Construção reage, mas quem vai pagar a conta dos custos?
Construção e materiais dão sinais de estabilização em 2026, mas alta de custos ainda pressiona margens de vidraçarias, serralherias e empresas de alumínio.

Indústria de materiais interrompe deterioração das vendas, enquanto inflação de custos, juros e pressão sobre margens ainda limitam uma retomada mais consistente da cadeia da construção.
O mercado brasileiro de materiais de construção entrou no segundo semestre de 2026 com sinais de estabilização, mas ainda distante de uma recuperação consolidada. Em julho, o faturamento da indústria praticamente repetiu o nível observado no mesmo mês de 2025, interrompendo uma sequência de resultados mais fracos. Ao mesmo tempo, os custos de construir continuam avançando, criando uma combinação especialmente desafiadora para empresas de vidro, alumínio, esquadrias, fachadas e instalação.
O quadro aparece na primeira edição do Pulso Abramat, levantamento mensal da Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção citado pelo Jornal do Vidro. Entre janeiro e julho, o faturamento da indústria de materiais ainda acumulava retração de 2,7% ante igual período de 2025. Nos materiais básicos, a queda era de 2,4%; nos produtos de acabamento, de 3,2%. A Abramat manteve, apesar disso, a expectativa de crescimento de 0,5% em 2026, o que pressupõe desempenho mais forte na segunda metade do ano. (jornaldovidro)
Para a cadeia de vidro e alumínio, a leitura exige cautela. A desaceleração das perdas pode antecipar maior movimento em obras e reformas, mas empresas do setor continuam enfrentando custos elevados de materiais, mão de obra e outros componentes operacionais. Na prática, mais pedidos não significam necessariamente recuperação equivalente das margens.
Custos desaceleram, mas continuam subindo
O Índice Nacional de Custo da Construção — Mercado (INCC-M), calculado pelo FGV IBRE, avançou 0,62% em julho, depois de subir 0,85% em junho. Em 12 meses, porém, a inflação acumulada dos custos da construção alcançou 6,40%.
O componente de Materiais e Equipamentos desacelerou de 0,86% em junho para 0,42% em julho. Materiais para estrutura, por exemplo, passaram de uma alta de 0,73% para 0,26%. Já a mão de obra avançou 0,93% no mês, ligeiramente acima dos 0,91% registrados em junho. (portalibre.fgv.br)
Essa diferença é importante para interpretar o momento. Desaceleração de preços não significa queda de preços. Significa apenas que a elevação ficou menos intensa.
Para fabricantes, distribuidores, serralherias e vidraçarias, portanto, a equação segue apertada: a demanda começa a demonstrar algum grau de estabilização enquanto os custos continuam aumentando.
Outro indicador oficial reforça essa pressão. Segundo o IBGE, o Sinapi — Índice Nacional da Construção Civil — subiu 1,19% em junho, maior avanço mensal desde agosto de 2022, excetuando janeiro de 2026, afetado pela reoneração da folha de pagamento.
O custo médio nacional da construção chegou a R$ 1.976,37 por metro quadrado em junho, dos quais R$ 1.114,74 correspondiam a materiais e R$ 861,63 à mão de obra. Em 12 meses, o Sinapi acumulava alta de 7,26%. (Agência de Notícias IBGE)
Vidro sente diretamente o ritmo das obras
A cadeia de vidro plano depende de segmentos como construção residencial e comercial, reformas, fachadas, esquadrias, boxes, guarda-corpos e projetos arquitetônicos. Por isso, alterações na atividade imobiliária tendem a chegar rapidamente às empresas transformadoras e instaladoras.
O Panorama Abravidro 2026 mostra que o setor encerrou 2025 com alta de 5% nas quantidades vendidas e de 6% na produtividade, enquanto o faturamento ficou praticamente estável, com retração de 0,1%. Vidros de maior valor agregado, como laminados e insulados, continuaram ganhando espaço. (Abravidro)
Esse movimento sugere que parte da cadeia consegue buscar valor não apenas pelo volume, mas também por produtos com maior conteúdo tecnológico, desempenho térmico, acústico ou de segurança.
A mudança tem importância estratégica em um ambiente de custos pressionados: produtos diferenciados podem reduzir a dependência de uma competição baseada exclusivamente em preço. Isso, contudo, não elimina o desafio de repassar aumentos para clientes finais, especialmente em pequenas reformas e obras de menor orçamento.
Desde 1º de janeiro de 2026, o setor também opera integralmente sob os requisitos atualizados da ABNT NBR 7199 para aplicações de vidros na construção civil, depois do período de transição previsto após a revisão da norma. O ambiente competitivo, portanto, combina pressão econômica com exigências técnicas crescentes. (Abravidro)
Alumínio continua estratégico para a construção
A construção também representa parcela expressiva da demanda brasileira de alumínio, principalmente em perfis extrudados utilizados em portas, janelas, fachadas, coberturas e sistemas de esquadrias.
Dados da Associação Brasileira do Alumínio mostram a dimensão dessa conexão. Em 2024, a construção civil consumiu 333,4 mil toneladas de produtos de alumínio, equivalentes a 17,7% do consumo nacional naquele ano e 21,7% acima do volume de 2023. (ABAL)
Mais recentemente, a Abal informou que o consumo brasileiro de produtos transformados de alumínio terminou 2025 em 1,883 milhão de toneladas, praticamente estável ante o recorde de 2024, com retração de 0,5%. A entidade também chama atenção para o avanço das importações no mercado interno. (ABAL)
Para fabricantes de esquadrias e serralherias, a trajetória de preços e disponibilidade do metal é decisiva porque o alumínio representa parcela relevante do orçamento de muitos projetos. Oscilações podem afetar propostas comerciais elaboradas meses antes da instalação, exigindo maior precisão na formação de preços e nos prazos de validade dos orçamentos.
Construção cresce mesmo com indústria de materiais fraca
A aparente contradição entre uma indústria de materiais ainda em retração e uma construção que mantém atividade pode ser explicada pela própria estrutura do setor.
O PIB da construção cresceu 2,9% no primeiro trimestre de 2026 ante o trimestre imediatamente anterior, segundo dados do IBGE repercutidos pela CBIC. A entidade associa parte desse desempenho aos empreendimentos imobiliários lançados anteriormente e aos investimentos em infraestrutura. (CBIC)
Além disso, o mercado formal de trabalho continua mostrando demanda por trabalhadores. No primeiro semestre, a construção criou 168.962 empregos formais, expansão de 5,73% no estoque, segundo o Novo Caged. Obras de infraestrutura responderam por 64.793 vagas e a construção de edifícios, por outras 60.552. Somente em junho, o setor apresentou saldo positivo de 14.136 empregos. (Serviços e Informações do Brasil)
Esses números mostram que existe atividade nos canteiros, ainda que ela não se traduza de maneira uniforme em vendas de materiais.
Grandes obras contratadas, infraestrutura e empreendimentos iniciados em ciclos anteriores podem continuar consumindo materiais e mão de obra, enquanto pequenas reformas — mais dependentes de renda disponível e crédito ao consumidor — sofrem mais intensamente com juros elevados.
Mercado imobiliário oferece uma base de demanda
O segmento residencial permanece como um importante suporte para a cadeia.
No primeiro trimestre de 2026, o programa Minha Casa, Minha Vida respondeu por 49% das vendas de imóveis captadas pela pesquisa nacional da CBIC, equivalente a 54.510 unidades comercializadas. O levantamento abrangeu 221 cidades. (CBIC)
Como edifícios consomem vidro, esquadrias, perfis de alumínio, ferragens e componentes de acabamento em fases posteriores do cronograma, lançamentos e vendas atuais podem se transformar em encomendas para essas indústrias ao longo dos meses seguintes.
O efeito, entretanto, não é imediato. Entre o lançamento de um empreendimento, sua construção e a contratação das esquadrias ou dos sistemas de fachada existe uma defasagem que pode ultrapassar vários meses.
Isso ajuda a explicar por que alguns fornecedores ainda não enxergam nos pedidos a mesma melhora observada em determinados indicadores imobiliários.
Pequenas empresas enfrentam maior pressão sobre margens
Para vidraçarias, serralherias e instaladores, o principal risco do atual ciclo não é apenas vender menos. É vender mais sem recuperar rentabilidade.
Uma empresa que prepara um orçamento precisa incorporar vidro, perfis de alumínio, ferragens, acessórios, mão de obra, frete, impostos, energia e custos administrativos. Se o intervalo entre orçamento, aprovação e instalação for longo, uma nova rodada de reajustes pode consumir parte significativa da margem prevista.
O ambiente também exige maior disciplina de capital de giro. Comprar estoque demais diante de uma retomada ainda incerta imobiliza caixa; comprar de menos aumenta a exposição a reajustes e dificuldades de fornecimento.
Para empresas menores, gestão de estoque, negociação com fornecedores, validade das propostas e revisão periódica dos custos tornam-se tão importantes quanto conquistar novos clientes.
Segundo semestre será o teste da recuperação
O comportamento dos próximos meses deverá mostrar se julho marcou apenas uma estabilização estatística ou o início de uma recuperação mais duradoura da indústria de materiais.
A expectativa da Abramat de terminar 2026 com crescimento de 0,5% exige uma reversão relevante em relação ao desempenho acumulado até julho. (jornaldovidro)
Ao mesmo tempo, o INCC-M revela que a inflação de materiais perdeu intensidade, mas ainda não desapareceu. Se esse movimento continuar, fornecedores poderão encontrar um ambiente um pouco mais previsível para precificação e planejamento.
Juros, crédito imobiliário, renda das famílias, andamento de programas habitacionais, infraestrutura e ritmo das reformas permanecerão entre os principais fatores a acompanhar.
O ponto central para a cadeia de vidro e alumínio é que estabilização de demanda e recuperação de rentabilidade são fenômenos diferentes. O setor pode voltar a receber mais pedidos e, mesmo assim, continuar com margens apertadas se custos, salários e despesas operacionais subirem em velocidade superior à capacidade de reajustar preços.
Ao mesmo tempo, há fundamentos que impedem uma leitura exclusivamente negativa: a construção continua gerando empregos, determinados mercados imobiliários mantêm volume de negócios e os materiais registraram desaceleração dos reajustes em julho. A confirmação de uma retomada dependerá agora da continuidade desses sinais durante o segundo semestre — e, para as empresas da cadeia, da capacidade de transformar maior movimento em geração efetiva de caixa e margem.
Sobre o autor

86 matérias publicadas
Farmacêutico Bioquímico formado na Universidade Federal Santa Catarina (UFSC), pós graduado em Gestão Estratégica de Empresas pela Fundação Dom Cabral (FDC). Atual CFO do grupo ALLOYBR. Atual vice-presidente do Rotary Club de Blumenau-Norte gestão 2026-2027.
Discussão
0 comentários
Notícias Relacionadas

Paraguai virou vizinho: e sua loja, está pronta?
Você sabia que seu cliente já pode receber, na porta de casa, um produto comprado direto de uma loja do Paraguai, sem ninguém atravessar a fronteira? A novidade parece só sobre importação, mas esconde uma lição de logística que todo pequeno negócio deveria copiar hoje mesmo. Entenda o que realmente mudou e por que a vantagem pode não durar para sempre.

Educação bilíngue de alto nível em Balneário Piçarras
Balneário Piçarras vem consolidando uma proposta de educação de alto nível para famílias que buscam excelência, segurança e qualidade de vida. Entre os destaques está o Theorema Bilingual School, uma escola frente-mar, certificada como bilíngue, com metodologia de imersão em inglês, protocolos de segurança e uma estrutura diferenciada, integrada à natureza e projetada para oferecer um alto padrão de ensino a um público cada vez mais exigente.

Justiça britânica ignora STF e mantém investigação lava-jato
Justiça britânica decide manter confisco de £7,3 milhões de ex-engenheiro da Petrobras, ignorando decisão do STF.