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Indústria

21 meses pessimista com o país. E otimista com a empresa.

A CNI divulgou em 14 de setembro o ICEI de setembro: 44,9 pontos e 21 meses seguidos abaixo da linha dos 50. O número que interessa está dentro do índice: o empresário dá 39,1 para o futuro da economia brasileira e 51,3 para o futuro da própria empresa.

21 meses pessimista com o país. E otimista com a empresa.
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A Confederação Nacional da Indústria divulgou em 14 de setembro o Índice de Confiança do Empresário Industrial de setembro: 44,9 pontos, queda de 1,4 ponto sobre agosto. O índice vai de 0 a 100 e a linha de corte é 50. Abaixo disso há mais empresário pessimista do que otimista. A indústria brasileira está abaixo de 50 há 21 meses seguidos, a sequência mais longa da série desde 2015 e 2016. A pesquisa ouviu 1.186 empresas entre 1º e 8 de setembro, sendo 475 pequenas, 441 médias e 270 grandes.

O 44,9 virou manchete. Não é o número mais interessante da tabela. Quando se abre o índice, aparece um descolamento que explica melhor como se decide investimento no Brasil do que qualquer média. Perguntado sobre o futuro da economia brasileira, o empresário marca 39,1. Perguntado sobre o futuro da própria empresa, marca 51,3. São doze pontos de distância, e só a segunda resposta fica do lado otimista da régua.

O empresário desconfia do país e confia em si

A assimetria se repete na avaliação do presente. Sobre a economia brasileira hoje, o índice é 33. Sobre as condições da própria empresa hoje, 43,8. Dez pontos e oito décimos de diferença medindo o mesmo momento, pelas mesmas 1.186 pessoas. Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI, disse que a queda foi generalizada e apareceu em todos os componentes. Generalizada, sim. Uniforme, não.

Isso não é contradição. É leitura de risco. O empresário conhece a própria carteira, o próprio custo e o próprio time. Do país, ele sabe o que lê. A primeira avaliação é feita com dado, a segunda com narrativa. A distância entre as duas mede quanto o ambiente virou ruído para quem precisa decidir.

Confiança vira data de compra

Sentimento empresarial não fica no campo do humor. Ele vira calendário.

O IBGE mostrou em 2 de setembro que a Formação Bruta de Capital Fixo, que é o investimento produtivo, cresceu 1,2% no segundo trimestre sobre o trimestre anterior e 1,4% em doze meses. Parece positivo até olhar a proporção. A taxa de investimento ficou em 16,1% do PIB no trimestre, contra 16,6% um ano antes. O BNDES, comentando os mesmos dados, calcula 16,7% no acumulado de quatro trimestres e lembra que no fim de 2013 essa taxa chegou perto de 20%.

Junte as duas leituras. O PIB cresceu 0,5% no trimestre e 1,9% em quatro trimestres. A empresa brasileira está crescendo, e está crescendo usando o que já tem. Investimento sobe pouco e perde participação no bolo. Esse é exatamente o comportamento de quem acha que a própria casa vai bem e o país não: mantém a operação, aperta o que dá, e adia a compra que só se paga em cinco anos.

O que a operação enxerga antes do índice

Quem toca ativo físico em escala convive com esse descompasso todo mês. Nos mais de mil pátios que operamos país afora, decisão de trocar equipamento nunca saiu de um índice de confiança. Ela sai da conta do dia em que manter o antigo ficou mais caro do que comprar o novo.

Vale para qualquer ativo. Máquina, veículo, software, ponto comercial. Quem espera o ambiente melhorar para investir está terceirizando para o país uma decisão que é da empresa. E quem tem gatilho escrito, com número e prazo, decide igual em janeiro e em setembro, com ICEI em 44,9 ou em 60.

A pergunta prática é simples e quase ninguém tem a resposta no papel: qual é o número que dispara a sua próxima compra de capacidade? Se a resposta depende de como você acordou, não é gestão. É clima.

O índice também erra

Aqui cabe o contraditório, inclusive contra o que escrevi acima.

O ICEI mede sentimento declarado, não fato consumado. E o sentimento errou. Foram 21 meses de pessimismo convivendo com PIB em alta de 1,9% em quatro trimestres e com produção industrial subindo 0,2% em julho, depois de dois meses de queda. Empresário pessimista contratou, produziu e cresceu. Quem tivesse desligado o investimento em janeiro de 2025 por causa do índice teria perdido dois anos de mercado.

Há custo dos dois lados, e ele tem nome. Segurar investimento por 21 meses não cancela a despesa, só empurra: o fornecedor de bens de capital vive de pedido de expansão e não de manutenção, e é o primeiro a sentir; o time opera equipamento velho e vê a produtividade travar sem entender por quê; e a própria empresa vai comprar mais tarde, com ativo mais caro e concorrente já instalado. A distância entre 16,1% e os quase 20% de 2013 é a soma dessas esperas.

Do outro lado, ler o 51,3 como licença para investir sem margem é o erro simétrico. Confiar na própria empresa não é o mesmo que prever o mercado dela. Otimismo sem caixa de folga é a forma mais cara de estar certo.

O índice mede o que o empresário sente. O balanço mede o que ele fez.

#Indústria#CNI#gestão#investimento#confiança do empresário
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Sobre o autor

Johnny BrandtColunista

34 matérias publicadas

CEO e co-fundador da CloudPark, empresa especializada em tecnologia para gestão e automação de estacionamentos. Apaixonado por automação, empreendedor, investidor e palestrante, dedico minha trajetória a desenvolver soluções que simplificam operações, geram resultados e impulsionam a evolução da mobilidade urbana. Há mais de 12 anos lidero equipes, projetos e estratégias de crescimento, sempre com foco em inovação, eficiência e experiência do cliente. Acredito que grandes transformações acontecem quando tecnologia, pessoas e propósito trabalham na mesma direção.

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