O revestimento deixou de ser fundo — e virou protagonista
O revestimento deixou de ser fundo — e virou protagonista. Mais do que revestir superfícies, os materiais agora assumem o papel de protagonistas na arquitetura. Texturas marcantes, formatos diferenciados, relevos e acabamentos expressivos transformam paredes em verdadeiras experiências visuais e sensoriais. O luxo contemporâneo está na autenticidade, na materialidade e na ousadia de criar espaços com identidade.

Durante muito tempo, falar em revestimento sofisticado quase sempre levava ao mesmo lugar: grandes formatos, tons neutros, mármores claros, travertinos e superfícies cada vez mais perfeitas na tentativa de reproduzir uma pedra natural.
Continuamos amando muitos deles. Mas existe outro movimento acontecendo no design que, particularmente, nos interessa muito mais: o revestimento voltou a ser uma ferramenta de criação.
Cor, desenhos geométricos, relevos, peças pequenas, acabamentos artesanais, vidro, superfícies tridimensionais e paginações inesperadas estão começando a ocupar espaços que durante anos foram dominados pelo bege e pelo cinza.
E não estamos falando de revestimentos extravagantes simplesmente para chamar atenção.
Estamos falando de materiais que conseguem dar identidade a um projeto.
A casa não precisa ter medo da cor
Uma das coisas que mais percebemos nos últimos anos é o quanto o mercado ficou seguro.
Pedra bege. Madeira clara. Marcenaria off-white. Porcelanato neutro.
É bonito? Pode ser extremamente bonito.
Mas quando todas as casas começam a usar exatamente a mesma fórmula, começamos a perder justamente aquilo que mais buscamos em nossos projetos: identidade.
Por isso, temos olhado cada vez mais para fabricantes e designers que estão tratando revestimentos quase como peças de design.
É o caso de coleções da Tessela, que exploram cor, desenho, composição e uma linguagem muito menos convencional.

Projetos Autoral pelo escritório Bruna Pieritz Arquitetura
O interessante desses materiais é que eles não precisam necessariamente revestir um ambiente inteiro. Uma parede, um volume, um lavabo, uma bancada ou até um pequeno detalhe pode ser suficiente para transformar a percepção do espaço.
Carol Gay: quando a parede vira composição
Talvez um dos exemplos que mais gostamos atualmente seja o trabalho de Carol Gay para a Decortiles.
A coleção explora justamente aquilo que muitas pessoas ainda têm receio de utilizar: formas, cores intensas, texturas e desenhos que não tentam imitar nenhum outro material.
Na série Bola, por exemplo, peças de 19 x 19 cm permitem criar diferentes paginações a partir da mesma geometria.
É quase como desenhar a parede.
As referências passam por nomes como Tarsila do Amaral, Yayoi Kusama e Athos Bulcão, além do próprio trabalho de Carol com vidro soprado. O resultado são peças com uma estética retrô, artística e extremamente contemporânea ao mesmo tempo.
Atacama, Flamingo, Pistache, Esmeralda, Netuno, Lua, Água Viva, Chocolate...
Só os nomes das tonalidades já mostram que estamos bastante distantes do universo tradicional do porcelanato bege.
E é exatamente isso que torna a coleção interessante.
Luma: um dos lançamentos que estamos de olho
Entre os lançamentos de 2026 da Eliane, o Luma também representa muito bem essa mudança.

Aqui, não estamos mais olhando apenas para a estampa impressa sobre uma superfície.
O mercado começa a explorar cada vez mais profundidade, relevo, percepção tátil e a maneira como a luz interage com o material.
A própria coleção 2026 da Eliane reforça essa direção ao lado de linhas como Flow e das novas superfícies desenvolvidas com a tecnologia 3D Sense.
Isso muda bastante a maneira como pensamos um revestimento.
Dependendo da incidência de luz, uma superfície pode parecer completamente diferente pela manhã e à noite.
Para nós, isso é muito mais interessante do que simplesmente escolher uma cor.
É criar experiência.
Gouache: a imperfeição pode ser justamente o luxo
Outro tipo de revestimento que gostamos muito são aqueles que recuperam a aparência da cerâmica artesanal.
E é aqui que coleções como Gouache entram muito bem.
Cores menos uniformes, pequenas diferenças entre peças, aparência de pigmento, textura e uma leitura quase manual fazem o revestimento parecer menos industrial.
Durante anos, a indústria trabalhou para eliminar imperfeições.
Agora, ironicamente, algumas das superfícies mais interessantes são justamente aquelas que conseguem devolver essa sensação de material feito à mão.
Não queremos necessariamente que todas as peças pareçam idênticas.
Queremos movimento.
E o vidro voltou de uma maneira completamente diferente
Outro lançamento que merece atenção é Alexandria, também de Carol Gay para a Decortiles.
A coleção marca a entrada do vidro como protagonista e nasceu a partir da relação da designer com o vidro soprado.
O interessante é que o material não aparece apenas como aquela pastilha de vidro que conhecemos há décadas.
Ele ganha volumetria, profundidade, relevo e diferentes maneiras de capturar a luz.
Isso abre possibilidades muito interessantes para lavabos, bares, áreas gourmet, painéis e espaços comerciais.
É quase uma joia aplicada à arquitetura.
Pequenos formatos estão voltando — mas de outro jeito
Também estamos acompanhando muito esse retorno.
Depois de uma verdadeira corrida para produzir peças cada vez maiores, estamos vendo o pequeno formato recuperar espaço.
E uma coisa não anula a outra.
Podemos ter uma grande placa de 120 x 270 cm em uma área e, poucos metros depois, trabalhar uma parede inteira com pequenas peças coloridas.
O interessante está justamente no contraste.
Pequenos formatos permitem desenhos, ritmos, mudanças de direção e paginações que uma grande placa simplesmente não consegue produzir.
É por isso que coleções como Bola, Luma, Flow e outras linhas modulares são tão interessantes para arquitetos.
O produto não chega completamente pronto.
Ainda existe espaço para projetar com ele.
Relevo também é desenho
A coleção 2026 da Eliane traz ainda projetos cocriativos que reforçam essa ideia.
A Relevo, desenvolvida com o FGMF, trabalha com um pensamento modular e mais disruptivo.
A Olaria, criada com o Studio Arthur Casas, busca referências em matérias-primas, passando por cores, texturas e volumetrias relacionadas ao adobe e à fuligem.
Já Milo, com o Cité Arquitetura, olha para a história da própria cerâmica brasileira e para superfícies com uma percepção mais artesanal e afetiva.
São propostas completamente diferentes, mas todas apontam para uma mesma direção:
o revestimento está deixando de ser somente acabamento.
Mas existe um cuidado técnico
Quanto mais diferente é o revestimento, mais importante se torna especificá-lo corretamente.
Uma peça linda para parede não necessariamente pode ser utilizada no piso.
Um produto com relevo pode ser maravilhoso em um lavabo e péssimo em determinada área de manutenção intensa.
Em áreas molhadas, externas ou pisos, precisamos verificar indicação do fabricante, resistência ao escorregamento, absorção, junta recomendada e classe de uso.
A própria Bola, por exemplo, possui produtos classificados especificamente para paredes. Portanto, não basta olhar uma foto no Pinterest e decidir reproduzi-la no piso.
Ousadia sem conhecimento técnico pode virar problema de obra.
Onde usar sem deixar a casa cansativa?
Aqui talvez esteja a principal diferença entre uma casa ousada e uma casa simplesmente carregada.
Não precisamos colocar cinco revestimentos protagonistas no mesmo ambiente.
Gostamos muito mais de criar pontos de impacto.
Um lavabo completamente inesperado.
Uma parede colorida dentro de uma cozinha predominantemente neutra.
Um bar revestido com vidro.
Um painel geométrico no gourmet.
Uma paginação diferente dentro do box.
Uma bancada que parece quase uma escultura.
Ou até uma pequena faixa de revestimento que se transforma no detalhe mais fotografado da casa.
Quando todo elemento tenta chamar atenção, nenhum deles consegue.
Talvez o novo luxo seja justamente parar de escolher o mais seguro
O mercado brasileiro de revestimentos está ficando extremamente interessante porque começamos a ter produtos que não precisam imitar mármore italiano para serem percebidos como sofisticados.
Podem ser coloridos.
Podem ter bolinhas.
Podem ter relevo.
Podem parecer artesanais.
Podem ser de vidro.
Podem ter 19 centímetros em uma época em que conseguimos fabricar placas com quase três metros.
E podem, inclusive, causar estranhamento quando vistos pela primeira vez.
Para nós, isso é uma qualidade.
Porque arquitetura interessante nem sempre nasce da escolha que todo mundo aprovaria.
Às vezes ela nasce justamente daquele material que o cliente olha na primeira reunião e pergunta:
“Você tem certeza que isso vai ficar bom?”
E alguns meses depois se torna o detalhe favorito da casa.
Sobre o autor

98 matérias publicadas
Arquiteta e designer, especializada em Arquitetura e Design pelo Politécnico de Milão. Acredito que a arquitetura deve ir além da estética: ela precisa traduzir a identidade, a história e o estilo de vida de quem irá viver cada espaço. Por isso, não acredito em projetos prontos ou soluções replicadas. Cada criação é única, pensada para refletir a essência de cada cliente. À frente da Bruna Pieritz Arquitetura, desenvolvo projetos completos de arquitetura e interiores, unindo estratégia, funcionalidade, sofisticação e atenção aos detalhes para criar ambientes autênticos, atemporais e cheios de significado.
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