Os maiores erros em projetos de interiores
Os erros mais caros dos interiores muitas vezes não estão na estética, mas na rotina: circulação ruim, armazenamento mal planejado, iluminação inadequada, falta de tomadas, materiais errados e pouca compatibilização. Um bom projeto precisa continuar funcionando muito depois da foto.

Um ambiente pode ficar maravilhoso na imagem e ser péssimo para morar.
Essa talvez seja uma das maiores armadilhas dos interiores atualmente.
Com renders cada vez mais realistas, referências infinitas nas redes sociais e uma busca constante pela estética perfeita, começamos a confundir ambiente bonito com ambiente bem projetado.
E não são a mesma coisa.
Depois de desenvolver projetos e, principalmente, acompanhar aquilo que realmente acontece nas obras, existem alguns erros que vemos se repetirem — e muitos deles só são percebidos quando já é tarde.
1. Projetar para a foto, não para a rotina
Talvez seja o maior erro de todos.
Onde você coloca a bolsa quando chega?
Onde carrega o celular?
Onde ficam os sapatos?
Onde vai o aspirador?
Quantos eletrodomésticos realmente ficam sobre a bancada?
Onde ficam malas, documentos, roupa de cama e objetos que não queremos expostos?
Um projeto de interiores precisa começar pela rotina.
Porque depois que a fotografia termina, alguém precisa morar naquela casa.
2. Fazer marcenaria sem saber o que será guardado
Não basta preencher uma parede inteira com armários.
Precisamos entender o que vai dentro deles.
Um closet para alguém que utiliza muitos vestidos é diferente daquele de quem praticamente só usa calças.
Uma cozinha para quem cozinha diariamente é diferente de uma cozinha usada eventualmente.
Até uma gaveta precisa ter motivo para existir.
Quando projetamos marcenaria antes de entender o conteúdo, frequentemente terminamos com muito móvel e pouco armazenamento realmente eficiente.
3. Tomadas demais no lugar errado — e nenhuma onde precisa
Parece um detalhe até começar a morar.
Cabeceira sem tomada suficiente.
Escritório com fios atravessando o ambiente.
Bancada da cozinha tomada por extensões.
Robô aspirador sem lugar para carregar.
Adega, cafeteira ou eletrodomésticos sem infraestrutura.
A elétrica precisa nascer junto com o layout.
Não depois dele.
4. Escolher iluminação pensando apenas no teto
Um dos erros que mais transforma negativamente um ambiente.
Encher o teto de spots não significa ter um bom projeto luminotécnico.
Uma casa precisa de camadas.
Iluminação geral, indireta, decorativa, funcional e pontual podem trabalhar juntas.
E, principalmente, precisamos pensar em cenas.
A luz necessária para limpar uma sala às dez da manhã não é a mesma que queremos para receber amigos às dez da noite.
5. Esquecer que portas, gavetas e pessoas precisam se movimentar
Esse erro parece básico, mas acontece.
Porta da lava-louças aberta bloqueando circulação.
Gaveta batendo em outra gaveta.
Cadeira que não consegue ser afastada.
Porta do armário encontrando luminária.
Circulação insuficiente ao redor da cama.
Projeto não é apenas desenhar objetos fechados.
Precisamos projetar tudo em movimento.
6. Escolher materiais pela aparência
A pedra é linda.
Mas mancha?
O piso funciona em área molhada?
O tecido aguenta uso intenso?
A superfície risca facilmente?
Como será feita a manutenção?
Existe assistência?
É possível substituir uma peça daqui a alguns anos?
Uma das perguntas que mais fazemos antes de especificar qualquer material é simples:
onde isso será usado?
Porque não existe material perfeito.
Existe material adequado para determinado uso.
7. Não compatibilizar interiores com a obra
Aqui começam alguns dos problemas mais caros.
O marceneiro precisa de uma tomada onde existe hidráulica.
A iluminação encontra o ar-condicionado.
O cortineiro encontra uma viga.
O móvel precisa passar exatamente onde existe um ponto elétrico.
A pedra chega e as medidas não conversam.
Por isso interiores não deveriam ser tratados como uma camada de decoração colocada depois da arquitetura.
Um bom projeto precisa conversar com elétrica, hidráulica, climatização, gesso, iluminação, pedras, vidros e marcenaria.
8. Querer esconder tudo — sem prever acesso
Somos grandes defensores de ambientes visualmente limpos.
Mas existe uma regra:
o que precisa de manutenção precisa continuar acessível.
Registros, equipamentos, máquinas, drivers de LED, quadros, filtros e sistemas técnicos não podem simplesmente desaparecer atrás de uma solução linda que precisará ser destruída quando houver manutenção.
O melhor detalhe é aquele que esconde quando precisa esconder e permite acessar quando precisa acessar.
9. Copiar uma referência sem entender por que ela funciona
Esse talvez seja o erro mais contemporâneo.
Você salva uma cozinha maravilhosa no Pinterest e quer aquela cozinha.
Mas talvez aquela residência tenha outra altura, iluminação natural, rotina, orçamento e proporção.
Referência é repertório.
Não deveria ser receita.
O papel do projeto é entender o que você gostou naquela imagem e reinterpretar aquilo para a sua realidade.
10. Gastar muito onde aparece e pouco onde importa
Mármore maravilhoso.
Sofá caríssimo.
Luminária assinada.
Mas acústica ruim, poucas tomadas, iluminação desconfortável e marcenaria mal dimensionada.
Um bom orçamento de interiores precisa ter hierarquia.
Existem lugares para investir e lugares onde podemos simplificar.
Nem tudo precisa ser caro.
Mas aquilo que usamos todos os dias precisa funcionar muito bem.
11. Esquecer o futuro
Talvez seja um dos erros menos discutidos.
A família pode crescer.
As crianças crescem.
A tecnologia muda.
Os hábitos mudam.
As pessoas envelhecem.
Uma casa excessivamente rígida pode funcionar perfeitamente hoje e muito mal alguns anos depois.
Sempre que possível, gostamos de deixar alguma capacidade de adaptação.
Porque um bom projeto não deveria funcionar somente no dia da entrega.
E o erro que reúne praticamente todos os outros?
Começar escolhendo como a casa vai parecer antes de entender como ela precisa funcionar.
Pedra, tecido, cor, mobiliário e objetos são fundamentais.
Mas deveriam entrar depois de perguntas muito mais importantes.
Quem mora aqui?
Como vive?
O que utiliza?
O que incomoda?
O que precisa guardar?
Como recebe?
Como trabalha?
Como descansa?
Quando essas respostas estão certas, a estética deixa de ser apenas bonita.
Ela passa a fazer sentido.
Porque o melhor projeto de interiores não é aquele que faz alguém entrar e dizer:
“Que casa linda.”
É aquele que, depois de alguns anos morando ali, ainda faz o proprietário pensar:
“Como alguém lembrou de pensar nisso?”
Sobre o autor

83 matérias publicadas
Arquiteta e designer, especializada em Arquitetura e Design pelo Politécnico de Milão. Acredito que a arquitetura deve ir além da estética: ela precisa traduzir a identidade, a história e o estilo de vida de quem irá viver cada espaço. Por isso, não acredito em projetos prontos ou soluções replicadas. Cada criação é única, pensada para refletir a essência de cada cliente. À frente da Bruna Pieritz Arquitetura, desenvolvo projetos completos de arquitetura e interiores, unindo estratégia, funcionalidade, sofisticação e atenção aos detalhes para criar ambientes autênticos, atemporais e cheios de significado.
Discussão
0 comentários
Notícias Relacionadas

Falta mão de obra: a automação é a saída nas esquadrias?
Fesqua 2026 reúne 50 mil visitantes e expõe o principal desafio das esquadrias: crescer com automação e tecnologia diante da escassez de mão de obra qualificada.

Projetos difíceis? Ou falta de vontade?
Terrenos complexos, reformas, curvas, balanços, grandes vãos e estruturas desafiadoras fazem muitos profissionais buscar soluções mais simples. Para nós, são justamente essas limitações que podem gerar os projetos mais autorais — desde que criatividade, engenharia e execução caminhem juntas.

O bairro nobre que o Vale do Itajaí nunca teve
De Blumenau a Gaspar, Indaial e Brusque, quem decide construir uma residência no topo do mercado escolhe um empreendimento fechado. Praticamente sem exceção. Não porque o apartamento perdeu espaço — ele não perdeu —, mas porque o Vale nunca produziu, por urbanismo, aquilo que esses empreendimentos entregam por contrato.