Se eu fosse construir minha casa hoje, faria isso diferente
Se eu fosse construir minha casa hoje, faria escolhas muito mais voltadas à vida real do que à aparência. Menos metros quadrados e mais qualidade, melhores esquadrias, iluminação mais confortável, tecnologia invisível, espaços flexíveis, armazenamento inteligente e atenção ao que ninguém vê na obra. Depois de acompanhar tantos projetos, uma coisa fica clara: a melhor casa não é a que mais impressiona quando fica pronta, mas a que continua funcionando bem depois de muitos anos.

Depois de projetar e acompanhar obras, existe uma coisa que fica muito clara: algumas decisões que parecem importantes antes de construir deixam de ser tão importantes depois que a casa começa a ser vivida. E outras, que quase ninguém valoriza no início, fazem diferença todos os dias.
Se eu fosse construir minha própria casa hoje, não começaria escolhendo a pedra da cozinha, o formato da piscina ou procurando referências de fachada.
Começaria por decisões muito menos interessantes para o Instagram — e muito mais importantes para morar bem.
Eu construiria menos metros quadrados e investiria mais em cada um deles
Talvez essa fosse minha primeira decisão.
Existe uma tendência de pensar que uma casa melhor precisa necessariamente ser maior. Mas cada metro quadrado adicional significa fundação, estrutura, cobertura, piso, pintura, iluminação, climatização, mobiliário e manutenção.
Hoje eu preferiria uma casa um pouco menor, mas com esquadrias melhores, materiais melhores, iluminação bem pensada e marcenaria realmente funcional.
Não economizaria no que uso todos os dias para manter ambientes que utilizarei algumas vezes por ano.
Eu escolheria o terreno pensando na casa — não apenas no endereço
Um terreno incrível pode produzir uma obra extremamente cara.
Antes de comprar, analisaria orientação solar, topografia, incidência de ventos, acesso, privacidade, vizinhança, legislação e condições para implantação.
E prestaria muita atenção aos desníveis.
Uma vista maravilhosa pode justificar uma implantação mais complexa. Mas gastar uma parte enorme do orçamento com contenções e movimentação de terra simplesmente porque ninguém estudou isso antes da compra é outra história.
Eu projetaria antes de me apaixonar pelo terreno.
Eu faria uma casa para uma terça-feira comum
Essa talvez seja minha principal regra.
É muito fácil projetar imaginando festas, convidados e grandes momentos.
Mas a maior parte da vida acontece em dias absolutamente normais.
Onde deixamos a bolsa quando chegamos?
Onde carregamos o celular?
Onde ficam as compras antes de serem guardadas?
Onde escondemos aspirador, malas, produtos de limpeza e roupa para passar?
Onde o cachorro entra quando está com as patas molhadas?
Eu projetaria primeiro para essas situações.
Porque uma casa realmente sofisticada não é aquela que impressiona uma visita durante duas horas.
É aquela que facilita a vida de quem mora nela todos os dias.
Eu faria uma despensa maior do que provavelmente imaginaria no início
E talvez diminuísse um pouco a cozinha para conseguir isso.
Cozinhas contemporâneas ficaram lindas, integradas ao living e cada vez mais sofisticadas. Mas junto delas vieram cafeteiras, air fryers, processadores, torradeiras, utensílios e uma quantidade enorme de objetos.
Eu criaria um espaço de apoio muito bem planejado para esconder parte dessa operação.
Quanto mais limpa visualmente queremos uma cozinha, mais precisamos pensar onde ficará tudo aquilo que não queremos ver.
Eu gastaria mais com esquadrias e menos com alguns revestimentos
Uma pedra pode ser maravilhosa.
Mas uma boa esquadria influencia iluminação natural, conforto térmico, acústica, ventilação e a relação da casa com a paisagem.
É uma decisão que você percebe praticamente todos os dias.
Se precisasse escolher entre uma superfície extremamente sofisticada em determinado ambiente e melhorar significativamente o desempenho das esquadrias da casa, provavelmente escolheria a segunda opção.
O revestimento chama atenção na fotografia.
Conforto aparece na rotina.
Eu faria menos iluminação no teto
Não significa deixar a casa escura.
Significa trabalhar melhor a luz.
Usaria mais iluminação indireta, luminárias decorativas, arandelas, abajures, luz incorporada à arquitetura e diferentes cenas para diferentes horários.
Uma casa não precisa ter a mesma iluminação às 8h da manhã e às 22h.
E definitivamente não precisa parecer uma loja com todos os spots ligados simultaneamente.
Eu esconderia a tecnologia
Automação? Sim.
Áudio? Sim.
Climatização? Sim.
Segurança, internet, carregamento para carro elétrico e infraestrutura para tecnologias futuras? Também.
Mas tentaria fazer com que praticamente nada disso dominasse visualmente os ambientes.
A casa tecnologicamente mais interessante, para mim, seria aquela em que você percebe o conforto proporcionado pela tecnologia antes de perceber os equipamentos.
Eu faria pelo menos um ambiente capaz de mudar de função
Nossa vida muda mais rápido do que uma casa.
Um escritório pode virar dormitório. Um quarto de brinquedos pode virar sala de estudos. Um espaço pouco utilizado pode precisar receber alguém no futuro.
Por isso, evitaria ambientes tão específicos que só conseguem desempenhar uma função.
Projetaria alguma flexibilidade desde o início.
A verdadeira casa para o futuro não precisa prever exatamente o que acontecerá.
Ela precisa conseguir se adaptar quando acontecer.
Eu pensaria na manutenção enquanto tudo ainda estivesse bonito no 3D
Essa é uma pergunta que fazemos pouco:
“Como vamos acessar isso quando precisar de manutenção?”
Ar-condicionado, iluminação, automação, telhado, calhas, equipamentos da piscina, jardins, esquadrias e instalações precisarão de atenção em algum momento.
Se para trocar uma peça de R$ 200 for necessário desmontar R$ 10 mil de marcenaria, alguma coisa foi mal resolvida.
Eu não compraria todos os móveis antes de morar na casa
Esse talvez surpreenda.
Faria projeto, definiria peças essenciais e deixaria alguns espaços respirarem.
Porque uma casa interessante também é construída ao longo do tempo.
Uma obra de arte encontrada em uma viagem. Uma poltrona que você realmente ama. Um objeto herdado. Uma peça de um artista local.
Quando compramos absolutamente tudo de uma vez, existe o risco de a casa ficar perfeita — e parecer um showroom.
Eu deixaria espaço para a vida terminar o projeto.
E eu reservaria dinheiro para aquilo que ninguém fotografa
Impermeabilização. Elétrica. Hidráulica. Isolamento. Infraestrutura. Drenagem. Preparação. Execução correta.
São provavelmente as coisas menos interessantes para mostrar quando a casa fica pronta.
Mas podem ser justamente as mais caras quando dão errado.
Se o orçamento precisasse ser reduzido, eu preferiria deixar uma poltrona para comprar no próximo ano do que economizar em algo que ficará escondido dentro de uma parede pelos próximos 20 anos.
No fim, se eu construísse minha casa hoje, talvez a maior mudança fosse esta:
eu tentaria impressionar menos no primeiro dia e viver melhor nos próximos vinte anos.
Porque depois de acompanhar tantas decisões de projeto e obra, percebemos que luxo não está apenas naquilo que uma casa tem.
Está na quantidade de pequenos problemas que alguém pensou antes para que você nunca precise percebê-los depois.
Sobre o autor

75 matérias publicadas
Arquiteta e designer, especializada em Arquitetura e Design pelo Politécnico de Milão. Acredito que a arquitetura deve ir além da estética: ela precisa traduzir a identidade, a história e o estilo de vida de quem irá viver cada espaço. Por isso, não acredito em projetos prontos ou soluções replicadas. Cada criação é única, pensada para refletir a essência de cada cliente. À frente da Bruna Pieritz Arquitetura, desenvolvo projetos completos de arquitetura e interiores, unindo estratégia, funcionalidade, sofisticação e atenção aos detalhes para criar ambientes autênticos, atemporais e cheios de significado.
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