Ela buscava um produto. Encontrou um negócio de R$ 50 mi
Marcela Castilho cria a Booma, marca de cosméticos naturais para bebês, com previsão de faturar R$ 50 milhões em 2026.

Alguns negócios começam com um plano de negócios. Outros começam com uma pergunta simples: “por que eu não encontro isso?”
Quando estava grávida da primeira filha, a nutricionista Marcela Castilho começou a procurar cosméticos mais naturais para bebês. Acostumada a analisar rótulos e ingredientes na alimentação, passou a fazer o mesmo com os produtos que entrariam em contato com a pele da filha.
O que encontrou foi uma lacuna.
E foi justamente nessa lacuna que nasceu a Booma, marca de cosméticos naturais para bebês criada em 2022.
Três anos depois, a empresa já havia alcançado R$ 20 milhões em faturamento em 2025 e agora mira R$ 50 milhões em 2026.
A história chama atenção pelo número.
Mas, para quem empreende, talvez o mais interessante esteja no caminho até ele.
A oportunidade estava onde quase ninguém estava olhando
Marcela não começou procurando uma tendência de mercado.
Começou procurando uma solução para um problema próprio.
Segundo ela, enquanto já existiam marcas fortes de cosméticos naturais para adultos, havia uma lacuna importante no segmento infantil. A empreendedora chegou a buscar alternativas nos Estados Unidos e percebeu que o problema também existia fora do Brasil.
Essa é uma das características mais interessantes de grandes oportunidades de negócio:
Elas nem sempre começam com uma grande ideia. Muitas vezes começam com uma frustração.
“Por que isso não existe?”
“Por que isso é tão difícil?”
“Por que ninguém resolveu isso ainda?”
São perguntas simples, mas que podem abrir mercados inteiros.
R$ 900 mil para transformar uma inquietação em empresa
Quando decidiu avançar, Marcela chamou o marido, Vagner Araújo, para construir o negócio.
Os dois colocaram R$ 900 mil de capital próprio e decidiram desde o início estruturar a empresa para crescer, evitando o modelo de uma operação improvisada.
Mas dinheiro não resolveu o principal desafio.
Era necessário transformar uma percepção de consumo em produto.
E isso levou tempo.
A Booma passou aproximadamente um ano desenvolvendo e testando seus primeiros produtos. Começou com apenas duas pomadas para assaduras e chegou a produzir cerca de 5 mil unidades no primeiro lote.
Hoje, a produção mensal alcança aproximadamente 30 mil produtos.
O produto precisava funcionar na vida real
Aqui está uma das partes mais interessantes do case.
A empresa não pensou apenas em criar uma fórmula “natural”.
Pensou na experiência de quem utilizaria o produto.
Um shampoo precisava limpar, mas também precisava produzir espuma na medida certa e ser fácil de retirar.
A pomada para assaduras precisava proteger a pele, mas também ser fácil de espalhar e remover.
Parece detalhe.
Não é.
É produto orientado pela experiência do consumidor.
E essa diferença pode separar uma marca interessante de uma marca relevante.
De dois produtos para uma marca
A estratégia também foi construída de forma gradual.
As primeiras pomadas funcionaram como porta de entrada para o consumidor. Depois vieram shampoos, condicionadores, protetores solares e outros produtos.
Em cerca de três anos, a empresa passou de dois produtos para aproximadamente 16 SKUs.
Hoje, a Booma trabalha com uma equipe de 12 pessoas e cinco indústrias terceirizadas.
A empresa também afirma utilizar formulações com mais de 95% de naturalidade e adota atributos como cruelty free, certificação eureciclo e fórmulas biodegradáveis.
O consumidor mudou. E a distribuição também.
A Booma nasceu no e-commerce.
Mas a próxima fase exige estar onde a decisão de compra acontece.
A empresa já está presente na Drogaria Iguatemi e pretende ampliar sua distribuição no canal farmacêutico, começando por grandes redes em São Paulo.
A lógica é simples: cosméticos para bebês muitas vezes não são uma compra planejada para daqui a duas semanas.
Existe uma necessidade que aparece agora.
E, quando ela aparece, estar disponível importa.
A empresa também planeja iniciar sua internacionalização a partir de 2027, mirando especialmente Estados Unidos e Europa, e estabeleceu uma meta de R$ 200 milhões de faturamento em 2028.
O que esse case ensina para qualquer empreendedor?
Talvez a principal lição da Booma não esteja nos cosméticos.
Está na forma de enxergar oportunidades.
1. Observe problemas antes de procurar ideias.
O mercado está cheio de pessoas tentando descobrir “qual negócio abrir”.
Talvez a pergunta mais eficiente seja: qual problema ainda está mal resolvido?
2. Conheça profundamente o cliente.
Marcela não apenas identificou uma necessidade. Ela conhecia o contexto de quem utilizaria o produto.
Isso permitiu transformar características técnicas em experiência.
3. Não confunda nicho com mercado pequeno.
Cosméticos naturais para bebês podem parecer uma categoria restrita.
Mas um nicho bem definido pode ser uma excelente porta de entrada para construir uma marca e depois ampliar o mercado.
4. Validação vem antes da escala.
A Booma começou com dois produtos, testou, desenvolveu, ajustou e construiu distribuição antes de ampliar significativamente o portfólio.
Crescer não significa lançar tudo de uma vez.
5. Diferenciação precisa ser percebida pelo cliente.
Não basta ter uma fórmula diferente.
É preciso que o consumidor perceba valor nela.
A pergunta que fica
Existe uma tendência de acreditar que empreendedores bem-sucedidos têm uma capacidade especial de prever o futuro.
Talvez seja menos mágico do que isso.
Eles simplesmente prestam atenção em problemas que outras pessoas aprenderam a aceitar.
A história da Booma mostra exatamente isso.
Uma mãe procurava um produto melhor para a filha.
Encontrou uma lacuna.
Transformou a lacuna em produto.
O produto virou marca.
A marca virou negócio.
E o negócio agora mira R$ 50 milhões em faturamento.
Talvez a próxima grande oportunidade da sua empresa esteja exatamente em uma reclamação que você ouviu ontem e decidiu ignorar.
Porque inovação, muitas vezes, não começa quando alguém inventa alguma coisa.
Começa quando alguém se recusa a aceitar que “sempre foi assim”.
Sobre o autor

248 matérias publicadas
Thiago A. Busarello é cristão. Especialista em negócios, inovação e estratégia, com atuação direta na estruturação, gestão e escala de empresas, combinando experiência prática de mercado com visão orientada a dados, tecnologia e tomada de decisão. Com formação em Administração, MBA em Finanças pela FGV e especializações em ciência de dados, governança e investimento, atua como investidor-anjo, mentor e executivo, apoiando empresas e empreendedores na construção de modelos de negócio mais eficientes, competitivos e preparados para crescer de forma sustentável em um cenário cada vez mais dinâmico.
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