Tarifaço em vigor. Agora, cabe ao empresário diversificar
O tarifaço entrou em vigor e o Governo Federal anunciou R$ 18,5 bilhões em crédito para as empresas atingidas. A medida amplia o debate sobre política externa, socorro estatal e responsabilidade empresarial. Agora, diversificar mercados será fundamental para reduzir riscos e enfrentar novas rupturas.

Na coluna anterior, tratei do tarifaço dos Estados Unidos e das medidas que os empresários brasileiros deveriam adotar diante de um cenário ainda em formação. Desde então, a ameaça tornou-se realidade. A tarifa adicional de 25% entrou em vigor em 22 de julho e poderá atingir bilhões de dólares em exportações brasileiras. Como resposta, o Governo Federal anunciou R$ 18,5 bilhões em linhas de crédito subsidiado para empresas afetadas, especialmente dos setores de aço, alumínio e calçados.
A medida abre uma discussão necessária sobre o papel do Estado em crises dessa natureza. Dos recursos anunciados, R$ 13,5 bilhões virão do Tesouro Nacional e R$ 5 bilhões do BNDES. O dinheiro poderá financiar capital de giro, aquisição de equipamentos, inovação, adaptação de produtos e prospecção de novos mercados. Ainda que sejam operações de crédito, existe participação pública no custo e no risco desse socorro. Consequentemente, o debate interessa a toda a sociedade.
A intervenção encontra justificativa na preservação de empregos, cadeias produtivas e empresas economicamente viáveis atingidas por uma decisão externa. A interrupção repentina das exportações pode comprometer regiões inteiras, fornecedores e milhares de trabalhadores. Todavia, o apoio precisa ser temporário, transparente e vinculado a metas objetivas. Sem essas condições, o crédito subsidiado poderá sustentar estruturas vulneráveis e transferir parte do custo ao contribuinte.
Também é necessário examinar como chegamos até aqui. Os Estados Unidos atribuem a tarifa a práticas brasileiras relacionadas a pagamentos eletrônicos, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, políticas tarifárias e desmatamento. O Brasil contesta essas acusações e lembra que os americanos mantêm historicamente resultados comerciais favoráveis na relação bilateral. Ao mesmo tempo, o governo Trump utiliza tarifas como instrumento recorrente de pressão econômica e política.
A política externa brasileira também precisa ser avaliada. Cabe ao governo explicar quais medidas foram tomadas para antecipar o conflito, defender os setores produtivos e preservar uma relação comercial estratégica. A deterioração diplomática, as divergências regulatórias e a dificuldade de negociação compõem o ambiente que permitiu o avanço da crise. O tarifaço possui causas compartilhadas, porém o empresário brasileiro acabou recebendo a conta mais imediata.
Nesse contexto, o pacote de crédito carrega um componente político evidente. O governo demonstra reação, protege empregos e oferece uma resposta aos setores atingidos. A questão central está na destinação efetiva dos recursos. Caso os R$ 18,5 bilhões sejam utilizados somente para financiar estoques, cobrir prejuízos e manter a estrutura atual, compraremos algum tempo e conservaremos a mesma exposição. O resultado precisa ser medido pela capacidade das empresas de conquistar novos clientes e mercados.
Essa responsabilidade também pertence aos empresários. Dependência excessiva de um país, cliente, fornecedor ou canal comercial representa uma concentração de risco que precisa constar nos indicadores da empresa. A operação pode apresentar faturamento crescente e boa rentabilidade durante anos, enquanto permanece vulnerável a uma única decisão tomada fora de seus limites. O tarifaço apenas tornou essa fragilidade mais visível.
A estratégia de médio prazo começa pelo mapeamento da concentração de receita e margem. Cada empresa precisa conhecer quanto do seu resultado depende dos Estados Unidos, quais produtos possuem maior exposição e quanto tempo o caixa suporta uma redução nas vendas. Em seguida, deve estabelecer limites de concentração por país, cliente e distribuidor, criando metas progressivas de diversificação.
A abertura de novos mercados exigirá pesquisa, certificações, adequação de embalagens, revisão de preços, parceiros locais e capacidade logística. Europa, Ásia, América Latina e o próprio mercado interno podem oferecer oportunidades, conforme as características de cada setor. Esse processo demanda tempo e investimento, razão pela qual o crédito público pode cumprir uma função relevante quando direcionado à adaptação produtiva e à expansão comercial.
A diversificação já está acontecendo. Segundo levantamento divulgado pela ApexBrasil, 72% das aproximadamente 2,4 mil empresas que exportavam para os Estados Unidos alcançaram outros mercados entre junho de 2025 e maio de 2026. O dado mostra capacidade de reação, entretanto também revela que quase três em cada dez empresas ainda permanecem sem uma alternativa internacional consolidada.
O Estado pode oferecer crédito, negociar acordos e apoiar a promoção comercial. Os empresários precisam utilizar essa janela para construir operações mais resistentes. Daqui a alguns anos, o sucesso do programa deverá ser avaliado pelo número de empresas que reduziram sua concentração e ampliaram sua presença internacional.
O tarifaço deixou uma pergunta que ultrapassa o comércio exterior: se o maior cliente, fornecedor ou canal de vendas da sua empresa desaparecesse amanhã, ela conseguiria continuar operando? A resposta precisa estar nos indicadores, nos contratos, na reserva financeira e na diversificação construída antes da próxima crise.
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Pai do Pedro e da Eva; Diretor da Elevion Consultoria; Diretor de Negócios da Rede de Franquias Animal Farma. Consultor e Conselheiro Empresarial.
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