Produção recorde. Dois terços vieram de kit importado.
A Anfavea divulgou em 9 de setembro que a produção de veículos chegou a 271,2 mil unidades em agosto, o maior volume mensal desde outubro de 2019. Dois terços do aumento do ano vieram de kits importados montados aqui, enquanto a exportação caiu 31,7%.

A Anfavea divulgou em 9 de setembro os números de agosto. A indústria automotiva brasileira produziu 271,2 mil veículos no mês, alta de 9,4% sobre agosto de 2025 e de 6,8% sobre julho. É o maior volume mensal desde outubro de 2019, antes da pandemia. No acumulado do ano são cerca de 1,9 milhão de unidades, 8,5% a mais que em 2025.
Manchete boa. Agora a frase que estava na mesma entrevista coletiva e quase não saiu no título.
Dois terços do crescimento não é produção, é montagem
Igor Calvet, presidente da Anfavea, explicou a composição do aumento. Dos cerca de 150 mil veículos a mais produzidos em 2026, aproximadamente dois terços vieram de modelos montados em regime SKD e CKD, os kits que chegam semidesmontados ou completamente desmontados de fora. Só um terço é produção nacional integral.
Vale entender o que isso significa na prática. No SKD e no CKD, o veículo é projetado e fabricado em outro país, embarcado em partes e parafusado aqui. Gera emprego de linha de montagem, recolhe imposto, entra na estatística de produção nacional. Mas a parte que concentra engenharia, propriedade intelectual e margem ficou lá fora.
O indicador de topo diz uma coisa. A composição diz outra.
A conta do lado de fora
Enquanto a produção subia, a exportação afundava. Foram 39,8 mil veículos embarcados em agosto, queda de 31,7% sobre agosto de 2025. No acumulado do ano a retração é de 22,9%, puxada principalmente por Argentina, Chile e Uruguai.
Do outro lado do balcão, as importações somaram 406,7 mil unidades, alta de 29,8%, com as marcas chinesas respondendo por mais da metade.
Coloque os dois números lado a lado. O país embarcou 39,8 mil veículos para fora e recebeu 406,7 mil de fora. É uma razão de mais de dez para um. Não é um desequilíbrio de tendência, é um desequilíbrio de escala, e ele se acentuou no mesmo ano em que a produção interna bateu recorde.
Some as três linhas: produz-se mais, vende-se menos para fora, compra-se muito mais de fora. Sobra uma indústria mais dependente de um único cliente, o consumidor brasileiro, num ano em que esse consumidor está comprando parcelado e no limite.
O que isso ensina a quem não fabrica carro
Nos mais de mil pátios que operamos país afora, o que muda primeiro quando o mercado gira não é o volume de carros que entra. É a composição do que entra, e ela costuma mudar meses antes de o total se mexer.
Vale para qualquer empresa. O número de topo é o último a avisar.
Duas perguntas fazem esse trabalho em quase todo negócio. A primeira: do que cresceu, quanto foi produzido por você e quanto foi revendido? Distribuidor que cresce comprando pronto e revendendo tem faturamento maior e negócio mais frágil, porque a margem e a decisão de preço estão com quem fabrica. A segunda: quantos clientes sustentam esse crescimento? Crescer 20% com um cliente novo não é a mesma coisa que crescer 20% com trinta.
E uma terceira, que quase ninguém faz: do que você vende, quanto depende de um fornecedor que também poderia vender direto ao seu cliente? Montar kit de outro é exatamente essa posição. Funciona enquanto o dono do kit não decide encurtar o caminho.
São contas de meia hora. Quase ninguém faz, porque o número de topo é confortável e a composição costuma ser desconfortável.
O outro lado da conta
Aqui é preciso ser justo com a indústria, porque a leitura fácil seria condenar o SKD e o CKD, e ela é rasa.
Montar kit é a forma clássica de entrar em um mercado. Reduz risco, testa demanda real antes de investir em fábrica, atende o consumidor que quer comprar agora e emprega gente hoje. Várias montadoras hoje consolidadas no Brasil começaram exatamente assim e nacionalizaram depois. Exigir fábrica completa desde o primeiro dia é o tipo de exigência que faz o investimento não vir.
O risco não está em montar. Está em montar por tempo indeterminado. Enquanto o kit vem pronto, o fornecedor nacional de autopeças não recebe o pedido, não desenvolve o componente e não forma o engenheiro. Quando o câmbio virar, e ele sempre vira, a cadeia que deveria absorver a produção terá encolhido.
E a queda de 22,9% na exportação não é culpa da indústria brasileira. Argentina, Chile e Uruguai compram menos porque estão comprando menos, e isso não se resolve com esforço comercial. Mas a consequência é a mesma de qualquer empresa que perde o segundo cliente: o primeiro passa a mandar sozinho.
O que fica
Recorde de produção é uma boa notícia. Só que o número não diz quem produziu.
Sobre o autor

15 matérias publicadas
CEO e co-fundador da CloudPark, empresa especializada em tecnologia para gestão e automação de estacionamentos. Apaixonado por automação, empreendedor, investidor e palestrante, dedico minha trajetória a desenvolver soluções que simplificam operações, geram resultados e impulsionam a evolução da mobilidade urbana. Há mais de 12 anos lidero equipes, projetos e estratégias de crescimento, sempre com foco em inovação, eficiência e experiência do cliente. Acredito que grandes transformações acontecem quando tecnologia, pessoas e propósito trabalham na mesma direção.
Discussão
0 comentários
Notícias Relacionadas

Logística inteligente no Brasil
Logística no Brasil: como frotas próprias e CDs estratégicos garantem a pronta entrega

A TRG entrou em um novo ciclo de crescimento.
Quase 3 décadas de uma família dedicada à saúde
