O luxo está ficando menos perfeito
O novo luxo está se afastando da perfeição absoluta. Materiais naturais, peças artesanais, escolhas inesperadas e projetos com personalidade começam a ocupar o espaço das casas excessivamente neutras e padronizadas.

O luxo está ficando menos perfeito — ainda bem
Por muito tempo, o alto padrão foi associado à perfeição: pedras absolutamente uniformes, marcenaria impecavelmente alinhada, ambientes simétricos, cores neutras e uma estética tão controlada que quase nada poderia parecer fora do lugar.
Mas acreditamos que esse conceito de luxo está começando a envelhecer.
Nas feiras, semanas de design, moda e nos projetos mais interessantes que acompanhamos pelo mundo, percebemos um movimento contrário: quanto mais sofisticado o ambiente, menos ele precisa parecer perfeito.
E isso não significa executar mal. Muito pelo contrário.
É a diferença entre a imperfeição projetada e o erro.
Uma pedra natural com veios intensos, uma madeira que evidencia seus desenhos, uma peça artesanal levemente irregular, um tecido com textura marcada ou uma parede com acabamento manual carregam algo que superfícies perfeitamente padronizadas dificilmente conseguem reproduzir: identidade.
Estamos cansados de casas que parecem render
Essa talvez seja uma das maiores mudanças que percebemos no comportamento dos clientes.
Durante alguns anos, muitos interiores começaram a seguir praticamente a mesma fórmula: tons claros, pedra bege, madeira, iluminação indireta e mobiliário de linhas orgânicas.
Tudo bonito. Tudo correto.
E justamente aí está o problema.
Quando absolutamente tudo é correto, nada chama atenção.
No escritório, temos defendido cada vez mais que um bom projeto precisa ter pelo menos algumas decisões capazes de provocar uma reação. Pode ser uma pedra inesperada, uma cor profunda, uma luminária quase escultórica, um revestimento estampado ou até uma combinação que, isoladamente, pareceria improvável.
O projeto precisa ter algo que faça alguém perguntar:
“De onde veio isso?”
Se estivéssemos projetando nossa casa hoje…
Existem algumas escolhas que faríamos sem medo.
Primeiro, investiríamos menos em deixar absolutamente tudo neutro e mais em materiais que envelhecem bem. Pedra natural, madeira, metais, tecidos encorpados e peças artesanais tendem a ganhar personalidade com o tempo.
Também escolheríamos uma ou duas grandes protagonistas, em vez de tentar transformar todos os elementos da casa em destaque.
Uma pedra espetacular pode ser suficiente.
Uma obra de arte pode ser suficiente.
Um sofá em uma cor inesperada pode ser suficiente.
Luxo não precisa significar excesso de informação.
Outra dica: não escolha tudo pela tendência
Se determinado material aparece em praticamente todos os projetos do Instagram, vale fazer uma pergunta antes de especificá-lo:
“Eu realmente gosto disso ou estou gostando porque estou vendo todos os dias?”
Essa pergunta evita que uma casa recém-finalizada pareça datada poucos anos depois.
Tendências são ótimas referências, mas deveriam entrar como camadas dentro de uma identidade — nunca substituir essa identidade.
E talvez essa seja a nova definição de luxo
Não acreditamos que o futuro do alto padrão esteja necessariamente em casas maiores, pedras mais caras ou móveis mais famosos.
Ele está na curadoria.
Na capacidade de misturar uma peça assinada com outra feita por um artesão local. Uma pedra extremamente sofisticada com uma textura bruta. Uma marcenaria precisa com um objeto imperfeito.
Porque talvez o verdadeiro luxo dos próximos anos seja justamente aquilo que não conseguimos reproduzir dez vezes da mesma maneira.
E, para nós, é exatamente aí que a arquitetura volta a ficar interessante.
Dica do escritório: antes de aprovar um projeto, observe se existe alguma coisa nele que só poderia pertencer àquela casa e àquela família. Se você conseguir trocar os moradores e o projeto continuar fazendo exatamente o mesmo sentido, provavelmente ainda falta identidade.
Sobre o autor

98 matérias publicadas
Arquiteta e designer, especializada em Arquitetura e Design pelo Politécnico de Milão. Acredito que a arquitetura deve ir além da estética: ela precisa traduzir a identidade, a história e o estilo de vida de quem irá viver cada espaço. Por isso, não acredito em projetos prontos ou soluções replicadas. Cada criação é única, pensada para refletir a essência de cada cliente. À frente da Bruna Pieritz Arquitetura, desenvolvo projetos completos de arquitetura e interiores, unindo estratégia, funcionalidade, sofisticação e atenção aos detalhes para criar ambientes autênticos, atemporais e cheios de significado.
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