Coffee badging: quando o café revela mais sobre a empresa ..
Entenda como o 'coffee badging' está moldando a dinâmica do trabalho híbrido e a imagem profissional.

Coffee badging: quando o café revela mais sobre a empresa do que sobre o funcionário
Você vai ao escritório, toma um café, conversa com algumas pessoas, participa de uma reunião e volta para casa. Está trabalhando menos ou apenas trabalhando de um jeito diferente?
O mercado já deu um nome para esse comportamento: coffee badging.
O termo descreve profissionais que aparecem presencialmente no escritório por um período curto, muitas vezes para cumprir uma exigência de presença, manter contato com colegas e depois continuar o expediente remotamente. A prática ganhou força com a consolidação do trabalho híbrido e está provocando uma discussão interessante sobre produtividade, cultura e liderança.
Mas talvez a pergunta mais importante não seja por que o funcionário está fazendo isso.
É por que a empresa está criando um ambiente em que ele sente que precisa fazer isso.
Presença não é produtividade
Durante décadas, a lógica corporativa foi relativamente simples: se o funcionário estava sentado na empresa, estava trabalhando.
A transformação digital colocou essa lógica em xeque.
Hoje, uma pessoa pode passar oito horas dentro de um escritório e entregar menos do que alguém que trabalhou quatro horas de casa, concentrado em uma tarefa estratégica.
Da mesma forma, alguém pode estar trabalhando remotamente e, ainda assim, estar completamente desconectado da cultura, da equipe e dos objetivos da organização.
O problema, portanto, não é presencial ou remoto.
É a falta de clareza sobre o que realmente significa trabalhar bem.
Especialistas destacam justamente essa diferença: em culturas centradas em presença física, o coffee badging pode ser interpretado como falta de comprometimento. Em organizações mais maduras, pode representar autonomia e gestão inteligente do tempo.
E aqui existe uma provocação para os empresários
Se sua equipe precisa ir ao escritório apenas para mostrar que esteve lá, talvez o problema não esteja na equipe.
Talvez esteja no desenho do trabalho.
O escritório deveria existir para potencializar aquilo que é melhor fazer presencialmente.
Conversar.
Criar.
Resolver problemas.
Construir relacionamento.
Mentorar.
Tomar decisões.
Fazer networking.
Trocar ideias que dificilmente surgiriam em uma reunião de 30 minutos no Teams.
Se nada disso acontece quando as pessoas estão juntas, exigir presença simplesmente aumenta o custo da operação.
E transforma o escritório em um lugar para bater ponto.
O cafezinho pode ser mais estratégico do que parece
Existe uma ironia interessante no coffee badging.
O profissional vai ao escritório para tomar café, conversar e depois vai embora.
Justamente o "cafezinho", que durante muito tempo foi considerado perda de tempo, pode ser uma das partes mais valiosas da experiência presencial.
É no corredor que surge uma ideia.
É durante o almoço que alguém apresenta um contato.
É em uma conversa informal que um problema aparece antes de virar crise.
É no encontro casual que duas áreas que quase nunca conversam descobrem uma oportunidade.
Conexão também é produtividade.
A questão é que ela precisa ter propósito.
O novo desafio da liderança
Para mim, essa discussão vai muito além do comportamento do funcionário.
Ela revela uma mudança importante no papel da liderança.
O líder do futuro não deveria perguntar apenas:
"Quantos dias você veio ao escritório?"
Deveria perguntar:
"O que conseguimos construir juntos quando estivemos lá?"
Essa mudança parece pequena, mas altera completamente a relação entre empresa e profissional.
Sai o controle.
Entra a responsabilidade.
Sai a presença como indicador.
Entra a entrega.
Sai o "preciso estar aqui".
Entra o "faz sentido estarmos juntos".
Empresas também precisam se tornar atraentes
Existe outro ponto que merece atenção.
Se uma empresa quer que as pessoas estejam presencialmente, precisa oferecer uma experiência que justifique isso.
Um ambiente colaborativo.
Lideranças acessíveis.
Boas conversas.
Aprendizado.
Networking.
Cultura.
Propósito.
Possibilidade de criar.
Porque obrigar alguém a atravessar a cidade para passar algumas horas em frente ao mesmo computador que poderia usar em casa não é estratégia de trabalho híbrido.
É apenas mudança de endereço.
Especialistas apontam exatamente essa necessidade: o escritório precisa ser um ambiente no qual faça sentido estar, e não apenas um local de controle de presença.
O futuro não será remoto ou presencial
Provavelmente será mais inteligente do que isso.
Algumas atividades exigirão concentração individual.
Outras dependerão de colaboração.
Algumas reuniões funcionarão perfeitamente online.
Outras precisarão do olho no olho.
Algumas equipes terão mais produtividade distribuídas.
Outras precisarão estar próximas.
A empresa que entender essa dinâmica terá uma vantagem importante.
Não porque descobriu o modelo perfeito de trabalho.
Mas porque entendeu que não existe um único modelo perfeito para todas as pessoas, funções e momentos.
E talvez o verdadeiro "coffee badging" esteja em outro lugar
Existe uma versão ainda mais perigosa desse fenômeno.
A empresa que exige presença, mas não cria conexão.
O líder que cobra comprometimento, mas não oferece propósito.
O profissional que aparece fisicamente, mas já está emocionalmente distante.
Nesse cenário, todos estão presentes.
Mas ninguém está realmente ali.
E talvez essa seja a provocação mais importante que o coffee badging traz para o mundo dos negócios:
não estamos discutindo apenas onde as pessoas trabalham. Estamos discutindo por que elas deveriam querer estar ali.
Para empresas que desejam inovar, crescer e atrair bons profissionais, essa pergunta pode ser muito mais estratégica do que parece.
Porque no novo mercado de trabalho, presença pode até ser obrigatória. Mas pertencimento precisa ser construído.
Sobre o autor

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Thiago A. Busarello é cristão. Especialista em negócios, inovação e estratégia, com atuação direta na estruturação, gestão e escala de empresas, combinando experiência prática de mercado com visão orientada a dados, tecnologia e tomada de decisão. Com formação em Administração, MBA em Finanças pela FGV e especializações em ciência de dados, governança e investimento, atua como investidor-anjo, mentor e executivo, apoiando empresas e empreendedores na construção de modelos de negócio mais eficientes, competitivos e preparados para crescer de forma sustentável em um cenário cada vez mais dinâmico.
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