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Construção Civil

Wellness: o novo luxo não é ter mais. É viver melhor.

O wellness está deixando de ser apenas spa, academia e lazer para se tornar uma nova forma de pensar a arquitetura. De Santa Catarina à Paraíba, novos empreendimentos mostram que o verdadeiro luxo está na qualidade de vida. Mas o futuro vai além dos prédios: está em criar casas personalizadas para o bem-estar de cada morador, considerando silêncio, sono, iluminação, natureza, tecnologia e, principalmente, a forma como cada pessoa deseja se sentir dentro de casa.

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Na semana passada, durante a Design Week, um dos talks trouxe um assunto que ficou comigo: o crescimento do mercado de wellness e o quanto ainda precisamos olhar para ele com mais atenção.

E eu acrescentaria uma provocação: a arquitetura ainda explora muito pouco o verdadeiro potencial desse mercado.

Quando ouvimos a palavra wellness, é comum imaginar spa, sauna, academia, piscina aquecida, sala de massagem e ambientes cercados pela natureza.

Mas wellness é muito maior do que isso.

E basta observar alguns dos novos empreendimentos que estão surgindo pelo Brasil para perceber que estamos diante de uma mudança importante no mercado imobiliário.

Em Santa Catarina, temos dois exemplos muito fortes.

O Atmosphere Home Spa, da Dall, na Praia Brava, leva o wellness para o próprio conceito do empreendimento. Não estamos falando apenas de acrescentar uma academia ou um spa à lista de áreas comuns, mas de pensar diferentes sistemas e experiências da edificação a partir de bem-estar, longevidade e qualidade de vida.

O Senna Tower, da FG, em Balneário Camboriú, também mostra essa transformação em outra escala, destinando milhares de metros quadrados para experiências relacionadas a wellness, contemplação, atividade física e recuperação.

Mas esse movimento está longe de acontecer apenas em Santa Catarina.

Do Sul ao Nordeste, o mercado já começou a mudar

Um exemplo que me chamou bastante atenção está em João Pessoa, na Paraíba.

O NUI Handwritten Collection, primeiro hotel da marca Handwritten Collection no Brasil, está sendo desenvolvido em Tambaú com projeto assinado pela arquiteta Leila Azzouz.

E aqui aparece outra interpretação de wellness que considero muito interessante: a arquitetura biofílica.

O projeto trabalha iluminação natural, ventilação cruzada, materiais relacionados ao ambiente natural e integração visual entre interior e exterior. A proposta é fazer com que arquitetura, natureza e a própria experiência de João Pessoa conversem entre si.

Ou seja: wellness não aparece apenas em uma “sala de wellness”.

O próprio edifício participa da sensação de bem-estar.

E acredito que essa seja uma diferença fundamental para entendermos o que está acontecendo.

Em São Paulo, encontramos outro caminho.

O Lindenberg Moema, próximo ao Parque Ibirapuera, já apresenta o conceito de wellness design como parte da proposta residencial, unindo bem-estar, privacidade e qualidade da experiência de morar.

Também em São Paulo, o Bueno Brandão 257, na Vila Nova Conceição, leva essa discussão ainda mais longe: são mais de 1.300 m² dedicados ao wellness, combinados a uma proposta arquitetônica que aproxima natureza, paisagismo e vida urbana.

E no Rio de Janeiro encontramos movimentos semelhantes.

O Belavista Residencial, em Ipanema, por exemplo, foi apresentado com aproximadamente 650 m² destinados ao bem-estar, mostrando que o wellness começa a ocupar uma parcela cada vez mais importante do programa dos novos empreendimentos.

O que esses projetos estão mostrando?

Na minha opinião, algo muito maior do que uma nova lista de amenidades.

O mercado imobiliário começou a perceber que não vende apenas metros quadrados. Vende qualidade de vida.

Mas existe um problema: wellness não pode virar fórmula

Esse é justamente o ponto em que acredito que arquitetos e designers precisam entrar nessa discussão.

Porque existe o risco de repetirmos com o wellness aquilo que aconteceu com tantos outros movimentos do mercado.

Academia.

Sauna.

Spa.

Piscina.

Sala de massagem.

Espaço zen.

Pronto: empreendimento wellness.

Para mim, não é suficiente.

Wellness precisa começar pela pessoa, e não pelo catálogo de ambientes.

Nos projetos que desenvolvemos Brasil afora, percebemos cada vez mais clientes chegando com um relato parecido.

As pessoas estão cansadas.

Cansadas do excesso de informação.

Do barulho.

Da rotina acelerada.

De trabalhar dentro de casa.

De ambientes visualmente carregados.

E até de entrar nas redes sociais e encontrar centenas de casas que parecem exatamente iguais.

Ao mesmo tempo, quando perguntamos o que proporcionaria mais qualidade de vida, as respostas são completamente diferentes.

E é justamente aí que wellness começa a ficar realmente interessante.

Para alguém, wellness pode ser uma academia dentro do apartamento.

Para outra pessoa, uma banheira.

Para outra, uma cozinha enorme porque cozinhar aos domingos é seu momento de descompressão.

Pode ser um jardim.

Uma biblioteca.

Uma varanda onde bate o sol da manhã.

Uma adega para receber os amigos.

Uma suíte completamente silenciosa.

Ou simplesmente uma casa extremamente organizada onde tudo desaparece quando não está sendo utilizado.

Não existe uma estética universal do bem-estar.

O que podemos aprender com esses empreendimentos e levar para nossas casas?

Não precisamos reproduzir os milhares de metros quadrados de wellness de um grande empreendimento.

Precisamos entender a inteligência por trás deles.

1. Começar pela acústica

Acredito que esse será um dos grandes luxos residenciais dos próximos anos.

Silêncio.

Esquadrias adequadas, portas, tecidos, cortinas, forros, revestimentos acústicos e uma boa distribuição dos ambientes podem transformar completamente uma residência.

2. Projetar iluminação pensando no relógio das pessoas

Uma casa não deveria oferecer a mesma luz às 8h da manhã e às 22h.

Precisamos pensar mais em luz natural, diferentes temperaturas e intensidades e cenas de iluminação capazes de acompanhar os momentos do dia.

3. Trazer a biofilia além das plantas

O NUI, em João Pessoa, ajuda a mostrar isso muito bem.

Biofilia não significa simplesmente colocar vasos dentro de casa.

Significa trabalhar ventilação, iluminação natural, materiais, texturas, paisagem, vistas e a relação entre interior e exterior.

4. Criar espaços de descompressão

Nem toda casa precisa de uma “sala wellness”.

Às vezes, uma poltrona perfeitamente posicionada junto a uma janela pode cumprir melhor essa função.

Pode ser uma varanda.

Um banho.

Um jardim.

Uma biblioteca.

Uma pequena área para meditação.

O espaço precisa fazer sentido para o ritual daquela pessoa.

5. Projetar para dormir melhor

Acredito que ainda falamos pouco sobre sono dentro da arquitetura residencial.

Acústica, blackout, climatização, iluminação, automação, posição da cama e redução de estímulos deveriam fazer parte do projeto do quarto tanto quanto a escolha da cabeceira.

6. Diminuir o ruído visual

Esse é um ponto que trabalhamos muito nos interiores.

Onde ficará a cafeteira?

E os eletrodomésticos?

Cabos?

Equipamentos?

Produtos de uso diário?

Malas?

Objetos?

Quando o projeto prevê tudo isso desde o início, conseguimos criar ambientes visualmente muito mais tranquilos sem necessariamente transformá-los em espaços minimalistas.

7. Fazer a tecnologia desaparecer

Automação deveria simplificar a vida.

Iluminação, cortinas, climatização, som e equipamentos podem trabalhar juntos para criar diferentes cenários.

Chegar em casa.

Cozinhar.

Receber.

Assistir a um filme.

Dormir.

A melhor tecnologia talvez seja justamente aquela que você quase não percebe que existe.

8. Descobrir o wellness particular de cada morador

Para mim, essa será uma das partes mais importantes dos briefings nos próximos anos.

Além de perguntar quantos quartos uma pessoa precisa, precisamos perguntar:

O que te deixa cansado dentro da sua casa atual?

Onde você realmente descansa?

Qual momento do seu dia você gostaria que fosse melhor?

O que faz você perder tempo dentro de casa?

O que você gostaria de fazer mais se sua casa facilitasse?

As respostas provavelmente serão muito mais importantes do que qualquer tendência.

O próximo passo não é o prédio wellness. É a residência wellness.

Atmosphere, Senna Tower, NUI, empreendimentos de São Paulo e projetos do Rio de Janeiro são sinais de um mercado que está mudando.

Cada um interpreta bem-estar de uma maneira diferente.

E é justamente isso que considero mais interessante.

Porque talvez estejamos começando a deixar para trás uma época em que luxo significava principalmente materiais caros, grandes metragens e uma quantidade enorme de ambientes.

O novo luxo começa a incorporar outra variável:

como aquele espaço faz você viver.

E acredito que o próximo grande passo será trazer essa discussão das áreas comuns para dentro dos apartamentos e das casas.

Porque não adianta morar em um prédio com um spa extraordinário e passar todas as noites em um quarto com iluminação ruim, excesso de ruído e temperatura desconfortável.

Não adianta ter uma academia completa no condomínio se aquilo que realmente faz você desacelerar é cozinhar.

E não adianta reproduzir uma casa extremamente minimalista porque ela transmite “calma” nas fotografias se o morador se sente melhor cercado de livros, objetos, arte e memórias.

Wellness precisa deixar de ser produto e começar a ser comportamento.

Talvez por isso uma das perguntas mais importantes de um projeto esteja mudando.

Durante muito tempo perguntamos:

“Como é a casa dos seus sonhos?”

Agora talvez precisemos perguntar:

“Como você gostaria de se sentir quando chegar em casa?”

É dessa resposta que deveria nascer o verdadeiro projeto wellness.

Porque o futuro da arquitetura não será apenas construir casas mais bonitas.

Será construir casas que entendam melhor as pessoas.

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Sobre o autor

Bruna PieritzColunista

76 matérias publicadas

Arquiteta e designer, especializada em Arquitetura e Design pelo Politécnico de Milão. Acredito que a arquitetura deve ir além da estética: ela precisa traduzir a identidade, a história e o estilo de vida de quem irá viver cada espaço. Por isso, não acredito em projetos prontos ou soluções replicadas. Cada criação é única, pensada para refletir a essência de cada cliente. À frente da Bruna Pieritz Arquitetura, desenvolvo projetos completos de arquitetura e interiores, unindo estratégia, funcionalidade, sofisticação e atenção aos detalhes para criar ambientes autênticos, atemporais e cheios de significado.

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