A maior tendência da arquitetura não é um estilo
A principal tendência da arquitetura não está nas cores, pedras ou estilos do momento, mas na personalização. Depois de anos de ambientes cada vez mais semelhantes, cresce a busca por casas que traduzam rotina, personalidade e história de quem realmente vive nelas.

Todos os anos acontece praticamente a mesma coisa.
Qual será a cor do ano? Qual pedra estará em alta? Madeira clara ou escura? Minimalismo ou maximalismo? Formas orgânicas ou linhas retas?
Mas, acompanhando projetos, obras, feiras e lançamentos, tenho a sensação de que estamos olhando para o lugar errado.
A maior tendência da arquitetura não é uma cor, uma pedra ou um estilo. É a personalização.
E talvez essa mudança seja muito maior do que parece.
Durante alguns anos, principalmente com a força das redes sociais, começamos a ver casas cada vez mais parecidas. O mesmo sofá curvo. A mesma pedra. A mesma paleta bege. A mesma iluminação indireta. A mesma marcenaria.
Projetos impecáveis tecnicamente, mas que poderiam pertencer a qualquer pessoa.
Só que existe um movimento contrário começando a ganhar força.
As pessoas estão cansando de morar dentro de referências.
Elas querem morar dentro da própria história.
A casa está ficando pessoal novamente
No escritório, percebemos cada vez mais clientes chegando com pedidos que dificilmente apareceriam em uma lista de tendências.
Um espaço específico para determinada coleção. Um closet pensado exatamente para a maneira como aquela pessoa se veste. Uma cozinha desenhada para quem realmente cozinha. Um ambiente para receber amigos. Um canto de leitura. Espaços para animais de estimação. Soluções de wellness, automação, segurança, acústica ou iluminação completamente adaptadas à rotina daquela família.
São essas decisões que começam a diferenciar uma casa bonita de uma casa realmente boa.
Porque talvez o maior luxo contemporâneo seja justamente este:
entrar em uma casa e saber imediatamente quem mora ali.
Isso também muda o conceito de luxo
Durante muito tempo, luxo na arquitetura esteve muito associado ao material.
Mármore raro. Madeira especial. Metais sofisticados. Mobiliário assinado.
Tudo isso continuará existindo.
Mas acredito que estamos entrando em uma fase em que o luxo será cada vez mais associado àquilo que foi pensado exclusivamente para você.
Uma bancada pode ser extremamente sofisticada não pela pedra escolhida, mas porque sua altura foi definida para quem realmente vai utilizá-la.
Um closet pode ser luxuoso não pelo tamanho, mas porque cada gaveta corresponde exatamente ao que precisa ser guardado.
Uma iluminação pode transformar completamente uma residência quando acompanha o ritmo do dia e a rotina dos moradores.
O luxo deixa de ser somente aquilo que você consegue comprar e passa a ser aquilo que foi pensado para você.
Por isso copiar referências está ficando velho
Pinterest, Instagram e revistas continuam sendo ferramentas incríveis para descobrir possibilidades.
O problema começa quando a referência deixa de ser inspiração e vira projeto.
Uma casa não deveria nascer de uma sequência de imagens salvas.
Ela deveria nascer de perguntas.
Como essa família acorda? Onde toma café? Recebe muitas pessoas? Trabalha em casa? Cozinha? Viaja? Tem filhos? Tem animais? Prefere silêncio? Gosta de ambientes escuros ou claros? Quer uma casa para mostrar ou uma casa para desaparecer do mundo?
Essas respostas deveriam influenciar a arquitetura muito antes da escolha da pedra da bancada.
A próxima arquitetura será menos sobre tendências
Curiosamente, quanto mais acesso temos às tendências mundiais, mais importante se torna criar identidade.
Estamos vendo materiais, móveis e referências praticamente ao mesmo tempo em Milão, Paris, Nova York, São Paulo ou Santa Catarina.
Isso democratizou repertório, mas também criou uma enorme repetição estética.
Por isso acredito que os projetos mais interessantes dos próximos anos serão justamente aqueles mais difíceis de colocar dentro de um estilo.
Casas que misturam peças contemporâneas com memórias de família. Tecnologia com materiais naturais. Design internacional com produção local. Elementos sofisticados com objetos afetivos.
Projetos que talvez não sejam perfeitamente classificáveis.
Mas sejam perfeitamente reconhecíveis.
Se eu tivesse que apostar em uma única tendência...
Não apostaria no travertino.
Não apostaria no cromado.
Não apostaria no vinho, no verde, no bege ou em qualquer outra cor.
Também não apostaria no minimalismo, maximalismo ou modernismo orgânico.
Apostaria em casas cada vez menos genéricas.
Porque materiais mudam.
Cores mudam.
Estilos voltam.
Mas existe algo que dificilmente ficará ultrapassado:
uma arquitetura que parece ter sido feita para aquela pessoa — e que não faria o mesmo sentido para nenhuma outra.
Talvez essa seja a verdadeira evolução que estamos começando a ver.
Depois de tantos anos perguntando qual será a próxima tendência da arquitetura, talvez finalmente estejamos fazendo uma pergunta muito mais interessante:
quem é a pessoa que vai viver aqui?
Sobre o autor

81 matérias publicadas
Arquiteta e designer, especializada em Arquitetura e Design pelo Politécnico de Milão. Acredito que a arquitetura deve ir além da estética: ela precisa traduzir a identidade, a história e o estilo de vida de quem irá viver cada espaço. Por isso, não acredito em projetos prontos ou soluções replicadas. Cada criação é única, pensada para refletir a essência de cada cliente. À frente da Bruna Pieritz Arquitetura, desenvolvo projetos completos de arquitetura e interiores, unindo estratégia, funcionalidade, sofisticação e atenção aos detalhes para criar ambientes autênticos, atemporais e cheios de significado.
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