Mais do mesmo
O último debate presidencial reforçou minha frustração com uma política cada vez mais orientada por ataques e provocações. A uma semana das eleições, faltaram propostas, clareza de planejamento e disposição para um diálogo construtivo. Na coluna de hoje, reflito sobre liderança, civilidade e o desgaste dessa permanente disputa entre nós e eles.

O debate presidencial de ontem, promovido pela TV Bandeirantes, trouxe a tantos brasileiros uma expectativa que, reconheço, talvez tenha sido ingênua. A uma semana do segundo turno, imaginávamos encontrar em Lula e Flávio alguma disposição para apresentar propostas concretas, discutir os desafios do país e demonstrar maturidade diante de milhões de brasileiros que ainda procuram compreender o que esperar dos próximos quatro anos. O que acompanhamos, entretanto, foi mais um capítulo de uma dinâmica que há tempos domina a política nacional. Acusações, provocações, ataques pessoais e uma preocupante dificuldade de transformar divergências em discussões construtivas. A cobertura do encontro também registrou o protagonismo desses confrontos, mesmo quando temas relevantes da administração pública entraram em pauta.
O que mais chama a atenção é a aparente incapacidade das campanhas de perceber que existe uma parcela do eleitorado cansada dessa permanente disputa entre nós e eles. Tenho a impressão de que um candidato capaz de sustentar suas convicções com educação, moderação e respeito encontraria uma oportunidade importante de dialogar com os indecisos. Naturalmente, firmeza e confronto de ideias fazem parte de qualquer democracia, assim como cobranças sobre o passado e questionamentos sobre a conduta de quem pretende governar. Mas em que momento passamos a considerar que interromper, provocar e constranger o adversário representa uma demonstração superior de liderança? Quando a habilidade de ofender passou a ocupar tanto espaço quanto a capacidade de apresentar soluções?
Talvez exista uma explicação na própria lógica das campanhas, cada vez mais orientadas pela repercussão imediata, pelos recortes que circulam nas redes sociais e pela necessidade de mobilizar eleitores já convencidos.
Caminho para a última semana antes das eleições mantendo minha decisão de voto, mas também carregando uma frustração que considero legítima. Gostaria de ter encerrado o domingo com uma compreensão mais clara dos projetos apresentados, das prioridades de cada candidatura e dos caminhos propostos para enfrentar problemas que ultrapassam qualquer mandato presidencial. Continuo acreditando que é possível discordar profundamente de alguém e ainda assim preservar o respeito, a civilidade e a qualidade do diálogo. Talvez minha ingenuidade esteja justamente em esperar que a política ofereça aquilo que tanto cobramos de quem exerce posições de liderança. O Brasil seguirá precisando de diálogo depois que as urnas forem fechadas. Seria desejável que seus futuros governantes começassem a demonstrar essa disposição antes disso.
Sobre o autor

37 matérias publicadas
Pai do Pedro e da Eva; Fundador da Elevion Consultoria; Diretor de Negócios da Rede de Franquias Animal Farma. Consultor e Conselheiro Empresarial.
Discussão
0 comentários
Notícias Relacionadas

Demissão de CEO do Grupo Globo abala mercado
Demissão do CEO do Grupo Globo após vazamento de conversas abala mercado e levanta questões sobre transparência e governança.

PF investiga vazamento de foto de senador
PF investiga vazamento de foto do senador Weverton Rocha com políticos do Centrão em piscina.

Depois das urnas, o Brasil continua sendo o Brasil
O Brasil chega a mais uma disputa presidencial profundamente polarizado, mas alguns de seus maiores problemas atravessam governos e ideologias. Indicadores de desenvolvimento, segurança, liberdade, Estado de Direito e violência contra a mulher mostram a dimensão dos desafios que permanecerão após as eleições. A questão talvez seja menos quem governará o país e mais qual Brasil o próximo ciclo presidencial terá de enfrentar.