O jeito Mercado Livre de formar líderes e reter talentos
O Mercado Livre alcançou 91% de engajamento ao avaliar suas lideranças, estimular reconhecimento e oferecer espaço de participação aos profissionais. A empresa também envolve 100% das pessoas em ciclos periódicos de desempenho e ocupa o terceiro lugar no ranking Merco Talento Brasil 2025. O exemplo demonstra como liderança mensurável e desenvolvimento contínuo fortalecem a retenção de talentos e sustentam o crescimento.

O desenvolvimento de lideranças ocupa o primeiro lugar entre as prioridades das empresas brasileiras pelo quinto ano consecutivo. Segundo o 8º Relatório de Tendências em Gestão de Pessoas, produzido pelo Great Place to Work Brasil, 57% das organizações consultadas consideram essa a principal preocupação para 2026. O levantamento ouviu 1.350 executivos e gestores de 12 estados e do Distrito Federal, indicando que a capacidade de formar pessoas preparadas para conduzir equipes já representa uma questão estrutural para empresas de diferentes setores e regiões.
Entre as organizações que tratam o tema com método e acompanhamento está o Mercado Livre. Em entrevista concedida à Você RH durante o CONARH, Patrícia Araújo, diretora de Recursos Humanos da companhia, apresentou algumas das práticas utilizadas para atrair, desenvolver e reter jovens profissionais. O conteúdo foi produzido pelo jornalista Alexandre Carvalho, editor da Você RH, e publicado originalmente em agosto de 2025, com atualização em junho de 2026.
Um dos dados apresentados merece atenção especial. O Mercado Livre realiza duas pesquisas anuais para compreender a atuação das suas lideranças e avaliar a experiência dos profissionais. Entre os aspectos investigados estão a capacidade do gestor de reconhecer as entregas realizadas e o espaço oferecido para que cada pessoa manifeste suas expectativas, opiniões e ambições profissionais. Segundo Patrícia Araújo, o índice de engajamento medido pela empresa chegou a 91% em 2025, acima dos 90% registrados no ano anterior.
A relevância desse indicador está na forma como a própria empresa interpreta o resultado. A diretora de Recursos Humanos relaciona o engajamento à qualidade da interação estabelecida entre líderes e profissionais. Reconhecimento, escuta e perspectiva de desenvolvimento aparecem como comportamentos gerenciais que podem ser observados, avaliados e aprimorados. Essa abordagem transforma a liderança em uma competência acompanhada por indicadores e permite que a organização identifique fragilidades antes que elas provoquem perda de produtividade ou desligamentos.
O Relatório de Impacto 2025 do Mercado Livre acrescenta outra informação importante. Durante o ano, 100% das pessoas que trabalhavam na companhia participaram do ciclo periódico de avaliação de desempenho e desenvolvimento. A abrangência demonstra que a formação profissional integra a rotina de gestão e alcança toda a organização. Quando avaliação, devolutiva e desenvolvimento seguem uma cadência conhecida, o profissional compreende com maior clareza sua contribuição, suas possibilidades de evolução e as competências esperadas para os próximos estágios da carreira.
Os resultados externos ajudam a validar essa política. O Mercado Livre ocupou a terceira colocação no Merco Talento Brasil 2025, ranking que avalia a capacidade das empresas de atrair e reter profissionais. A companhia apareceu atrás apenas da Natura e do Grupo Boticário, posicionando se à frente de organizações como Nubank, Coca Cola, Toyota, Itaú Unibanco, Nestlé e Google. O levantamento reuniu diferentes públicos e incorporou dados de trabalhadores, universitários, candidatos a emprego, especialistas em Recursos Humanos, professores, sindicatos e antigos alunos de escolas de negócios.
A metodologia do Merco amplia a consistência do reconhecimento. A pesquisa ouviu 6.295 trabalhadores, 600 universitários, 2.016 candidatos a emprego, 600 antigos alunos de escolas de negócios, 60 especialistas em Recursos Humanos, 71 sindicatos e 72 professores. Também foram analisadas mais de 172 mil menções digitais e indicadores objetivos de 46 empresas, com metodologia revisada de maneira independente pela KPMG. A posição alcançada pelo Mercado Livre, portanto, reflete uma avaliação extensa da sua capacidade de atrair pessoas, construir reputação empregadora e oferecer condições para a permanência dos talentos.
O caso ganha ainda mais relevância diante da expansão anunciada para 2026. O Mercado Livre informou que pretende abrir aproximadamente 10 mil vagas no Brasil, movimento que exigirá integração, formação e acompanhamento de milhares de novos profissionais em diferentes áreas. Uma expansão dessa dimensão aumenta a responsabilidade das lideranças intermediárias, pois são elas que transformam os valores corporativos em critérios de decisão, orientação cotidiana e comportamento organizacional. Crescer com velocidade exige uma estrutura gerencial capaz de absorver pessoas, preservar padrões e manter a clareza das prioridades.
A experiência do Mercado Livre permite identificar uma lógica aplicável a empresas de diferentes portes. A organização mede periodicamente a percepção sobre seus líderes, acompanha o engajamento, envolve todos os profissionais em ciclos de desempenho e desenvolvimento e submete sua reputação empregadora à avaliação do mercado. Cada uma dessas práticas produz informações que apoiam decisões sobre formação, reconhecimento, carreira e retenção. A liderança passa a ser tratada como uma capacidade organizacional mensurável e diretamente relacionada à estratégia de crescimento.
Esse modelo também expõe uma fragilidade comum entre empresas brasileiras. Muitos empresários acompanham vendas, margem, caixa e produtividade, enquanto os indicadores relacionados à qualidade da liderança permanecem ausentes dos painéis gerenciais. Rotatividade por gestor, evolução dos profissionais, cumprimento dos planos de desenvolvimento, frequência das conversas individuais, qualidade das devolutivas e autonomia das equipes oferecem informações relevantes sobre a saúde da gestão. A ausência desses dados permite que problemas comportamentais avancem até aparecerem nos resultados financeiros.
O exemplo do Mercado Livre demonstra que retenção envolve uma experiência profissional construída diariamente. O trabalhador observa como seu gestor reconhece as entregas, comunica expectativas, oferece espaço para participação e contribui para o desenvolvimento da carreira. Esses comportamentos influenciam o engajamento, a confiança e a decisão de permanecer na empresa. Quando 91% dos profissionais de um grupo avaliado demonstram engajamento, existe uma prática gerencial que merece ser estudada com atenção.
Desenvolver lideranças requer diagnóstico, método, cadência e indicadores. O Mercado Livre oferece uma referência relevante ao avaliar seus gestores duas vezes ao ano, alcançar toda a organização com ciclos de desempenho e relacionar a interação das lideranças a um índice elevado de engajamento. Para o empresário brasileiro, o principal aprendizado está na necessidade de administrar a qualidade da liderança com o mesmo rigor dedicado às demais áreas estratégicas. A capacidade de reter talentos começa a ser construída na relação cotidiana entre cada profissional e a pessoa responsável por liderá lo.
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Pai do Pedro e da Eva; Diretor da Elevion Consultoria; Diretor de Negócios da Rede de Franquias Animal Farma. Consultor e Conselheiro Empresarial.
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