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Infraestrutura

1 em cada 5 carros novos é eletrificado. E a garagem?

Em julho, 56.074 veículos eletrificados foram emplacados no Brasil, 21,1% do mercado, segundo a ABVE. A rede de recarga cresceu bem menos, e a conta da infraestrutura vai cair sobre quem administra vaga, prédio e frota.

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Em julho, o Brasil emplacou 56.074 veículos eletrificados. Foram 21,1% de tudo o que saiu das concessionárias no mês e quase o triplo do mesmo mês de 2025. Os dados são da Associação Brasileira do Veículo Elétrico e foram divulgados em agosto. No acumulado de janeiro a julho, o país passou de 271 mil unidades, mais do que os cerca de 224 mil vendidos em todo o ano passado.

Quem toca empresa costuma ler esse número como assunto de montadora. Não é. Um em cada cinco carros novos que entram nas ruas precisa de uma tomada em algum momento do dia, e essa tomada vai estar em algum lugar que alguém administra: um pátio, a garagem de um prédio comercial, o estacionamento de um shopping, a base de uma transportadora. A obra elétrica, a conta de energia e a decisão de investir são de quem opera o imóvel, não de quem vendeu o carro.

A frota corre, a rede caminha

Até maio de 2026 o Brasil tinha 25.429 pontos de recarga públicos e semipúblicos, segundo levantamento da ABVE com a plataforma Tupi. São 16.828 de corrente alternada, os lentos, e 8.601 de corrente contínua, os rápidos. A rede cresceu 20,7% em três meses, e a parte rápida cresceu 32,8%. Não é pouco.

O problema aparece na divisão. Só entre janeiro e julho entraram mais de dez eletrificados novos para cada ponto de recarga que existe no país. E a distribuição é pior que o total: 1.788 municípios têm alguma infraestrutura de recarga. O Brasil tem 5.570, segundo o IBGE. Dois terços das cidades não têm nenhum ponto.

Tem ainda a composição da rede. Dois terços dos pontos são lentos, e recarga lenta devolve autonomia em horas, não em minutos. Um carregador AC não é um posto de combustível. É um lugar onde o carro fica parado.

O gargalo é a vaga, não o poste

É aqui que o debate público erra o alvo. A recarga lenta não acontece na estrada. Acontece onde o carro já ia ficar parado de qualquer jeito: casa, trabalho, shopping, aeroporto, hospital. Ou seja, dentro de vaga que alguém opera, controla e cobra.

Em mais de mil pátios que operamos país afora, o tempo médio de permanência é de 2 horas e 50 minutos.

Guarde esse número. Quase três horas é tempo de recarga lenta. O carro já fica parado o suficiente. O que falta no pátio brasileiro não é tempo, é tomada.

Só que a conta tem o outro lado, e ele não é intuitivo. Estacionamento rotativo ganha dinheiro com giro, e carregador é um convite para ficar mais. Se a permanência sobe, a receita por vaga cai, a política de preço precisa mudar junto e o cálculo de quantas vagas vale a pena eletrificar muda com ela. Eletrificar vaga sem mexer na regra de preço é trocar receita por simpatia.

O outro lado da conta

Instalar recarga não é comprar carregador. É reforço de entrada elétrica, projeto assinado, ART, aprovação da distribuidora, adequação de combate a incêndio e, em muitos casos, aumento de demanda contratada, que vira custo fixo mensal mesmo no mês em que ninguém carregou nada.

E a regra ainda não fechou. A lei estadual paulista 18.403, sancionada em 18 de fevereiro de 2026, garante ao condômino o direito de instalar recarga na vaga dele, às próprias custas, e só permite que o condomínio recuse com justificativa técnica fundamentada. A lei resolve a vaga de uso privativo. Ela não alcança a vaga rotativa e não define quem paga a obra coletiva quando o prédio inteiro precisa reforçar a rede para atender um morador.

Quem perde nesse desenho é o operador de estacionamento rotativo e o dono de prédio antigo. Quem tem vaga com titular resolve com a lei nova. Quem opera vaga sem titular fica com a conta da infraestrutura, sem garantia de retorno e sem preço padronizado de recarga para se apoiar. Some o risco de escolher potência errada e ficar com equipamento ocioso, ou escolher potência de menos e ter que refazer a obra em dois anos.

A pergunta que vem antes do orçamento

Antes de decidir quantos carregadores instalar, a pergunta útil é outra: qual comportamento você quer comprar. Carregador rápido serve para aumentar giro e cobrar prêmio por minuto. Carregador lento serve para prender o cliente no lugar por mais tempo, o que é ótimo para shopping e péssimo para pátio de aeroporto.

São decisões opostas com o mesmo nome. Quem trata as duas como "colocar carregador" vai errar uma delas.

O que fica

O carro elétrico chegou pela concessionária. A conta dele vai chegar pela garagem.

Com dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), do IBGE e da legislação estadual de São Paulo.

#infraestrutura#mobilidade urbana#recarga#estacionamento#eletrificação
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Sobre o autor

Johnny BrandtColunista

10 matérias publicadas

CEO e co-fundador da CloudPark, empresa especializada em tecnologia para gestão e automação de estacionamentos. Apaixonado por automação, empreendedor, investidor e palestrante, dedico minha trajetória a desenvolver soluções que simplificam operações, geram resultados e impulsionam a evolução da mobilidade urbana. Há mais de 12 anos lidero equipes, projetos e estratégias de crescimento, sempre com foco em inovação, eficiência e experiência do cliente. Acredito que grandes transformações acontecem quando tecnologia, pessoas e propósito trabalham na mesma direção.

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