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Construção Civil

Projetos difíceis? Ou falta de vontade?

Terrenos complexos, reformas, curvas, balanços, grandes vãos e estruturas desafiadoras fazem muitos profissionais buscar soluções mais simples. Para nós, são justamente essas limitações que podem gerar os projetos mais autorais — desde que criatividade, engenharia e execução caminhem juntas.

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Terreno inclinado. Lote estreito. Uma esquina complicada. Estrutura existente que não pode ser alterada. Grandes vãos. Curvas. Balanços. Uma reforma que parece impossível. Um cliente querendo algo que ninguém sabe exatamente como executar.

Existem projetos que muitos profissionais olham e pensam:

“Por que não simplificar?”

Nós normalmente pensamos o contrário:

como podemos fazer isso funcionar?

Talvez seja uma das características que mais definem nossa maneira de enxergar arquitetura. Gostamos dos projetos difíceis. Gostamos quando o terreno não entrega a resposta imediatamente, quando a planta precisa ser estudada dezenas de vezes e quando a solução não está pronta na primeira referência encontrada.

Porque é justamente nesses projetos que a arquitetura deixa de ser reprodução e começa a ser criação.

O terreno difícil pode produzir a melhor casa

Existe uma ideia muito comum de que o terreno perfeito é plano, retangular e sem grandes condicionantes.

Claro que ele facilita a construção.

Mas facilitar não significa necessariamente produzir a arquitetura mais interessante.

Um terreno com declive pode permitir que a casa praticamente desapareça na paisagem, criar pavimentos em diferentes níveis, proporcionar vistas inesperadas ou permitir acessos completamente diferentes.

Um lote estreito obriga a pensar iluminação e ventilação de outra maneira.

Uma esquina pode criar duas fachadas principais.

Uma orientação solar aparentemente ruim pode exigir soluções de proteção que acabam definindo toda a identidade da construção.

Aquilo que inicialmente parece um problema muitas vezes acaba sendo justamente o elemento que cria o projeto.

E gostamos quando a forma também desafia

Nem toda parede precisa estar onde seria mais fácil colocá-la.

Nem todo volume precisa terminar exatamente onde a estrutura gostaria.

Às vezes queremos uma curva.

Uma abertura enorme.

Uma cobertura diferente.

Uma escada que se transforma em elemento escultórico.

Uma fachada que parece desafiar a gravidade.

É claro que existe uma diferença enorme entre complexidade e complicação.

Não acreditamos em criar algo difícil apenas para parecer diferente.

A boa complexidade precisa ter propósito.

Pode melhorar uma vista, resolver insolação, criar privacidade, liberar o térreo, conectar ambientes ou simplesmente proporcionar uma experiência espacial que uma solução convencional não conseguiria.

Quando existe motivo, vale investigar.

“Mas isso dá para fazer?”

Talvez essa seja uma das perguntas que mais gostamos de ouvir.

Porque nossa primeira resposta raramente é “não”.

É:

vamos descobrir como.

E aí começa uma parte da arquitetura que muitas vezes não aparece nas imagens bonitas.

Conversamos com engenheiros.

Estudamos estrutura.

Compatibilizamos instalações.

Mudamos espessuras.

Testamos materiais.

Conversamos com fornecedores.

Fazemos detalhes.

Voltamos para o projeto.

Mudamos novamente.

Até aquilo que parecia impossível começar a fazer sentido tecnicamente.

É aí que arquitetura, engenharia e execução precisam trabalhar realmente juntas.

O computador aceita tudo. A obra, não.

Hoje conseguimos desenhar praticamente qualquer forma.

Esse é justamente o perigo.

Uma curva maravilhosa na tela precisa encontrar um material capaz de executá-la.

Um balanço precisa encontrar uma estrutura.

Uma fachada precisa lidar com água, dilatação, manutenção e envelhecimento.

Um detalhe minimalista muitas vezes exige uma quantidade enorme de engenharia escondida.

Por isso gostamos da arquitetura ousada, mas temos ainda mais interesse pela pergunta:

como isso será construído?

Porque o projeto não termina no render.

Para nós, ele só faz sentido quando aquilo que imaginamos consegue sair da tela e existir de verdade.

Muitos fogem da reforma. Nós gostamos ainda mais.

Talvez nenhum projeto exija tanta criatividade quanto uma boa reforma.

Você começa com paredes que já existem, pilares que não podem sair, instalações antigas, níveis diferentes e surpresas escondidas.

Não existe folha em branco.

Existe um quebra-cabeça.

E justamente por isso uma reforma pode exigir mais arquitetura do que começar do zero.

Precisamos decidir o que permanece, o que desaparece e, principalmente, como fazer o novo parecer que sempre deveria ter estado ali.

A restrição pode ser combustível criativo

Existe uma frase que repetimos muito na prática:

se tudo fosse permitido, talvez muitos projetos fossem menos interessantes.

É quando aparece o “não pode” que começamos a procurar outra saída.

E às vezes a segunda saída é muito melhor do que a primeira.

Por isso não enxergamos um terreno complicado, uma estrutura difícil ou um programa incomum necessariamente como problemas.

Enxergamos como informações.

São elas que começam a dar personalidade ao projeto.

Talvez seja por isso que gostamos tanto dos difíceis

Porque projetos fáceis podem ser resolvidos.

Projetos difíceis precisam ser descobertos.

Eles exigem mais estudo, mais conversa, mais engenharia, mais desenho e, muitas vezes, mais coragem.

Mas também são aqueles que dificilmente poderiam ser simplesmente copiados para outro endereço.

Pertencem àquele terreno.

Àquele cliente.

Àquela estrutura.

Àquele problema.

E talvez seja justamente esse tipo de arquitetura que mais nos interessa.

Não queremos complicar aquilo que pode ser simples.

Mas também não queremos simplificar uma ideia incrível apenas porque ela exige mais trabalho para acontecer.

Enquanto alguns olham para um projeto difícil e enxergam um problema, nós normalmente enxergamos outra coisa:

a oportunidade de criar algo que ainda não existe.

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Sobre o autor

Bruna PieritzColunista

81 matérias publicadas

Arquiteta e designer, especializada em Arquitetura e Design pelo Politécnico de Milão. Acredito que a arquitetura deve ir além da estética: ela precisa traduzir a identidade, a história e o estilo de vida de quem irá viver cada espaço. Por isso, não acredito em projetos prontos ou soluções replicadas. Cada criação é única, pensada para refletir a essência de cada cliente. À frente da Bruna Pieritz Arquitetura, desenvolvo projetos completos de arquitetura e interiores, unindo estratégia, funcionalidade, sofisticação e atenção aos detalhes para criar ambientes autênticos, atemporais e cheios de significado.

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