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Construção CivilSão Paulo – SP

Falta mão de obra: a automação é a saída nas esquadrias?

Fesqua 2026 reúne 50 mil visitantes e expõe o principal desafio das esquadrias: crescer com automação e tecnologia diante da escassez de mão de obra qualificada.

Falta mão de obra: a automação é a saída nas esquadrias?
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Feira reuniu cerca de 50 mil visitantes e mais de 700 marcas em São Paulo, enquanto indústria de esquadrias acelera investimentos em automação diante da dificuldade de encontrar profissionais qualificados.

A 16ª edição da Fesqua terminou em São Paulo deixando dois sinais aparentemente contraditórios — e importantes — sobre a indústria brasileira de esquadrias. De um lado, empresas relataram movimento comercial, novos contatos e interesse por máquinas, componentes e sistemas de maior desempenho. De outro, fabricantes, instaladores e especialistas voltaram a apontar a escassez de mão de obra qualificada como um dos principais obstáculos à expansão do setor.

Realizada entre 9 e 12 de setembro de 2026, no São Paulo Expo, a Feira Internacional da Indústria de Esquadrias reuniu cerca de 50 mil visitantes, mais de 700 marcas expositoras e aproximadamente 1.500 lançamentos, segundo dados da organização repassados ao Jornal do Vidro.

A edição ocupou 45 mil metros quadrados, área 25% superior à da feira anterior. Antes da abertura, os organizadores projetavam público superior a 60 mil pessoas. O balanço pós-evento informado ao Jornal do Vidro, portanto, ficou abaixo dessa expectativa inicial, embora mantenha a Fesqua como um dos principais pontos de encontro da cadeia de esquadrias, vidros e fachadas no país.

Mais relevante do que o número absoluto de visitantes, porém, foi o perfil das discussões. Automação industrial, inteligência artificial, centros de usinagem, softwares de produção, sistemas de fachadas, desempenho térmico e acústico e soluções destinadas a reduzir operações manuais apareceram com força em uma indústria pressionada simultaneamente pelo crescimento da demanda e pela dificuldade de contratar trabalhadores especializados.

Mercado cresce, mas capacidade produtiva vira desafio

A Fesqua ocorreu em um momento de expansão do mercado brasileiro de esquadrias de alumínio. Dados divulgados pela organização com base nos indicadores da Associação Nacional de Fabricantes de Esquadrias de Alumínio (AFEAL) mostram que o segmento faturou R$ 11,95 bilhões em 2025, avanço de 13,5% sobre os R$ 10,53 bilhões registrados em 2024.

No mesmo período, o consumo de alumínio destinado à fabricação de esquadrias aumentou aproximadamente 5,9%.

O desempenho ajuda a explicar o ambiente comercial observado na feira. Empresas ouvidas pelo Jornal do Vidrorelataram contato com clientes existentes, prospecção de compradores e, em alguns casos, fechamento de pedidos durante o próprio evento.

O desafio é transformar a demanda em capacidade de entrega.

Fabricar uma esquadria de maior desempenho envolve muito mais do que cortar e unir perfis de alumínio. Usinagem, montagem, colocação de componentes, vedação, instalação, regulagem e controle dimensional interferem diretamente no desempenho final do conjunto.

Quanto mais sofisticados se tornam os sistemas — especialmente em fachadas, grandes vãos e empreendimentos com requisitos térmicos, acústicos e de estanqueidade elevados — maior também tende a ser a necessidade de processos controlados e profissionais qualificados.

Falta de mão de obra empurra indústria para automação

A dificuldade de contratar já vinha sendo tratada pela organização da Fesqua antes mesmo da abertura dos pavilhões.

Levantamento do FGV Ibre citado pela feira mostrou que 58,7% das empresas brasileiras pesquisadas relataram dificuldade para contratar ou reter funcionários. Entre aquelas que enfrentavam o problema, quase 80% indicaram a contratação como principal desafio relacionado à gestão de mão de obra.

A questão também aparece especificamente no setor vidreiro. Em janeiro deste ano, a Associação Brasileira de Distribuidores e Processadores de Vidros Planos (Abravidro) voltou a apontar a dificuldade de contratação e retenção de profissionais como problema persistente para empresas do segmento.

Durante a Fesqua, técnicos e profissionais ouvidos pelo Jornal do Vidro reforçaram a percepção de escassez, especialmente em atividades práticas como corte, montagem e instalação.

Milad Barizi, técnico da AlloyBR, destacou a presença diversificada de fabricantes e fornecedores e a possibilidade de contato direto com empresas de perfis e componentes. Como técnico de esquadrias, porém, ele chamou atenção para uma questão que vai além dos lançamentos: a dificuldade de encontrar profissionais qualificados. Para Milad, o mercado de esquadrias está aquecido e atraindo novos concorrentes, mas existe espaço para mais capacitação prática, especialmente em atividades como corte, montagem e instalação de esquadrias.

Nesse ambiente, a automação deixa de ser apenas uma estratégia para aumentar escala e passa também a funcionar como resposta ao mercado de trabalho.

Centros de usinagem controlados por software, equipamentos automatizados para corte e preparação de perfis, sistemas de aplicação e máquinas capazes de executar operações repetitivas reduzem a quantidade de intervenções manuais necessárias e ajudam a padronizar a produção.

Fernando Rosa, gerente-geral da AFEAL, afirmou em material divulgado pela Fesqua que a automação pode reduzir o gargalo, mas não elimina a necessidade de qualificação: em lugar de operadores tradicionais, cresce a demanda por profissionais capazes de comandar equipamentos e processos mais sofisticados.

A consequência é uma mudança no próprio perfil de contratação da indústria.

Em vez de simplesmente substituir trabalhadores, a digitalização tende a deslocar parte da demanda para operadores especializados, programadores de máquinas, técnicos de produção, projetistas e profissionais capazes de conectar engenharia, fabricação e instalação.

Construção continua contratando

O problema não parece decorrer de falta de atividade econômica no setor.

Dados do Novo Caged mostram que a construção civil criou 168.962 empregos formais apenas no primeiro semestre de 2026, crescimento de 5,73%. Obras de infraestrutura responderam por 64.793 novos postos, enquanto a construção de edifícios adicionou outros 60.552.

Em julho, a construção abriu mais 12.691 vagas formais, segundo os dados mais recentes disponíveis do Ministério do Trabalho e Emprego.

Os números mostram uma indústria contratando, mas não necessariamente encontrando com facilidade todos os perfis profissionais de que precisa.

Esse descompasso é particularmente importante para fabricantes de esquadrias e fachadas. Uma construtora pode aumentar seu volume de obras e contratar mais trabalhadores, mas a fabricação e instalação de sistemas de maior complexidade exigem conhecimento específico.

A escassez desses profissionais pode produzir efeitos econômicos que vão além do departamento de recursos humanos: aumento de horas extras, dependência excessiva de determinados funcionários, dificuldade de ampliar capacidade fabril, atrasos de instalação, retrabalho e perda de produtividade.

Custo da mão de obra também pressiona obras

O cenário ocorre em um momento de elevação dos custos da construção.

O Índice Nacional da Construção Civil (Sinapi) avançou 0,44% em agosto, acumulando alta de 5,41% em 2026 e de 7,03% em 12 meses. O custo nacional calculado pelo levantamento chegou a R$ 1.993,76 por metro quadrado.

A parcela correspondente à mão de obra atingiu R$ 869,70 por metro quadrado e acumulou aumento de 6,95% no anoaté agosto.

O Sinapi não mede especificamente o custo de produção de esquadrias, mas funciona como um indicador relevante das pressões existentes na cadeia da construção.

Para fabricantes e instaladores, isso reforça o argumento econômico por trás da automação: equipamentos que reduzem retrabalho, melhoram aproveitamento dos materiais e permitem produzir mais com a mesma estrutura podem passar a ser avaliados não apenas pelo custo de aquisição, mas pelo impacto sobre produtividade e margem operacional.

Tecnologia chega da fábrica ao canteiro

A transformação observada na Fesqua não ficou restrita à fabricação.

Profissionais entrevistados pelo Jornal do Vidro destacaram equipamentos e componentes voltados a operações realizadas diretamente nas obras, incluindo soluções para aplicação de materiais, preparação de componentes e substituição de vidros em determinados sistemas de fachada.

Essa tendência é relevante porque parte considerável do risco econômico de uma esquadria aparece depois que ela deixa a fábrica.

Instalações incorretas podem comprometer estanqueidade, desempenho acústico, funcionamento de folhas móveis e vedação. Em fachadas de maior complexidade, erros de execução podem gerar intervenções posteriores com custos elevados.

Equipamentos de campo, sistemas de inspeção digital e procedimentos mais industrializados tendem, portanto, a aproximar o canteiro de obras da lógica de controle de processo já utilizada dentro das fábricas.

A Fesqua ocorreu simultaneamente a eventos que discutiram engenharia de fachadas, patologias construtivas, desempenho acústico, sustentabilidade e inspeções utilizando tecnologias como drones, termografia e mapeamentos digitais.

Esquadrias de maior desempenho ganham espaço

Outro movimento perceptível na edição de 2026 foi a expansão de sistemas direcionados a empreendimentos de maior padrão técnico e arquitetônico.

O avanço não ocorre apenas por razões estéticas.

Eficiência energética, controle da incidência solar, isolamento acústico, estanqueidade e conforto térmico começam a ter peso crescente na especificação de fachadas e janelas, especialmente em edifícios corporativos e residenciais de maior valor agregado.

A própria Fesqua Vetro destacou que o consumo brasileiro de vidros insulados de alto desempenho cresceu 88% nos últimos três anos, segundo dados divulgados pela organização do evento.

A sofisticação dos materiais, porém, amplia a importância da engenharia e da execução.

Um vidro de elevado desempenho instalado em uma esquadria mal dimensionada ou mal vedada pode não entregar o resultado previsto em projeto. O mesmo ocorre com perfis, componentes, ferragens e selantes.

Por isso, inovação de produto e qualificação profissional tornam-se questões inseparáveis.

Digitalização pode alterar a competição entre fabricantes

Para pequenas e médias empresas de esquadrias, o avanço tecnológico cria uma decisão estratégica.

Automatizar exige capital. Máquinas de maior produtividade, softwares, centros de usinagem e treinamento representam investimento inicial e precisam de escala suficiente para justificar economicamente sua aquisição.

Por outro lado, permanecer excessivamente dependente de processos manuais pode aumentar a exposição a erros, retrabalho e limitações de capacidade.

Essa equação tende a favorecer empresas capazes de medir produtividade, custos e perdas com maior precisão.

Na prática, o diferencial competitivo pode deixar gradualmente de ser apenas o preço do quilo do alumínio ou do metro quadrado da esquadria e passar a incluir prazo de entrega, previsibilidade de produção, rastreabilidade, qualidade da montagem e desempenho final.

É nesse ponto que a Fesqua funciona como um termômetro empresarial. O crescimento da presença de máquinas, softwares, automação e inteligência artificial indica que fornecedores enxergam demanda suficiente para investir nesse processo de transformação.

Próxima Fesqua já aponta mudança no modelo da feira

A organização confirmou ao Jornal do Vidro a próxima edição para 12 a 15 de setembro de 2028, novamente no São Paulo Expo.

Uma mudança prevista é a realização do evento de terça a sexta-feira, retirando o sábado da programação.

Segundo Luis Tavares, diretor do Grupo Contramarco, a mudança pretende reforçar o caráter profissional da feira e concentrar networking e negociações comerciais.

Até lá, o setor terá dois anos para mostrar até onde a automação apresentada em 2026 efetivamente chegará às fábricas brasileiras.

O ponto de atenção será observar se os investimentos em máquinas e digitalização serão acompanhados por formação profissional. Automatizar uma linha reduz determinadas operações manuais, mas cria demanda por outras competências — operação, programação, manutenção, projeto e controle de qualidade.

A Fesqua 2026 mostrou uma indústria que cresce ao mesmo tempo em que encontra dificuldades para ampliar sua capacidade utilizando o modelo tradicional de produção. A combinação de mercado aquecido, custos crescentes e escassez de mão de obra qualificada aumenta o valor econômico de tecnologias capazes de reduzir erros, padronizar tarefas e elevar produtividade.

O desafio, portanto, não é simplesmente trocar pessoas por máquinas. Para fabricantes de esquadrias, vidraçarias, construtoras e empresas de fachadas, a próxima etapa será combinar automação, engenharia e qualificação profissional. Quem conseguir produzir com maior previsibilidade, instalar com menos retrabalho e comprovar desempenho tende a ocupar uma posição mais competitiva em um mercado no qual tecnologia e execução estão cada vez mais interligadas.

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Sobre o autor

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Farmacêutico Bioquímico formado na Universidade Federal Santa Catarina (UFSC), pós graduado em Gestão Estratégica de Empresas pela Fundação Dom Cabral (FDC). Atual CFO do grupo ALLOYBR. Atual vice-presidente do Rotary Club de Blumenau-Norte gestão 2026-2027.

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