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Inovação

As grifes estão invadindo a arquitetura

As grandes grifes estão ultrapassando as passarelas e entrando definitivamente no universo da arquitetura e dos interiores. Mobiliário colecionável, artesanato, materiais naturais, peças únicas e experiências espaciais mostram uma mudança importante no conceito de luxo: menos logotipo e mais identidade. Louis Vuitton, Dior, Loewe, Gucci e Prada revelam que o futuro do alto padrão está na autoria, na história e naquilo que não pode ser facilmente reproduzido. A moda entendeu que não basta mais vestir pessoas — agora ela quer criar universos inteiros.

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Durante décadas, as grandes maisons disputaram espaço no guarda-roupa. Hoje, uma transformação muito mais interessante está acontecendo: a moda está avançando sobre a arquitetura, o mobiliário, o artesanato e os interiores.

E não estamos falando apenas de colocar um logotipo famoso em uma almofada.

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As grifes perceberam que o verdadeiro mercado do luxo não termina quando o cliente tira o casaco ou guarda a bolsa. Ele continua na poltrona onde essa pessoa senta, na luminária sobre a mesa, na louça que utiliza e até na arquitetura dos lugares que frequenta.

É uma mudança importante porque aproxima dois universos que, na realidade, sempre falaram a mesma língua: moda e arquitetura trabalham identidade por meio de materiais, proporção, textura, história e desejo.

A Louis Vuitton é provavelmente um dos exemplos mais conhecidos dessa expansão. Com os Objets Nomades, a maison transformou sua tradição ligada às viagens em uma coleção de objetos e mobiliário desenvolvidos em colaboração com designers internacionais. O interessante é que não se trata simplesmente de “Louis Vuitton Home”. São peças quase colecionáveis, posicionadas entre mobiliário, escultura e objeto de arte.

A Dior também está levando seu savoir-faire para dentro da casa. Em sua apresentação no Salone del Mobile, a maison trabalhou com vidro soprado de Murano, cestaria artesanal japonesa e técnicas tradicionais transformadas em luminárias e objetos contemporâneos. Algumas peças são deliberadamente únicas, valorizando justamente as pequenas variações produzidas pela mão do artesão.

Isso revela algo que considero muito importante para os próximos anos: quanto mais industrializado e digital o mundo fica, mais valioso se torna aquilo que carrega evidências de que alguém realmente colocou a mão para fazê-lo.

A moda descobriu o poder do objeto imperfeito

Talvez nenhum movimento explique isso melhor que o da Loewe.

Na Milan Design Week de 2025, a marca convidou 25 artistas, designers e arquitetos para reinterpretar um objeto aparentemente banal: o bule de chá. Porcelana, cerâmica, diferentes esmaltes e superfícies experimentais transformaram o objeto doméstico em peça escultórica.

Parece um detalhe, mas existe uma mensagem enorme nisso.

O luxo está deixando de procurar apenas perfeição.

Ele está procurando autoria.

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A Gucci fez algo semelhante ao voltar sua atenção para um dos materiais mais importantes da história da marca: o bambu. Na Milan Design Week de 2025, o projeto Bamboo Encounters colocou designers para reinterpretarem esse material fora da lógica tradicional dos acessórios. A mensagem era novamente maior do que o produto: um material pode carregar identidade de marca tanto quanto um logotipo.

E essa talvez seja uma das melhores lições que a arquitetura pode retirar da moda.

O logotipo está perdendo espaço para o código

Durante muito tempo, demonstrar luxo significava tornar a marca reconhecível.

Agora as maisons mais interessantes parecem entender que existe algo ainda mais poderoso: criar uma estética que seja reconhecida sem precisar escrever o nome da marca nela.

Uma trama, uma proporção, determinado couro, uma técnica artesanal, uma combinação de materiais ou uma maneira específica de trabalhar uma superfície podem funcionar como assinatura.

Na arquitetura deveria acontecer exatamente o mesmo.

Um projeto verdadeiramente autoral não deveria precisar ser reconhecido porque possui determinada pedra da moda. Ele deveria ser reconhecido pela maneira como seus elementos foram combinados.

Algumas grifes estão indo ainda além: querem participar da discussão sobre arquitetura

A Prada é um ótimo exemplo.

Em vez de simplesmente lançar uma coleção de móveis durante o Salone del Mobile, a marca criou o Prada Frames, um simpósio anual dedicado ao diálogo entre diferentes áreas do conhecimento. Em 2025, o tema foi infraestrutura e mobilidade, com discussões sobre inteligência artificial, ambiente construído, logística e ecologia realizadas inclusive dentro do histórico trem Arlecchino, projetado nos anos 1950 por Gio Ponti e Giulio Minoletti.

Perceba a mudança.

A marca de moda não está apenas querendo vender algo para colocar dentro da arquitetura.

Ela quer participar da conversa sobre como pensamos o espaço.

O próximo símbolo de status pode não estar no closet

Esse movimento ajuda a explicar por que mobiliário colecionável, artesanato, pedras excepcionais, vidros artísticos, tapeçarias, luminárias escultóricas e peças produzidas em pequenas séries estão recebendo tanta atenção.

A casa está se transformando em uma nova forma de expressão pessoal.

Uma bolsa acompanha alguém durante algumas horas.

Uma casa envolve essa pessoa todos os dias.

Por isso, existe uma oportunidade enorme para o mercado de interiores: o consumidor que aprendeu com a moda a reconhecer acabamento, procedência, história e exclusividade está começando a exigir essa mesma sofisticação dentro de casa.

E isso pode mudar inclusive aquilo que entendemos como uma residência de alto padrão.

Talvez a casa mais sofisticada dos próximos anos não seja aquela com a maior quantidade de mármore, móveis famosos ou objetos caros.

Será aquela onde alguém entra e consegue perceber imediatamente:

“Isso não poderia pertencer a qualquer pessoa.”

Porque é exatamente isso que as grandes grifes sabem fazer há décadas.

Elas não vendem simplesmente roupas.

Elas constroem universos.

E agora esses universos estão saindo das passarelas para ocupar salas, hotéis, restaurantes, móveis, objetos — e, cada vez mais, a própria arquitetura.

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Sobre o autor

Bruna PieritzColunista

75 matérias publicadas

Arquiteta e designer, especializada em Arquitetura e Design pelo Politécnico de Milão. Acredito que a arquitetura deve ir além da estética: ela precisa traduzir a identidade, a história e o estilo de vida de quem irá viver cada espaço. Por isso, não acredito em projetos prontos ou soluções replicadas. Cada criação é única, pensada para refletir a essência de cada cliente. À frente da Bruna Pieritz Arquitetura, desenvolvo projetos completos de arquitetura e interiores, unindo estratégia, funcionalidade, sofisticação e atenção aos detalhes para criar ambientes autênticos, atemporais e cheios de significado.

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