Exercício aeróbico ajuda a prevenir Alzheimer

Durante muito tempo, acreditou-se que a doença de Alzheimer era uma consequência inevitável do envelhecimento. Felizmente, a ciência mudou essa perspectiva. Hoje sabemos que uma parcela importante do risco de desenvolver demência está relacionada a fatores modificáveis do estilo de vida. Entre todos eles, o exercício físico aeróbico ocupa um lugar de destaque. Não por acaso, ele é recomendado pelas principais organizações internacionais de saúde e aparece de forma consistente nas pesquisas como uma das intervenções não farmacológicas mais eficazes para preservar a saúde cerebral ao longo da vida.
Mas por que caminhar, correr, pedalar, nadar ou dançar protege o cérebro?
A resposta está na extraordinária capacidade de adaptação do sistema nervoso. Diferentemente do que se acreditava há algumas décadas, o cérebro adulto não é uma estrutura estática. Ele é capaz de formar novas conexões entre os neurônios, reorganizar circuitos neurais e, em regiões específicas como o hipocampo, produzir novos neurônios ao longo da vida. Esse fenômeno, conhecido como neuroplasticidade, é fortemente estimulado pelo exercício aeróbico.
Quando iniciamos uma atividade física que eleva a frequência cardíaca de maneira sustentada, ocorre um aumento significativo do fluxo sanguíneo cerebral. Mais sangue significa maior oferta de oxigênio e glicose, nutrientes indispensáveis para o funcionamento dos neurônios. Essa melhora da circulação favorece especialmente o hipocampo, estrutura profundamente envolvida na formação de novas memórias e uma das primeiras regiões afetadas pela doença de Alzheimer.
Entretanto, os benefícios não se limitam ao aumento da circulação. Durante o exercício, o organismo libera uma proteína chamada fator neurotrófico derivado do cérebro, conhecido pela sigla BDNF. Frequentemente chamado pelos pesquisadores de "fertilizante do cérebro", o BDNF estimula a sobrevivência dos neurônios, favorece a formação de novas sinapses, fortalece as conexões já existentes e aumenta a capacidade do cérebro de aprender, memorizar e adaptar-se às mudanças impostas pelo envelhecimento. Em outras palavras, o exercício cria um ambiente biológico mais favorável para que o cérebro permaneça saudável.
Outro mecanismo de proteção envolve a redução da inflamação crônica de baixo grau. Atualmente, sabe-se que a doença de Alzheimer não é apenas resultado do acúmulo das proteínas beta-amiloide e tau. Ela também está associada a alterações vasculares, processos inflamatórios persistentes, estresse oxidativo e disfunções metabólicas que, ao longo de décadas, comprometem a integridade dos neurônios. O exercício físico atua simultaneamente sobre todos esses mecanismos. Ele melhora a sensibilidade à insulina, reduz marcadores inflamatórios, aumenta a capacidade antioxidante do organismo e preserva a função dos vasos sanguíneos que irrigam o cérebro.
Além disso, pessoas fisicamente ativas apresentam menor incidência de hipertensão arterial, diabetes tipo 2, obesidade e doenças cardiovasculares — condições reconhecidas como importantes fatores de risco para o desenvolvimento de demências. Proteger o coração significa, também, proteger o cérebro.
As evidências científicas acumuladas nas últimas décadas mostram ainda que indivíduos que mantêm uma rotina regular de atividade física apresentam menor redução do volume cerebral durante o envelhecimento, especialmente no hipocampo, melhor desempenho em testes de memória, atenção e funções executivas e menor risco de desenvolver comprometimento cognitivo leve, condição que frequentemente antecede a doença de Alzheimer.
Mas quanto exercício é necessário?
As recomendações da Organização Mundial da Saúde orientam que adultos realizem entre 150 e 300 minutos semanais de atividade aeróbica de intensidade moderada, como caminhada rápida, ciclismo recreativo, dança ou natação, ou entre 75 e 150 minutos semanais de atividade vigorosa, como corrida ou ciclismo intenso. Para a maioria das pessoas, isso corresponde a aproximadamente 30 minutos de caminhada rápida, cinco vezes por semana.
A distribuição desses exercícios ao longo da semana é tão importante quanto o tempo total. O cérebro responde melhor à regularidade do que aos esforços esporádicos. Praticar atividade física apenas aos finais de semana não produz as mesmas adaptações fisiológicas observadas em pessoas que se movimentam de maneira contínua. O ideal é evitar longos períodos de sedentarismo, incorporando o movimento como parte da rotina diária.
É importante destacar que nunca é tarde para começar. Estudos mostram benefícios mesmo quando a prática de exercícios é iniciada após os 60 anos. Entretanto, iniciar ainda na meia-idade oferece uma vantagem adicional: permite construir maior reserva cognitiva, conceito utilizado para descrever a capacidade do cérebro de resistir às alterações relacionadas ao envelhecimento e às doenças neurodegenerativas.
No Congresso Internacional da Associação de Alzheimer (AAIC 2026), realizado em Londres, ficou evidente que a prevenção da doença depende da combinação de estratégias baseadas em evidências científicas. Exercício físico, alimentação saudável, sono de qualidade, controle dos fatores cardiovasculares, estímulo cognitivo e interação social atuam de forma complementar na preservação da saúde cerebral. Nenhuma dessas medidas funciona isoladamente, mas o exercício aeróbico permanece como um dos pilares mais consistentes e acessíveis dessa estratégia preventiva.
Em um momento em que ainda não dispomos de uma cura para a doença de Alzheimer, investir na prevenção deixou de ser apenas uma orientação de estilo de vida para tornar-se uma prioridade em saúde pública. O exercício físico aeróbico é uma intervenção segura, de baixo custo e respaldada por décadas de pesquisas conduzidas em diferentes países. Seus benefícios vão muito além da memória: reduzem o risco de doenças cardiovasculares, melhoram a qualidade do sono, diminuem sintomas de ansiedade e depressão, preservam a autonomia e contribuem para um envelhecimento mais saudável.
A prevenção da doença de Alzheimer não começa quando surgem os primeiros esquecimentos. Ela começa décadas antes, nas escolhas que repetimos todos os dias. Cada caminhada, cada pedalada e cada minuto dedicado ao movimento representam um investimento no órgão mais complexo do corpo humano: o cérebro. Cuidar dele hoje é aumentar as possibilidades de chegar ao futuro com memória preservada, independência e qualidade de vida.
Por Rosangela Haydem Campinho Torres
Pesquisadora da Doença de Alzheimer, especialista em Neurociência, doutora em Saúde Pública e autora do livro Alzheimer: Prevenção para Mulheres – Um Manual Essencial.
Sobre o autor

13 matérias publicadas
Vívia Ewald é empresária, palestrante e especialista em cultura de movimento e performance humana. Com 25 anos de experiência no mercado da atividade física, dedica-se a mostrar que saúde não é custo, mas investimento. Sua missão é ajudar líderes e empresas a construírem equipes mais saudáveis, produtivas e engajadas, porque acredita que um corpo saudável é a base de uma empresa forte.
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