Metade usa IA. 6% têm agente. Falta decidir a alçada.
Estudo da AWS aponta 50% de adoção de inteligência artificial no Brasil e apenas 6% com agentes implementados. Na pesquisa da Zappts, 36,5% das empresas exigem aprovação humana em todas as ações do agente. O gargalo não é o modelo contratado, é a alçada que ninguém escreveu.

A AWS apresentou em 3 de setembro, durante o Summit em São Paulo, a nova edição do estudo Desbloqueando o Potencial da IA no Brasil, produzido com a consultoria Strand Partners. Metade das empresas brasileiras já usa alguma inteligência artificial, dez pontos percentuais a mais que na edição anterior, algo em torno de 12 milhões de negócios. Dessas, 6% implementaram agentes de IA.
A distância entre 50% e 6% costuma ser lida como atraso tecnológico. Não é. É uma decisão de gestão que ninguém tomou.
Usar IA e ter um agente não são a mesma coisa
Usar IA é pedir. Alguém abre uma janela, escreve, lê a resposta e decide o que fazer com ela. O ganho é real, e é individual. Agente é outra categoria: software que recebe um objetivo, executa uma sequência de passos e altera alguma coisa no mundo sem que ninguém confira cada passo no caminho.
A diferença não está no modelo contratado. Está na permissão concedida.
O Panorama da Inteligência Artificial no Brasil, terceira edição, produzido pela Zappts, ouviu 167 executivos entre abril e julho deste ano, com margem de erro de 7,6 pontos e 95% de confiança. Nele, 36,5% das empresas exigem validação humana prévia em todas as ações do agente. Apenas 3,6% permitem execução de processo crítico sem supervisão.
Um agente que precisa de aprovação a cada passo é um formulário com linguagem natural. Ajuda, economiza tempo, e não é agente.
A palavra que está faltando é alçada
Toda empresa que mexe com dinheiro conhece a palavra. Alçada é o limite dentro do qual alguém decide sozinho: até certo valor o supervisor resolve, acima disso sobe. Ninguém chama isso de ousadia. É o contrário, é controle.
Com software, a mesma empresa trava. Porque escrever a alçada de um agente obriga a colocar no papel o que hoje mora na cabeça das pessoas: qual é o caso normal, qual é a exceção, quanto custa o erro e quem responde por ele. Enquanto isso não existe, a saída confortável é exigir aprovação para tudo e chamar de cautela.
Os dois estudos mostram o mesmo buraco por ângulos diferentes. Na pesquisa da AWS, 21% das empresas se dizem preparadas para IA agêntica. Na da Zappts, 41,9% não têm nenhuma diretriz de segurança e ética para agentes autônomos. "Segurança virou o novo gargalo porque a autonomia avançou mais rápido que a governança", diz Rodrigo Bornholdt, CTO da Zappts.
Aqui na CloudPark, nos mais de mil pátios que operamos país afora, o que funcionou foi separar caso normal de exceção por escrito antes de ligar qualquer automação. O sistema resolve a rotina sozinho, e a lista do que precisa de gente é curta, nominal e revisada. O que mudou não foi a quantidade de decisão automática. Foi parar de descobrir a exceção depois que ela já tinha virado problema com o cliente.
A conta piorou enquanto a adoção crescia
O dado mais incômodo dos dois levantamentos é sobre medição. Na Zappts, 55,1% das empresas operam sem nenhum mapeamento estruturado de retorno sobre investimento em IA. Em 2025 esse número era 30,6%. A adoção subiu e a capacidade de medir encolheu.
A AWS chega ao mesmo lugar por outro caminho: 66% dizem ter o retorno alinhado, mas só 33% têm confiança no que medem, e 28% possuem método formal para isso.
Isso trava a alçada antes da conversa começar. Quem não sabe quanto o processo custa hoje não tem como estimar quanto custaria o erro do agente amanhã. Falta número dos dois lados, e sem os dois não dá para dizer até onde a máquina pode andar sozinha.
O outro lado da conta
Tem uma leitura oposta dos mesmos números, e ela é legítima. Os 3,6% de autonomia em processo crítico podem ser prudência, não atraso. Agente que erra em cobrança, em crédito ou em dado pessoal produz estrago que nenhuma economia de tempo paga, e a LGPD está em vigor.
Há também a parte que quase não entra nessa conversa. Na Zappts, 77,3% das empresas pretendem mexer no quadro de funcionários nos próximos três anos e 27% preveem congelar contratações operacionais. Quem apresenta agente apenas como ganho de produtividade está contando metade da história.
Só que cautela e ausência de regra não são a mesma coisa. Cautela é alçada estreita, escrita e revisada. Exigir aprovação para tudo porque ninguém quer assinar embaixo não é cuidado, é adiamento com nome melhor.
O que fica
O Brasil não está atrasado em agentes de IA. Está adiando a parte da decisão que não é técnica.
Com informações do estudo Desbloqueando o Potencial da IA no Brasil 2026, da AWS com a Strand Partners, e do Panorama da Inteligência Artificial no Brasil 2026, da Zappts.
Sobre o autor

25 matérias publicadas
CEO e co-fundador da CloudPark, empresa especializada em tecnologia para gestão e automação de estacionamentos. Apaixonado por automação, empreendedor, investidor e palestrante, dedico minha trajetória a desenvolver soluções que simplificam operações, geram resultados e impulsionam a evolução da mobilidade urbana. Há mais de 12 anos lidero equipes, projetos e estratégias de crescimento, sempre com foco em inovação, eficiência e experiência do cliente. Acredito que grandes transformações acontecem quando tecnologia, pessoas e propósito trabalham na mesma direção.
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