A história de 40 anos de Rovitex e os segredos de quem lidera em meio a crises
Edimar Russi, diretor geral do grupo Rovitex, revela como resiliência, foco e determinação transformaram uma pequena confecção em uma das maiores indústrias de moda do Brasil.

Edimar Russi, diretor geral do grupo Rovitex, revela como resiliência, foco e determinação transformaram uma pequena confecção em uma das maiores indústrias de moda do Brasil.
DO OFFICE BOY AO TOPO DA INDÚSTRIA
Quando Edimar Russi (também conhecido como Edinho) entrou na Rovitex em 2005, começou como office boy fazendo serviços de banco. O escritório ainda ficava em Blumenau na época. Hoje, após mais de 20 anos, ele é diretor geral de uma das maiores operações têxteis do Brasil. A empresa completou 40 anos em fevereiro de 2026.
Edimar descreve sua ascensão como um processo de aprendizado constante. O fundador Vitor sempre acreditou em pessoas com vontade de aprender, mesmo sem experiência técnica prévia. "Preferiam contratar alguém com vontade, mas que não conhecesse ainda, do que alguém com talento mas sem disposição", explica.
Ele praticava o intraempreendedorismo sem saber o conceito. Foi só no mestrado que compreendeu a teoria. "Um colaborador pode ser empreendedor dentro de uma empresa. Ele não precisa sair para criar uma empresa", diz. E foi com esse espírito que acompanhou o crescimento da Rovitex.
DE CONFECÇÃO A ECOSSISTEMA INDUSTRIAL
O que começou como uma confecção simples: comprando malha, cortando e costurando, evoluiu para um ecossistema complexo. Víor percebeu oportunidades em cada etapa da cadeia produtiva e decidiu verticalizar.
Em 1991, quando a fábrica se mudou para Luiz Alves em SC, surgiu uma tinturaria.
O motivo era prático: terceirizar tintura de malha era difícil de controlar. Logo depois criou as fiações Incofios e Incofibras, que hoje produzem 3.300 toneladas por mês de fio.
O ecossistema não parou aí. A empresa criou a RV Empreendimentos, uma construtora de alto padrão em Brusque. E expandiu para o Paraguai, primeiro em Ciudad del
Este desde 2019 e agora em Mingaguazú, para contornar a crise de mão de obra no Brasil.
O grande salto recente foi o e-commerce. Lançado em 2020 no ápice da pandemia, já é responsável por expedir mais de 40 mil pacotes por mês para consumidor final. Um número impressionante para uma empresa que historicamente vendia para logistas em caixas grandes.
10 MARCAS, 1 FAMÍLIA INTEIRA
Para atender do bebezinho ao adulto plus-size, a Rovitex desenvolveu um portfólio de 10 marcas, cada uma com sua estratégia de posicionamento.
No infantil estão Trick Nick (a marca carro-chefe, lançada em 1996 com 30 anos de história, número um em vendas) e Rovi Kids (roupa de entrada para o dia a dia).
Na moda juvenil está Minty, focada naquele público que não é mais criança mas ainda não é adulto.
Na moda adulta estão Rovitex (feminino adulto focado em qualidade e elegância), Endless (feminino adulto mais sofisticado), Secret Glam (plus-size feminino) e Diametro (linha masculina).
Existem ainda três marcas exclusivas para digital: Diana, Select e Infinita Cor O portfólio é colossal: aproximadamente 700 produtos por coleção, em 4 coleções por ano, com variantes de cor e tamanho. "É uma engenharia bem complexa, mas funciona bem", afirma Edimar.
OS BASTIDORES: UM MALABARISMO DIÁRIO
Produzir 100 mil peças por dia não é tarefa simples. O primeiro desafio é abastecer a indústria. "Se estiver bem cheia, é uma vantagem competitiva. Se não, vira um peso", explica Edimar.
O segundo desafio é a complexidade produtiva: 700 produtos por coleção, 10 marcas, variantes infinitas. "É uma engenharia dificílima que ninguém enxerga de fora. Quando você só vê a ponta do iceberg, acha que é simples, mas não é. Depois vêm os problemas reais: caminhão que não chega, matéria-prima atrasada, produto que não consegue ser finalizado, terceiro que não entrega no prazo. "Os bastidores são um malabarismo, um equilíbrio de pratos sem deixar nenhum cair.
Se você foca só em venda, a fábrica para. Se foca só em produção, o mercado pode não aceitar e você fica com saldo. "Resultado: entrada às 7 da manhã, saída às 17h, operação em três turnos, dinâmica intensíssima. "Cada dia é um leão diferente, mas é um leão, não são 10 leões ao mesmo tempo", diz com certo humor.
OS DESAFIOS REAIS: MÃO DE OBRA, CUSTO BRASIL E TRIBUTAÇÃO
Se a operação interna é complexa, o ambiente externo não facilita. Edimar aponta três desafios sistêmicos principais.
Primeiro, a falta de mão de obra. "Aqui no Brasil, uma menina de 18 anos não vem mais fazer ficha dizendo que quer ser costureira. No Paraguai, você ainda vê isso." Por isso a expansão internacional. Mas a solução tem limites: "É outro país, é uma fronteira para ir, uma fronteira para voltar, mercadoria, tudo complexo."
Segundo, o custo Brasil. A indústria tem custos estruturais que atacadistas não têm. "Um cliente que só compra e revende consegue acelerar e frenar com muito mais facilidade. Na indústria, você faz a coleção um ano na frente, tem máquinas que não podem ficar paradas, tem 3 mil funcionários."
Terceiro, a tributação e redução de jornada. "Vai dificultar para todo mundo. Nosso concorrente sofre igual. É um equilíbrio que não sabemos dizer o quanto vai afetar."
Mas talvez o desafio mais grave seja a inadimplência. "Nunca teve tanta pessoa inadimplente no mercado quanto agora. Aquele cara que sempre pagou certinho está com dificuldade hoje. A gente não tem dívida, somos sólidos, mas sofre muito quando cliente não paga."
IA: ESTAMOS NAMORANDO, MAS NÃO CASAMOS
A Inteligência Artificial é a "grande noiva cobiçada" no momento, mas Edimar é realista: ninguém encontrou ainda o modelo ideal.
"Estamos tateiando para não ficar de fora. Não mergulhamos de cabeça. Usamos em pequenas iniciativas, sabemos que em algum momento vai ganhar escala, mas ainda estamos namorando. Não casamos em nenhum cenário."
Para Rovitex, as aplicações mais evidentes são em atendimento ao cliente, mix de produto e sortimento, não na produção em si. "No Brasil, a gente não viu ainda um case de IA que revolucionasse a produção ou reduzisse significativamente mão de obra no chão de fábrica."
Edimar admite que o perfil da empresa é "mais conservador" em inovação. Preferem esperar por soluções validadas a investir recursos em experimentos. "A gente não quer beber essa água primeiro. Estamos esperando o cenário. Não vamos ser percussores, então talvez não aproveitemos a primeira onda como deveríamos, mas também não vamos investir recursos e não ter resultado."
RESILIÊNCIA E TROCA DE IDEIAS: OS PILARES DO EMPREENDEDOR
Quando perguntado sobre os atributos mais importantes do empreendedor, Edimar aponta dois principais.
Primeiro, resiliência. "Das 16 características que consagram o empreendedor, a resiliência é fundamental. Se você desanimar, não consegue enfrentar nenhum desafio. Tem dia que tudo dá errado mesmo, faz parte do jogo. Mas o dia seguinte é um novo dia. Se ficar naquele negativismo, só vai para baixo."
Segundo, troca de ideias e associativismo. "O empreendedor é um cara solitário.
Mas se você tem associativismo, se troca ideia com outras empresas do segmento, você vê que aquela dor não é só sua, é uma dor geral. Isso te traz resiliência de novo." A frase que ele carrega é de Ayrton Senna: "Ao que tange a determinação, não existe meio termo. Ou você faz bem feito ou não faz."
VISÃO DE FUTURO: SOBREVIVÊNCIA PRIMEIRO, LUCRATIVIDADE DEPOIS
Quanto aos próximos anos, Edimar é pragmático. "Antigamente se falava de planejamento para 10 anos. Agora se fala para 3, mas no fundo é ano a ano."
A Rovitex tem um planejamento estratégico de 5 anos, revisitado anualmente. Mas a prioridade imediata é clara: sobrevivência.
"Com a inadimplência em níveis históricos, o foco é manter-se no jogo. A gente não tem dívida, somos sólidos, mas quando o cliente deixa de pagar, sofre muito."
Em segundo lugar vem a lucratividade saudável. "Passamos por anos buscando apenas faturamento, para manter a fábrica girando. Entendemos que não é o caminho mais saudável. Você precisa de equilíbrio com lucratividade. Se necessário, vendemos menos, mas com saúde financeira."
Sobre o mercado futuro, Edimar é esperançoso. "O mercado tá sendo regulamentado pela inadimplência. É uma lei da selva novamente, quem conseguir equilibrar melhor os pratos vai sobreviver. Nas dificuldades é que surgem as invenções, as novidades. Quem sobreviver vai beber uma água mais limpa na frente."
A MENSAGEM FINAL
Para empreendedores e intraempreendedores que o ouviram, Edimar deixa uma
mensagem clara: "Quem empreende ou entra em empreendedorismo no Brasil já tá de parabéns. A indústria tá extremamente apertada, com inadimplência explodindo, custo Brasil, custo da Selic. Administrar esse equilíbrio onde a blusa continua custando R$19 e a camisa polo R$49 é heroico."
Sua frase de cabeceira, baseada em Ayrton Senna: "Ao que tange a determinação, não existe meio termo. Ou você faz bem feito ou não faz. Ou você se determina a fazer algo ou não faz. Ninguém vai te motivar se você não estiver motivado."
E conclui: "Mesmo com dificuldades, mesmo com empecilhos do dia a dia, você tem que se manter positivista e achar o caminho. É um leão por dia, não são 10 leões ao mesmo tempo. Um mercado positivo é feito por nós, pelas empresas, pelos colaboradores. Essa é a forma de fazer o Brasil dar certo."
Conheça: https://www.rovitex.com.br/
SOBRE A ROVITEX
A Rovitex completa 40 anos em 2026. Hoje é uma das maiores e mais respeitadas empresas do setor têxtil brasileiro, operando um parque fabril de 86 mil m² em Luiz Alves em SC, com aproximadamente 2 mil colaboradores e produção de 17 milhões de peças por ano.
O grupo opera em múltiplas frentes: confecção com 10 marcas, fiações (Incofios e Incofibras), comércio de malhas e tecidos, construção (RV Empreendimentos), operações no Paraguai (Iguaçu) e e-commerce com mais de 40 mil pedidos por mês.
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Assista a entrevista completa no YouTube: Episódio #007: Como a Rovitex virou referência em têxtil industrial com Edimar Russi
LINK DA ENTREVISTA: https://youtu.be/k5tmri29agM
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Sobre o autor

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Empresário e estrategista de marketing e vendas, com mais de 10 anos de atuação ajudando empresas a crescerem por meio de posicionamento e performance em vendas com múltiplos canais. Fundador da ANS Soluções de Marketing, lidera projetos que conectam criatividade, dados e inovação para gerar resultado em múltiplos canais.
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