R$ 14,3 bi em ações colocam Vorcaro no centro da Justiça
Relatório entregue ao Banco Central mapeou 16 processos envolvendo direitos comprados pelo Banco Master; valores dependiam de decisões judiciais para se transformar em pagamentos da União

O ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, tinha ao menos R$ 14,3 bilhões relacionados a 16 ações judiciais envolvendo possíveis indenizações da União para usinas de açúcar e álcool. Os dados constam de um relatório elaborado em 2024 pelo escritório Galdino Advogados e posteriormente entregue ao Banco Central, segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo nesta quarta-feira (23).
Os ativos são conhecidos no mercado como pré-precatórios. Na prática, o banco adquiria direitos sobre valores que poderiam ser pagos no futuro caso determinadas teses fossem reconhecidas definitivamente pela Justiça. Como o resultado financeiro dependia diretamente do andamento dos processos, decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF) tinham potencial para alterar significativamente o valor desses ativos.
Boa parte das disputas tem origem nas políticas de controle de preços adotadas pelo antigo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) durante as décadas de 1980 e 1990. Usinas recorreram à Justiça argumentando que foram obrigadas a comercializar produtos abaixo dos custos de produção e passaram a reivindicar indenizações da União.
Segundo a Advocacia-Geral da União, existem cerca de 178 processos relacionados ao tema. Dados do Conselho da Justiça Federal citados pela reportagem indicam que os precatórios já expedidos para o setor sucroalcooleiro alcançam aproximadamente R$ 47,8 bilhões.
Compra com desconto ampliava potencial de retorno
A operação se tornava especialmente relevante porque esses direitos podiam ser adquiridos com forte desconto. De acordo com a Folha, participações eram negociadas, em alguns casos, por valores próximos de 20% da indenização estimada. Caso a tese jurídica fosse confirmada e o pagamento realizado integralmente, o ganho para o comprador poderia ser expressivo.
É nesse contexto que a reportagem relaciona os investimentos do Master às relações mantidas por Vorcaro com integrantes e pessoas próximas ao Judiciário. Mensagens obtidas pelas investigações passaram a revelar contatos do ex-banqueiro com magistrados, advogados e familiares de autoridades. As autoridades citadas em diferentes episódios têm apresentado versões próprias e negado irregularidades quando questionadas.
Um dos casos mencionados envolve o ministro do STF Kassio Nunes Marques. Conversas investigadas registraram comemorações após uma decisão relacionada a uma usina do setor. Nunes Marques afirmou que o processo não envolvia diretamente o Banco Master e que a decisão era restrita ao caso analisado, sem criar precedente geral para outros processos do segmento. O ministro também declarou nunca ter votado em favor de Vorcaro ou recebido pedidos do ex-banqueiro.
Ativos chegaram a circular entre fundos ligados ao Master
Outro ponto sob análise é a forma como esses direitos eram registrados e negociados dentro do ecossistema financeiro ligado ao banco. Entre outubro e novembro de 2025, o Master vendeu direitos creditórios avaliados em aproximadamente R$ 2,9 bilhões para fundos e empresas relacionadas ao grupo, de acordo com documentos consultados pela Folha.
Em uma dessas operações, um direito relacionado a uma possível indenização da usina São João B. Lyzandro foi avaliado inicialmente em cerca de R$ 962 milhões. Pouco depois de ser transferido entre dois fundos ligados ao ecossistema do banco, o mesmo ativo passou a ser estimado em quase R$ 1,1 bilhão, uma diferença superior a R$ 100 milhões em menos de 24 horas.
As investigações também passaram a analisar o tamanho total da exposição do grupo a precatórios e pré-precatórios. Segundo a reportagem, enquanto aproximadamente R$ 8 bilhões desses ativos apareciam diretamente no balanço do Master, a apuração posterior identificou cerca de R$ 21 bilhões quando considerados fundos relacionados à estrutura do banco.
O caso ganhou ainda mais relevância porque a Polícia Federal investiga uma rede mais ampla de relações envolvendo Vorcaro e agentes públicos. Documentos da Operação Compliance Zero já indicaram que pessoas ligadas ao ex-banqueiro tiveram acesso a informações relacionadas a investigações conduzidas por órgãos como Polícia Federal e Ministério Público Federal.
A defesa de Vorcaro não apresentou resposta à Folha sobre os pontos específicos da reportagem publicada nesta quarta-feira. As apurações seguem em andamento, e a existência de contratos, contatos ou investimentos em processos judiciais, isoladamente, não representa comprovação de interferência ou prática de irregularidade.
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Fundador do EmpreendaNews. Administrador, atua com foco em negócios e mercado imobiliário em Santa Catarina, acompanhando de perto o ambiente empresarial e seus movimentos. No EmpreendaNews, lidera projetos de conteúdo e relacionamento com empreendedores, fortalecendo conexões e visões práticas de mercado.
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