Elétrico perde 50% em 3 anos. Alugar virou a saída.
As locadoras fecharam 2025 com 33.562 veículos eletrificados, alta de 160%, segundo o Anuário da ABLA. Mas dos 20.475 comprados no ano, só 164 eram 100% elétricos. O motivo está na tabela de usados: pelo índice IBV Auto, elétricos de 2022 perderam 50,5% do valor.

As locadoras brasileiras fecharam 2025 com 33.562 veículos eletrificados na frota, alta de 160% sobre o ano anterior. O dado é do Anuário Brasileiro do Setor de Locação de Veículos 2026, da ABLA. Foram 20.475 unidades incorporadas em um ano só, o equivalente a 8,3% de tudo o que se emplacou de eletrificado no país.
Agora abra a compra por tipo. Dos 20.475, híbridos foram 16.859, ou 82,3%. Plug-in foram 3.452, ou 16,9%. E cem por cento elétricos foram 164 carros. Zero vírgula oito por cento.
O setor que existe justamente para comprar carro, rodar e revender multiplicou a frota eletrificada por dois e meio comprando quase nenhum elétrico puro.
A insegurança do comprador tem número, e ele é grande
Quem hesita em comprar um elétrico costuma citar autonomia e tomada. O problema mais caro é outro, e ele já apareceu na tabela de usados.
Segundo o índice IBV Auto, desenvolvido pelo banco BV, os elétricos ano 2023 acumulavam desvalorização de 46,1% no primeiro semestre de 2026. Os de 2022 perderam 50,5% do valor de mercado. Na mesma régua e no mesmo período, os híbridos 2023 caíram 26,1% e os a combustão 19,6%. Entre os 2022, híbridos perderam 19,3% e combustão 13,2%.
O detalhe que fecha o argumento: o mercado de usados no geral não caiu. Ele subiu 3,49% no primeiro semestre e 6,87% em doze meses. Ou seja, não foi maré baixa para todo mundo. Foi o elétrico afundando sozinho enquanto o resto subia.
Isso tem rosto de gente. Um Song Plus 2024 estava anunciado no Localiza Seminovos de São Paulo por R$ 176 mil, contra um preço de fábrica que ficou entre R$ 249 mil e R$ 299 mil. Não é defeito do carro nem da marca. É o mercado ainda sem saber precificar bateria usada, e cobrando essa dúvida de quem vai vender.
Alugar não é economia, é transferência de risco
É aqui que a locação de longo prazo deixa de ser assunto de custo e vira assunto de balanço.
Quando a empresa compra, ela carrega o ativo e come a depreciação inteira. Quando ela aluga por 24 ou 36 meses, troca um ativo que pode perder metade do valor por uma despesa mensal previsível, e devolve o problema do valor residual para a locadora. Para testar uma tecnologia que ainda não tem curva de revenda estabelecida, isso é exatamente o instrumento certo.
A Localiza fechou a compra de 10 mil híbridos e elétricos da BYD para dois anos, começando em 2026, distribuídos entre diária, mensal, assinatura, gestão de frotas e revenda. Mesmo com essa aposta, os eletrificados representam cerca de 2% de uma frota que passa de 630 mil veículos. Dirley Ricci, diretor executivo de ativos da companhia, resume a leitura da casa: a transição energética no Brasil vai acontecer de forma gradual, combinando tecnologias.
Dois por cento, vindo de quem tem escala para errar e absorver. É uma declaração de cautela em número.
O que a operação enxerga antes da estatística
Nos mais de mil pátios que operamos país afora, mudança de motorização aparece primeiro na placa de locadora e de frota corporativa, não na placa de particular. Frota é sempre o primeiro lugar onde uma tecnologia nova vira rotina, porque frota mede o que gasta e troca quando a conta fecha.
Isso vale para além de carro. Quando você não sabe precificar o risco de um ativo, existe quase sempre alguém no mercado cujo negócio é justamente precificar esse risco. Software, máquina, imóvel, frota. A pergunta útil não é "compro ou alugo". É "quem está mais preparado para engolir a perda se eu estiver errado sobre o valor daqui a três anos".
Se a resposta for o fornecedor, alugue. Se for você, compre.
O outro lado da conta
Alugar tem um custo que não aparece na parcela, e ele é real.
A locadora não absorve risco de graça. O contrato de longo prazo embute a depreciação projetada, o custo de capital e a margem. Se o elétrico desvalorizar menos do que o previsto, quem alugou pagou caro por um seguro que não precisou usar. E os juros do país entram nessa conta: alugar em ciclo de juro alto é caro por definição, porque você está financiando o ativo de outra pessoa.
Tem ainda o risco do lado de lá. O hedge das locadoras pode estar errado. Se o preço do elétrico cair por pressão da concorrência e a rede de recarga adensar mais rápido do que se espera, quem encheu a frota de híbrido fica com ativo defasado na hora da virada, e o próprio anuário mostra que a idade média da frota eletrificada já caiu de 17,5 para 10,9 meses, ou seja, o ciclo de troca está encurtando.
E quem paga a conta mais dura não é empresa nenhuma. É a pessoa física que comprou elétrico em 2022 ou 2023 e vai vender agora. Ela financiou sozinha a curva de aprendizado de um mercado inteiro.
O que fica
Alugar não elimina o risco do elétrico. Só entrega esse risco para quem sabe cobrar por ele.
Com informações do Anuário Brasileiro do Setor de Locação de Veículos 2026, da ABLA, do índice IBV Auto, do banco BV, e da Localiza.
Sobre o autor

15 matérias publicadas
CEO e co-fundador da CloudPark, empresa especializada em tecnologia para gestão e automação de estacionamentos. Apaixonado por automação, empreendedor, investidor e palestrante, dedico minha trajetória a desenvolver soluções que simplificam operações, geram resultados e impulsionam a evolução da mobilidade urbana. Há mais de 12 anos lidero equipes, projetos e estratégias de crescimento, sempre com foco em inovação, eficiência e experiência do cliente. Acredito que grandes transformações acontecem quando tecnologia, pessoas e propósito trabalham na mesma direção.
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