Dólar AmericanoR$ 5.06 1.30%EuroR$ 5.83 0.71%BitcoinR$ 329256 0.84%Dólar AmericanoR$ 5.06 1.30%EuroR$ 5.83 0.71%BitcoinR$ 329256 0.84%
Política

Janja é a primeira-dama que mais trabalhou pelo Brasil?

Janja é a primeira-dama que mais trabalhou pelo Brasil?
Compartilhar:WhatsApp
Ouvir notícia

Hospitais, alfabetização, assistência social, primeira infância e articulação política ajudam a comparar o trabalho das mulheres que ocuparam o posto.

Quando Janja Lula da Silva afirmou que o Brasil nunca havia tido uma primeira-dama que trabalhasse efetivamente, citou sua presença frequente no Palácio do Planalto, as reuniões das quais participa, as viagens oficiais e a agenda que mantém ao lado do governo.

A declaração chama atenção porque a história brasileira registra primeiras-damas que criaram instituições, presidiram programas nacionais e mobilizaram projetos que continuaram funcionando depois da saída dos respectivos maridos da Presidência.

Primeira-dama não é cargo eletivo e não possui atribuições legais definidas. Nenhuma delas tinha obrigação de assumir uma função pública. Mas, entre aquelas que decidiram atuar, é possível comparar o que lideraram, o alcance das ações e aquilo que permaneceu depois do governo.

A partir desses critérios, cheguei ao seguinte ranking.

1º lugar: Ruth Cardoso

Oito anos como primeira-dama, entre 1995 e 2002

Ruth Cardoso já era antropóloga, professora e pesquisadora antes de Fernando Henrique Cardoso assumir a Presidência. No governo, criou e presidiu o Conselho da Comunidade Solidária, estrutura que aproximava ministérios, universidades, empresas e organizações sociais.

Dela surgiram ou ganharam força projetos como Alfabetização Solidária, Universidade Solidária, Capacitação Solidária e Artesanato Solidário.

O balanço das organizações ligadas ao programa registrou 3 milhões de jovens alfabetizados, 135 mil alfabetizadores mobilizados, 114 mil jovens capacitados profissionalmente, 300 universidades parceiras e 2,5 mil organizações comunitárias apoiadas. Como são números apresentados pelas próprias instituições, devem ser lidos como balanço institucional, mas revelam a dimensão alcançada.

Ruth não atuava apenas como divulgadora. Participava da formulação do modelo e defendia uma relação em que governo e sociedade civil trabalhassem juntos, sem reduzir a política social à caridade da esposa do presidente.

Parte das iniciativas continuou depois do governo. É essa combinação entre autoria, alcance e continuidade que coloca Ruth Cardoso no primeiro lugar.

2º lugar: Sarah Kubitschek

Cinco anos como primeira-dama, entre 1956 e 1961

Sarah Kubitschek concentrou sua atuação na saúde e na assistência social. Foi fundadora das Pioneiras Sociais, organização que atendia mães, gestantes, crianças e pessoas com deficiência, além de promover campanhas de saúde e arrecadar recursos para famílias vulneráveis.

Em 1960, a Fundação das Pioneiras Sociais implantou em Brasília o Centro de Reabilitação Sarah Kubitschek. A unidade foi a origem da estrutura que, nas décadas seguintes, se transformou na atual Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação.

A rede contemporânea não pode ser atribuída exclusivamente a Sarah. O modelo médico, científico e administrativo foi desenvolvido posteriormente por profissionais como Aloysio Campos da Paz Júnior, e a atual Associação das Pioneiras Sociais foi criada em 1991.

Ainda assim, a iniciativa original nasceu durante sua atuação e permaneceu como base para uma das redes hospitalares mais reconhecidas do país.

3º lugar: Darcy Vargas

Cerca de 18 anos como primeira-dama, somados dois períodos

Darcy Vargas foi uma das primeiras mulheres a transformar a posição de primeira-dama em uma estrutura organizada de assistência social.

Durante a Segunda Guerra Mundial, liderou a mobilização de voluntárias para apoiar as famílias dos militares brasileiros enviados ao conflito. Em 1942, esteve ligada à criação da Legião Brasileira de Assistência, a LBA.

Também participou da criação da Casa do Pequeno Jornaleiro e da Cidade das Meninas, que ofereciam acolhimento, assistência e formação profissional. A Biblioteca Nacional aponta sua atuação como um modelo seguido por primeiras-damas posteriores.

Seu legado não está livre de críticas. A LBA ajudou a consolidar o chamado primeiro-damismo, misturando assistência social, caridade e promoção política. A instituição ainda enfrentaria graves problemas de gestão nas décadas seguintes.

Mesmo com essas contradições, Darcy participou da construção de organizações nacionais e exerceu influência duradoura sobre a assistência social brasileira.

4º lugar: Michelle Bolsonaro

Quatro anos como primeira-dama, entre 2019 e 2022

Michelle Bolsonaro escolheu pautas específicas para sua atuação: pessoas com deficiência, Libras, autismo, doenças raras e voluntariado.

Presidiu o conselho do Pátria Voluntária, programa federal destinado a aproximar organizações sociais, empresas, doadores e voluntários. Também participou de campanhas voltadas às pessoas com doenças raras e da mobilização em torno do comitê interministerial dedicado ao tema.

Sua contribuição estava principalmente na visibilidade das causas e na mobilização pública. As políticas eram formuladas e executadas pelos ministérios, não pela primeira-dama.

O Pátria Voluntária também apresentou problemas. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União encontrou falta de critérios objetivos na seleção de entidades e falhas de transparência. O programa foi encerrado em 2023.

Ainda assim, Michelle terminou o governo com uma agenda própria claramente identificável e com participação formal na presidência de um programa nacional.

5º lugar: Marcela Temer

Cerca de dois anos e sete meses como primeira-dama, entre 2016 e 2018

Marcela Temer foi embaixadora do Programa Criança Feliz, voltado ao acompanhamento de gestantes e crianças pequenas de famílias vulneráveis.

O programa utilizava visitas domiciliares para orientar as famílias sobre desenvolvimento infantil, vínculos afetivos e cuidados durante a primeira infância. Marcela participava de eventos, visitava famílias e ajudava a estimular a adesão de estados e municípios.

Ao final de 2018, o governo informava que 422 mil pessoas haviam sido atendidas por mais de 13,6 mil visitadores.

Marcela não criou a metodologia nem comandava as equipes. Sua função era de representação e mobilização. A execução dependia dos profissionais da assistência social e das estruturas federal, estaduais e municipais.

O principal mérito foi estar associada a um programa com público definido, atendimento em campo e continuidade após a mudança de governo.

6º lugar: Janja Lula da Silva

Primeira-dama desde janeiro de 2023

Janja possui uma atuação mais política e internacional do que assistencial. Suas principais pautas são o combate à fome, os direitos das mulheres, o enfrentamento ao feminicídio, a sustentabilidade e a participação feminina nas discussões climáticas.

Durante a presidência brasileira do G20, participou de agendas relacionadas à segurança alimentar e ao empoderamento das mulheres. Em março de 2026, foi nomeada pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura como Campeã Especial de Boa Vontade contra a Fome.

Janja também participa da mobilização do Pacto Brasil contra o Feminicídio, iniciativa dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Nos estados, tem atuado na apresentação da proposta e na defesa da adesão de governos e instituições.

É uma atuação baseada em articulação, representação e capacidade de dar visibilidade às causas. Há trabalho documentado e uma agenda pública relevante.

A diferença em relação às primeiras colocadas está no tipo de resultado. Até aqui, Janja não está diretamente associada à criação ou à presidência de uma instituição nacional, nem apresenta um programa próprio com metas e resultados que possam ser atribuídos à sua liderança.

Isso pode mudar até o final do governo. Por enquanto, sua contribuição está mais na influência política e na defesa pública de pautas do que na construção de uma estrutura permanente.

Então, Janja foi a que mais trabalhou?

Os fatos disponíveis não sustentam essa conclusão.

Janja é atuante, possui acesso ao governo e participa de discussões importantes. Mas Ruth Cardoso liderou programas que chegaram a milhões de pessoas. Sarah Kubitschek esteve na origem de uma estrutura hospitalar que atravessou décadas. Darcy Vargas ajudou a criar instituições nacionais de assistência.

Michelle Bolsonaro presidiu um programa federal e adotou causas específicas. Marcela Temer esteve ligada a uma política nacional de primeira infância.

Não existe uma única maneira de medir o trabalho de uma primeira-dama. Reuniões, viagens e articulação também fazem parte da atuação pública.

Mas, quando a comparação considera alcance, instituições e continuidade, a história mostra que Janja está longe de ser a primeira mulher a trabalhar efetivamente nessa posição.

Compartilhar:WhatsApp

Sobre o autor

20 matérias publicadas

Jornalista com atuação estratégica na política, no relacionamento institucional e na articulação com lideranças públicas e empresariais. No EmpreendaNews, lidera a cobertura e os projetos da área política, conduzindo entrevistas, agendas e conteúdos de alcance nacional sobre poder, economia, gestão pública e os impactos das decisões políticas na sociedade. Sua atuação reúne leitura de cenário, acesso a lideranças, experiência diante das câmeras e capacidade de transformar temas complexos em conteúdos relevantes, diretos e capazes de influenciar o debate público.

Discussão

0 comentários

Entre para comentar mais rápido

V

Notícias Relacionadas