Dólar AmericanoR$ 5.15 0.60%EuroR$ 5.96 0.14%BitcoinR$ 401058 2.03%Dólar AmericanoR$ 5.15 0.60%EuroR$ 5.96 0.14%BitcoinR$ 401058 2.03%
Tecnologia

John Ternus conseguirá levar a Apple à era da IA?

John Ternus assume o comando da Apple em 1º de setembro e herda uma gigante de US$ 4 trilhões diante do desafio de acelerar em IA e renovar sua liderança tecnológica.

John Ternus conseguirá levar a Apple à era da IA?Reprodução/Valor Empresas
Compartilhar:WhatsApp
Ouvir notícia

Executivo de hardware sucede Tim Cook em 1º de setembro e herda uma Apple avaliada em trilhões, pressionada a acelerar em inteligência artificial sem perder a força do iPhone e de seu ecossistema.

A Apple inicia nesta terça-feira, 1º de setembro, uma das transições de comando mais importantes de sua história. John Ternus, engenheiro mecânico que ingressou na companhia em 2001 e chegou ao posto de vice-presidente sênior de Engenharia de Hardware, assume o cargo de CEO no lugar de Tim Cook, encerrando um ciclo de 15 anos no comando da fabricante do iPhone.

A troca, aprovada por unanimidade pelo conselho de administração e anunciada oficialmente em abril, foi planejada para preservar a continuidade. Cook não deixará a empresa: passa a ocupar a presidência executiva do conselho e continuará envolvido em determinadas frentes, entre elas o relacionamento da Apple com governos e formuladores de políticas públicas.

Arthur Levinson, presidente do conselho nos últimos 15 anos, torna-se diretor independente líder, enquanto Ternus também passa a integrar o conselho de administração.

Mais do que uma troca de nomes, porém, a sucessão marca uma mudança de geração na companhia. Ternus recebe uma Apple muito maior, mais diversificada e financeiramente mais poderosa do que aquela entregue por Steve Jobs a Cook em 2011. Ao mesmo tempo, assume justamente quando inteligência artificial, regulação das plataformas digitais, tensões geopolíticas e mudanças na cadeia global de tecnologia desafiam algumas das bases do modelo que transformou a empresa em uma potência mundial.

De engenheiro a CEO

John Ternus construiu praticamente toda a sua carreira dentro da Apple.

Formado em engenharia mecânica pela Universidade da Pensilvânia, trabalhou anteriormente na Virtual Research Systems, onde atuou como engenheiro mecânico, antes de ingressar na equipe de design de produtos da Apple em 2001.

Em 2013, tornou-se vice-presidente de Engenharia de Hardware e, em 2021, passou a integrar a equipe executiva como vice-presidente sênior da área.

Ao longo desse período, participou da supervisão da engenharia de hardware em diferentes categorias de produtos da companhia. Sua trajetória está ligada a um dos elementos centrais da estratégia industrial da Apple: a integração cada vez maior entre componentes, chips, sistemas operacionais e desenho dos dispositivos.

Essa experiência ajuda a explicar a escolha.

Ao contrário de Cook, cuja reputação antes de assumir o comando estava fortemente associada à cadeia de suprimentos e à eficiência operacional, Ternus chega ao cargo com uma identidade profissional mais diretamente ligada à engenharia de produtos.

A Apple sinaliza, portanto, continuidade institucional, mas também uma possível mudança de ênfase: da extraordinária máquina operacional construída sob Cook para uma fase em que tecnologia, produto e inteligência artificial precisarão avançar de maneira cada vez mais integrada.

A Apple que Tim Cook entrega

Os números ajudam a dimensionar a transformação ocorrida desde 2011.

Segundo a própria Apple, sua capitalização de mercado passou de aproximadamente US$ 350 bilhões para US$ 4 trilhões durante o período de Cook. A receita anual, por sua vez, saiu de US$ 108 bilhões no ano fiscal de 2011 para mais de US$ 416 bilhões em 2025.

A base instalada ultrapassou 2,5 bilhões de dispositivos ativos, enquanto a companhia expandiu sua presença para mais de 200 países e territórios.

Talvez uma das transformações mais relevantes tenha ocorrido fora do hardware.

A divisão de serviços — que reúne negócios como App Store, iCloud, Apple Music, Apple TV e Apple Pay — tornou-se uma operação com receita anual superior a US$ 100 bilhões.

O resultado foi uma Apple menos dependente exclusivamente da venda anual de novos aparelhos e mais vinculada à monetização contínua de uma enorme base de usuários.

Cook também comandou a entrada em novas categorias, como Apple Watch, AirPods e Vision Pro, além de uma transformação tecnológica decisiva: a substituição progressiva de processadores de terceiros por chips desenvolvidos pela própria Apple.

O Apple Silicon ampliou o controle da empresa sobre uma das tecnologias mais importantes de seus produtos e reforçou a estratégia de integração vertical entre hardware e software.

Ternus recebe uma companhia ainda em expansão

A mudança ocorre sem que Ternus precise administrar uma crise financeira.

No trimestre fiscal encerrado em junho de 2026, a Apple registrou aproximadamente US$ 109,4 bilhões em receita.

As vendas de iPhone chegaram a cerca de US$ 54,3 bilhões, enquanto os Macs movimentaram aproximadamente US$ 10,4 bilhões. Serviços responderam por cerca de US$ 30,7 bilhões no período.

O desempenho mostra que a principal máquina econômica da Apple continua funcionando.

Esse também é um dos paradoxos que Ternus encontrará.

Ele assume uma companhia extremamente rentável e dona de um ecossistema com bilhões de dispositivos, mas precisará convencer investidores, desenvolvedores e consumidores de que essa escala continuará relevante caso a inteligência artificial modifique profundamente a forma como as pessoas interagem com computadores e smartphones.

O principal teste está na inteligência artificial

É nesse ponto que a sucessão ganha uma dimensão estratégica.

Durante a explosão da inteligência artificial generativa, empresas como OpenAI, Google, Microsoft, Meta e Nvidia ocuparam posições centrais na nova corrida tecnológica.

A Apple adotou um caminho diferente, procurando combinar processamento nos dispositivos, infraestrutura própria e modelos ou tecnologias desenvolvidos com parceiros externos.

Essa abordagem preserva elementos historicamente importantes para a empresa, especialmente integração de produto e privacidade. Mas também cria uma questão competitiva: até que ponto a Apple conseguirá depender de parceiros em tecnologias que podem se tornar tão importantes quanto sistemas operacionais, processadores ou mecanismos de busca?

A evolução da Siri será um dos testes mais visíveis dessa estratégia.

Assistentes baseados em modelos generativos estão deixando de funcionar apenas como ferramentas de consulta para atuar como interfaces capazes de interpretar contexto, executar tarefas e interagir com diferentes aplicativos.

Se essa transformação se consolidar, a disputa deixa de ser apenas sobre quem fabrica o melhor smartphone. Passa também por quem controla a camada inteligente por meio da qual o usuário conversa com o aparelho.

Para uma empresa cujo diferencial sempre esteve na integração entre hardware e software, perder protagonismo nessa camada representaria um risco estratégico.

Hardware pode voltar ao centro da estratégia

A origem profissional de Ternus torna especialmente relevante outra questão: qual será o papel do hardware na era da IA?

Durante décadas, o smartphone concentrou grande parte da vida digital do consumidor. Agora, empresas de tecnologia investigam novas formas de interação com inteligência artificial, incluindo óculos inteligentes, dispositivos vestíveis e outras categorias de computação pessoal.

Para a Apple, isso cria simultaneamente uma ameaça e uma oportunidade.

Se a IA reduzir a dependência das telas tradicionais, o domínio construído pelo iPhone pode ser parcialmente desafiado. Por outro lado, poucas empresas possuem simultaneamente capacidade de projetar chips, sistemas operacionais, dispositivos, sensores e serviços em escala global.

É justamente nessa interseção que a experiência de Ternus pode ganhar importância.

Seu desafio será transformar inteligência artificial não apenas em funcionalidades adicionadas ao software, mas em experiências capazes de justificar uma nova geração de produtos.

O peso econômico do ecossistema

A missão também envolve proteger um modelo de negócios construído sobre uma combinação pouco comum de hardware premium e receitas recorrentes.

O iPhone continua sendo a principal porta de entrada para o ecossistema. A partir dele, a Apple monetiza serviços, armazenamento, aplicativos, acessórios e outros dispositivos.

Isso significa que decisões tomadas por Ternus sobre inteligência artificial, design de produtos ou política da App Store terão efeitos que ultrapassam os consumidores.

Desenvolvedores, fabricantes de componentes, empresas de semicondutores, operadoras de telecomunicações, varejistas e fornecedores espalhados pelo mundo dependem, em diferentes graus, do ecossistema econômico criado pela companhia.

Uma mudança importante na arquitetura de um iPhone ou Mac pode alterar cadeias de fornecimento globais. Da mesma forma, alterações nas regras da App Store podem modificar a economia de milhares de empresas digitais.

Regulação será parte permanente do cargo

Há outro motivo para Cook permanecer próximo da companhia.

Administrar a Apple tornou-se também um exercício de diplomacia corporativa.

Na União Europeia, o Digital Markets Act vem obrigando grandes plataformas digitais classificadas como gatekeepers a modificar práticas consideradas capazes de limitar a concorrência.

Em abril de 2025, a Comissão Europeia aplicou uma multa de € 500 milhões à Apple, concluindo que a companhia havia descumprido obrigações relacionadas à possibilidade de desenvolvedores direcionarem consumidores para ofertas disponíveis fora da App Store.

A Apple posteriormente introduziu mudanças em sua operação europeia, incluindo novas alternativas de distribuição de aplicativos e controles adicionais para usuários.

Em 2026, a companhia anunciou novas alterações nos termos comerciais para desenvolvedores europeus, com implementação prevista a partir de outubro.

Para Ternus, portanto, a engenharia de produto será apenas uma parte da função. O novo CEO terá de administrar simultaneamente inovação, concorrência, relações governamentais e regras distintas entre mercados.

China, produção e geopolítica

A cadeia produtiva representa outro ponto crítico.

A capacidade de Cook de organizar fornecedores e fabricar centenas de milhões de dispositivos com elevados padrões de qualidade foi fundamental para o crescimento da Apple.

Mas a concentração histórica da produção na China transformou-se também em vulnerabilidade geopolítica.

Nos últimos anos, a companhia vem diversificando parte de sua manufatura para outros países, especialmente a Índia, enquanto tenta preservar acesso ao mercado chinês — um dos maiores do mundo e também parte fundamental de sua cadeia industrial.

Ternus terá de equilibrar custo, escala, segurança de fornecimento e política comercial.

Para um executivo com formação em engenharia, decisões aparentemente técnicas sobre componentes ou fabricação podem rapidamente assumir dimensão diplomática.

A vantagem de uma sucessão planejada

A transição difere radicalmente daquela ocorrida em 2011.

Cook assumiu em meio à deterioração da saúde de Steve Jobs e tornou-se responsável por preservar a cultura e o crescimento de uma empresa profundamente associada ao fundador.

Ternus recebe uma estrutura institucional muito mais consolidada.

A sucessão foi anunciada com meses de antecedência, Cook continuará no conselho e a escolha recaiu sobre um executivo com cerca de 25 anos de experiência dentro da companhia.

Isso reduz o risco de ruptura administrativa.

Mas cria outro desafio: produzir mudança suficiente sem desmontar um modelo que continua extremamente lucrativo.

A chegada de John Ternus ao comando da Apple não representa apenas o fim da era Tim Cook. Ela coloca à prova uma das questões mais importantes do atual ciclo tecnológico: uma empresa construída em torno da excelência de produtos físicos conseguirá manter sua influência quando inteligência artificial passar a ocupar o centro da experiência digital?

Ternus recebe uma vantagem que poucos CEOs possuem: bilhões de dispositivos instalados, uma das marcas mais valiosas do mundo, capacidade própria de desenvolver chips, enorme geração de caixa e um ecossistema capaz de distribuir novas tecnologias rapidamente. O que investidores e concorrentes observarão a partir de agora é se ele conseguirá transformar esses ativos em uma nova plataforma de crescimento. Depois de Cook provar que a Apple poderia prosperar sem Steve Jobs, caberá a Ternus demonstrar que ela pode liderar também depois de Cook — e em uma era tecnológica muito diferente daquela que produziu o domínio do iPhone.

#Apple Intelligence#sucessão corporativa#tecnologia#Apple#big techs#liderança empresarial#John Ternus#inteligência artificial#iphone#Tim Cook
Compartilhar:WhatsApp

Sobre o autor

93 matérias publicadas

Farmacêutico Bioquímico formado na Universidade Federal Santa Catarina (UFSC), pós graduado em Gestão Estratégica de Empresas pela Fundação Dom Cabral (FDC). Atual CFO do grupo ALLOYBR. Atual vice-presidente do Rotary Club de Blumenau-Norte gestão 2026-2027.

Discussão

0 comentários

Entre para comentar mais rápido

V

Notícias Relacionadas