legado não quer dizer sistema velho. Quer dizer sistema que sustenta processo que não pode parar. A maioria das empresas ouvidas diz ter dependência alta do ambiente que já roda, e a contribuição mais citada dele é exatamente essa: segurar o que é crítico.
Isso explica a conta. Um sistema que roda há anos acumulou regra de exceção, integração com banco, relatório que alguém pede todo mês e um jeito próprio de tratar o caso raro. Quase nada disso está escrito em algum lugar. Está no código e na cabeça de quem opera. Manter sai caro porque cada mudança precisa ser testada contra um comportamento que ninguém consegue descrever inteiro.
E o custo não é só de licença e servidor. É de gente. O time que conhece o sistema antigo é o mesmo time que precisaria estar construindo o novo. Enquanto o antigo estiver de pé sozinho, ele ganha essa disputa todo mês, porque ele é o que fatura hoje.
O freio não está no dinheiro nem no patrocínio
Quase todas as empresas ouvidas dizem já estar planejando, começando ou tocando alguma modernização. O apoio da liderança aparece alto na pesquisa. Mesmo assim, menos de uma em cada seis considera a própria equipe preparada para trabalhar num ambiente digital e orientado a dado.
O resultado contraria o roteiro conhecido. O roteiro diz que projeto de tecnologia trava por falta de verba ou por falta de padrinho no topo. Aqui os dois aparecem razoavelmente resolvidos, e a transformação ainda não chega na ponta. O que falta é preparo de quem vai usar a ferramenta depois que ela estiver pronta.
Vale o mesmo para inteligência artificial. Boa parte das empresas coloca dado e IA entre os fatores decisivos da modernização, e uma fatia bem menor diz operar IA de forma estruturada, ligada à estratégia. Entre reconhecer que é decisivo e ter isso rodando no processo existe um caminho que passa por treinamento, por rotina nova e por alguém dentro de casa que saiba ler o resultado.
O que se vê na operação
Nos mais de mil pátios que operamos país afora, troca de sistema quase nunca é um evento de um fim de semana. É um período. Durante ele o processo novo convive com o antigo, o time aprende no turno cheio, e a entrada continua recebendo carro como se nada estivesse acontecendo. Quem planeja a troca pelo dia da virada planeja a parte fácil.
O que decide o resultado é o mês seguinte. É quando aparece o caso que o desenho não previu, a exceção que o sistema antigo resolvia de um jeito informal, o relatório que alguém usava e ninguém tinha citado na reunião de levantamento. Nada disso é falha de projeto. É o tamanho real do que estava sendo substituído.
A conta da convivência
Aqui está o custo que o orçamento do projeto quase nunca traz. Durante a transição, a empresa paga os dois ambientes. Paga a licença do antigo e o desenvolvimento do novo. Paga o time que sustenta um e o time que constrói o outro. E paga o tempo de quem opera, que faz o trabalho de sempre e ainda aprende um jeito diferente de fazer.
Se essa sobreposição não estiver no plano desde o começo, ela aparece depois como atraso. E atraso em projeto de modernização tem um efeito específico: quanto mais tempo os dois ambientes convivem, mais caro fica cada mês, e maior a tentação de parar no meio, o que é o pior dos desfechos possíveis, porque deixa a empresa com dois sistemas incompletos em vez de um funcionando.
A pesquisa também tem um limite que precisa ser dito. Ela ouviu 51 empresas de 19 setores, e completou com entrevistas em profundidade com CIOs. É uma amostra pequena, de companhias grandes, e serve melhor como retrato de um grupo do que como estatística do país. O que ela mede bem é a percepção de quem decide orçamento de tecnologia nesse porte.
O que dá para fazer com isso
A parte aproveitável não depende de faturamento. Separar, no orçamento do ano que vem, o que é manutenção do que é escolha já muda a conversa. Colocar o custo da convivência dentro do projeto, e não fora dele, muda o prazo que se promete. E tratar preparo de equipe como entrega do projeto, com data e responsável, ataca exatamente o ponto que a pesquisa aponta como gargalo.
Nada disso é barato nem rápido. Mas é mais barato do que descobrir na metade do caminho que o orçamento já tinha dono.
A pergunta que fica para a próxima reunião de planejamento é simples de fazer e desconfortável de responder. Do que está previsto para o ano que vem, quanto é decisão de negócio e quanto é a conta de manter em pé o que já existe?
Sobre o autor

34 matérias publicadas
CEO e co-fundador da CloudPark, empresa especializada em tecnologia para gestão e automação de estacionamentos. Apaixonado por automação, empreendedor, investidor e palestrante, dedico minha trajetória a desenvolver soluções que simplificam operações, geram resultados e impulsionam a evolução da mobilidade urbana. Há mais de 12 anos lidero equipes, projetos e estratégias de crescimento, sempre com foco em inovação, eficiência e experiência do cliente. Acredito que grandes transformações acontecem quando tecnologia, pessoas e propósito trabalham na mesma direção.
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