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Construção Civil

O que mais nos revolta na construção civil

Muitos dos problemas que mais irritam em uma obra não são imprevistos: são consequências previsíveis de economia mal planejada, falta de projeto, improvisação, pouca compatibilização e decisões tomadas tarde demais. Construir melhor começa muito antes do canteiro.

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Depois de acompanhar obras, fornecedores, projetos e execuções, existem situações na construção civil que continuam nos surpreendendo.

E não estou falando daquele imprevisto inevitável de obra.

Estou falando de coisas que já sabemos que dão errado — e mesmo assim continuam sendo feitas.

Talvez isso seja o que mais nos revolta.

1. Economizar R$ 500 para gastar R$ 5 mil depois

Essa provavelmente ocupa o primeiro lugar.

Durante a obra, algumas decisões são tomadas olhando exclusivamente para o valor imediato.

Troca-se o profissional. Simplifica-se uma impermeabilização. Escolhe-se um material inferior. Elimina-se uma etapa. Compra-se algo sem verificar especificação.

Naquele momento parece economia.

Até aparecer infiltração, piso soltando, pintura descascando ou alguma instalação precisar ser refeita.

Construção barata e construção econômica são coisas completamente diferentes.

Uma reduz investimento de maneira inteligente.

A outra simplesmente transfere a conta para depois.

2. Construir primeiro e pensar depois

Essa lógica ainda existe muito mais do que deveria.

“Depois vemos onde vai a tomada.”

“Na obra decidimos esse detalhe.”

“O marceneiro resolve.”

“Quando chegar lá, a gente vê.”

Essa talvez seja uma das frases mais caras de uma construção.

Porque aquilo que poderia ser resolvido em algumas linhas dentro de um projeto passa a envolver pedreiro, eletricista, gesseiro, pintor e fornecedor para ser corrigido.

Quanto mais decisões são tomadas antes da obra, menos dinheiro costuma ser gasto improvisando durante ela.

3. A quantidade de coisas que ainda quebramos para construir

Esse ponto sempre me incomoda.

Construímos uma parede.

Depois quebramos para passar elétrica.

Fechamos.

Depois percebemos que precisamos passar hidráulica.

Quebramos novamente.

Fazemos o forro.

Depois descobrimos alguma interferência.

Abrimos o forro.

Fechamos novamente.

Quando observamos de fora, parece absurdo.

E é justamente por isso que acredito tanto no avanço da compatibilização, modelagem, industrialização e sistemas construtivos mais inteligentes.

O futuro da construção precisa envolver muito mais montagem e muito menos quebra-quebra.

4. O barato que depende de um profissional perfeito

Existem soluções que parecem extremamente econômicas no papel, mas exigem uma execução impecável para funcionar.

E esse risco raramente entra na conta.

Quanto mais artesanal é uma solução, maior tende a ser sua dependência da habilidade de quem está executando.

Por isso uma especificação não deveria considerar somente:

“Quanto custa?”

Também deveria perguntar:

“Qual a chance de isso ser executado corretamente?”

Essa segunda pergunta pode mudar completamente uma obra.

5. Começar sem saber quanto vai custar terminar

Talvez uma das coisas mais perigosas da construção residencial.

A pessoa sabe quanto custa o terreno.

Tem uma estimativa da estrutura.

Talvez tenha orçamento da empreiteira.

E começa.

Mas ainda não colocou na conta marcenaria, pedras, iluminação, esquadrias, metais, vidros, climatização, automação, paisagismo, mobiliário e dezenas de outras decisões que aparecem no caminho.

Resultado?

A obra chega justamente na fase mais visível e o orçamento começa a acabar.

Uma casa não deveria ser orçada apenas para ficar em pé. Deveria ser planejada para ficar pronta.

6. Não investir no que ninguém vê

Impermeabilização não aparece na fotografia.

Uma boa instalação hidráulica também não.

Preparação de parede, contrapiso, drenagem, infraestrutura elétrica, isolamento e compatibilização muito menos.

Talvez por isso sejam justamente alguns dos lugares em que existe maior tentação de economizar.

O problema é que grande parte das patologias de uma construção nasce justamente naquilo que ficou escondido.

Eu prefiro mil vezes simplificar um revestimento que pode ser substituído daqui a alguns anos do que economizar em algo que ficará enterrado dentro da parede.

7. Projetar casas enormes e esquecer como elas serão mantidas

Esse é outro assunto pouco discutido.

Todo mundo pensa em construir.

Pouca gente pensa em manter.

Quem vai limpar aquele vidro?

Como será feita a manutenção daquela fachada?

Como acessar aquele equipamento?

Onde ficam condensadoras, aquecedores e máquinas?

Como trocar aquela iluminação daqui a dez anos?

Arquitetura também deveria envelhecer bem.

Se uma solução é linda no dia da entrega e vira um problema cinco anos depois, talvez ela nunca tenha sido uma solução tão boa assim.

8. A obra ainda depender demais da memória das pessoas

“Eu avisei o fulano.”

“Ele falou que faria.”

“Achávamos que estava combinado.”

Em uma construção com dezenas de fornecedores e centenas de decisões, depender exclusivamente de conversas é praticamente pedir para alguma informação desaparecer.

Por isso projeto executivo, detalhamento, cronograma, atas, registros, compatibilização e acompanhamento não são burocracia.

São ferramentas para diminuir erro.

9. Tratar projeto como custo e retrabalho como normal

Talvez essa seja a maior contradição de todas.

Às vezes existe resistência em investir algumas horas para estudar uma solução antes da execução.

Mas depois parece perfeitamente aceitável gastar dias refazendo aquilo que deu errado.

Esse raciocínio precisa mudar.

Na construção, uma das horas mais baratas é aquela passada planejando antes de começar.

O que tudo isso nos ensina?

Depois de acompanhar tantas obras, uma coisa fica cada vez mais clara para nós:

uma boa construção não é aquela em que nenhum problema aparece. É aquela que elimina o máximo possível de problemas antes que eles cheguem ao canteiro.

Projeto bem pensado.

Compatibilização.

Orçamento realista.

Sequência correta.

Bons profissionais.

Especificação adequada.

Fiscalização.

E decisões tomadas na hora certa.

Nada disso aparece tanto quanto um mármore bonito ou uma sala pronta.

Mas são justamente essas decisões invisíveis que determinam se aquela obra será uma experiência organizada ou uma sequência interminável de problemas.

Porque o que mais nos revolta na construção civil não é quando algo imprevisível dá errado.

É quando acontece exatamente aquilo que todo mundo já sabia que poderia acontecer — mas ninguém parou para resolver antes.

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Sobre o autor

Bruna PieritzColunista

81 matérias publicadas

Arquiteta e designer, especializada em Arquitetura e Design pelo Politécnico de Milão. Acredito que a arquitetura deve ir além da estética: ela precisa traduzir a identidade, a história e o estilo de vida de quem irá viver cada espaço. Por isso, não acredito em projetos prontos ou soluções replicadas. Cada criação é única, pensada para refletir a essência de cada cliente. À frente da Bruna Pieritz Arquitetura, desenvolvo projetos completos de arquitetura e interiores, unindo estratégia, funcionalidade, sofisticação e atenção aos detalhes para criar ambientes autênticos, atemporais e cheios de significado.

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