Guia Michelin estreia ranking de vinícolas na Borgonha
Guia Michelin estreia classificação mundial de vinícolas na Borgonha, premia 94 produtores e cria nova referência para vinho, enoturismo e mercado de luxo.

Nova classificação com uma, duas ou três “Uvas Michelin” amplia a atuação do guia para o mundo do vinho e pode reforçar o enoturismo, a reputação dos produtores e o valor econômico de um dos terroirs mais disputados do planeta.
O Guia Michelin abriu uma nova frente no mercado global de gastronomia e turismo de alto padrão. Em 7 de julho de 2026, a organização revelou, em Dijon, na França, sua primeira seleção mundial dedicada especificamente a produtores de vinho, escolhendo a Borgonha para inaugurar o sistema de uma, duas e três Uvas Michelin.
Ao todo, 94 propriedades foram reconhecidas: nove receberam a classificação máxima de três Uvas, 20 conquistaram duas, 33 ficaram com uma e outras 32 foram incluídas na categoria “Selecionados”. O anúncio representa uma expansão relevante de uma marca que construiu influência internacional primeiro com restaurantes — as estrelas começaram a ser adotadas em 1926 — e, mais recentemente, com as Chaves Michelin para hotéis. (Michelin)
A novidade havia sido anunciada pela Michelin em dezembro de 2025, quando a empresa informou que Borgonha e Bordeaux seriam as primeiras regiões analisadas. A Borgonha foi a primeira a ter seus resultados divulgados. Bordeaux será a próxima, mas, até agora, não há uma data oficial definida para a apresentação de sua seleção. (Michelin)
Mais do que um novo selo para garrafas famosas, a iniciativa cria um sistema de recomendação capaz de interferir na descoberta de produtores, nos roteiros de enoturismo e, potencialmente, na percepção de valor de propriedades inseridas em um mercado caracterizado por oferta limitada, forte internacionalização e enorme peso da reputação.

Como funcionam as Uvas Michelin
Diferentemente das Estrelas Michelin, voltadas à experiência gastronômica dos restaurantes, as Uvas são atribuídas aos produtores de vinho.
No topo da classificação estão as três Uvas Michelin, reservadas, segundo o guia, a produtores considerados excepcionais e capazes de inspirar confiança independentemente da safra.
As duas Uvas reconhecem produtores que se destacam entre seus pares pela qualidade e pela consistência dentro de seus terroirs. Uma Uva Michelin identifica produtores de alta qualidade, com vinhos de personalidade e estilo próprios, especialmente bem-sucedidos nas melhores safras.
Há ainda a categoria Selecionados, destinada a propriedades consideradas confiáveis e que permanecem sob acompanhamento do guia. (MICHELIN Guide)
A classificação é baseada em cinco pilares: qualidade agronômica, domínio técnico da vinificação, identidade, equilíbrio e consistência entre safras.
Na parte agrícola, os inspetores observam aspectos como vitalidade do solo, equilíbrio das videiras e manejo. No vinho, entram elementos como precisão técnica da vinificação, expressão do terroir, personalidade do produtor e equilíbrio entre acidez, taninos, madeira, álcool e doçura.
A consistência é particularmente importante: a Michelin afirma que analisa diferentes safras justamente para reduzir o peso de um único grande ano sobre a avaliação de um produtor. (MICHELIN Guide)
As inspeções são conduzidas por profissionais contratados pela Michelin, entre eles antigos sommeliers, críticos especializados e especialistas em produção. As decisões são tomadas coletivamente, segundo a organização. (Michelin)
Romanée-Conti e outros ícones estão no topo
A estreia colocou nove propriedades na categoria máxima.
Receberam três Uvas Michelin:
Cécile Tremblay;
Dugat-Py;
Roumier;
Domaine de la Romanée-Conti;
Domaine Leroy;
Domaine d'Auvenay;
Coche-Dury;
Jean-Marc et Thomas Bouley;
Hubert Lamy.
As propriedades premiadas com três Uvas estão concentradas na Côte de Nuits e na Côte de Beaune, epicentro de alguns dos vinhos mais disputados e valorizados da Borgonha.
A lista chama a atenção também por não se limitar às casas mais antigas. A Cécile Tremblay, por exemplo, foi criada em 2003 e tornou-se em poucas décadas um dos produtores reconhecidos da região, enquanto nomes como Romanée-Conti e Leroy pertencem ao núcleo histórico de maior prestígio do vinho borgonhês. (Michelin)
Entre as 20 propriedades com duas Uvas aparecem Dujac, Denis Mortet, Domaine Leflaive, Domaine des Comtes Lafon e Bonneau du Martray.
Já a categoria de uma Uva inclui nomes como Armand Rousseau, Clos de Tart, Domaine des Lambrays, Méo-Camuzet, Joseph Drouhin e Louis Jadot. (CNN Brasil)

Por que a Borgonha foi escolhida
A escolha dificilmente poderia ter maior peso simbólico.
Na Borgonha, o conceito de qualidade é construído de maneira quase microscópica em torno do território. Um mesmo vilarejo pode conter parcelas vizinhas classificadas e valorizadas de formas muito diferentes em razão de solo, exposição solar, altitude e histórico de produção.
Os chamados Climats da Borgonha são parcelas de vinhedos precisamente delimitadas e historicamente associadas à identidade de seus vinhos.
A UNESCO reconheceu esse sistema como Patrimônio Mundial em 2015. O território protegido se estende por cerca de 50 quilômetros ao sul de Dijon, atravessando a Côte de Nuits e a Côte de Beaune até Maranges. A organização identifica 1.247 Climats individualmente delimitados. (UNESCO World Heritage Centre)
É justamente esse modelo que ajuda a explicar por que a Borgonha se encaixa tão bem no método proposto pela Michelin.
Na região, avaliar apenas a variedade de uva seria insuficiente: Pinot Noir e Chardonnay respondem por grande parte dos vinhos mais famosos, mas pequenas diferenças de origem podem produzir estilos, reputações e valores comerciais radicalmente distintos.
A própria Michelin afirma que pretende reconhecer não apenas nomes consagrados, mas produtores capazes de demonstrar precisão no vinhedo e na adega e expressar de maneira clara a identidade de seu terroir. (Michelin)
Um novo mapa para o turismo do vinho
Para o viajante, a consequência mais visível da classificação tende a aparecer na construção dos roteiros.
Até agora, consumidores podiam organizar uma viagem à Borgonha a partir de denominações famosas, críticos de vinho, produtores conhecidos, restaurantes estrelados ou indicações especializadas. As Uvas Michelin acrescentam uma nova camada de curadoria reconhecível internacionalmente.
Isso pode favorecer particularmente propriedades menos familiares para o público não especializado.
A classificação, porém, precisa ser interpretada corretamente: uma Uva Michelin não significa que uma vinícola oferece a melhor visita turística, assim como três Uvas não garantem disponibilidade para degustações ou atendimento ao público.
O sistema avalia a produção de vinho, e não uma experiência turística comparável à classificação de hotéis.
Assim, interessados em visitar uma propriedade precisam verificar individualmente regras de acesso, reservas, horários e formatos de degustação.
Dijon e Beaune ganham ainda mais relevância
Do ponto de vista territorial, a nova classificação reforça dois polos fundamentais da Borgonha: Dijon e Beaune.
A UNESCO descreve Dijon como um centro histórico de poder político e regulatório ligado à construção do sistema dos Climats, enquanto Beaune se consolidou como um núcleo do comércio do vinho.
Entre as duas cidades e seus arredores está grande parte dos vinhedos da Côte d'Or que ajudaram a transformar a Borgonha em referência mundial. (UNESCO World Heritage Centre)
Para o setor turístico, isso cria uma vantagem importante: a atração não está concentrada em um único empreendimento, mas distribuída por vilarejos, vinhedos, restaurantes, hotéis, caves, lojas especializadas e equipamentos culturais.
Em termos econômicos, um visitante atraído por uma propriedade de vinho também pode gerar consumo em hospedagem, gastronomia, transporte local e comércio.
A Michelin não divulgou uma estimativa de aumento de visitantes provocado pelas Uvas, portanto qualquer projeção numérica seria especulativa. O efeito relevante, neste momento, está na ampliação da visibilidade internacional das propriedades selecionadas.
O negócio por trás da reputação
A estreia chega em um momento complexo para o mercado de vinho.
Segundo dados do Bourgogne Wine Board (BIVB), a safra de 2025 foi estimada em cerca de 1,43 milhão de hectolitros, equivalentes a mais de 190 milhões de garrafas, abaixo da média dos dez anos anteriores.
As exportações cresceram 4,3% nos oito primeiros meses de 2025 em comparação com o mesmo período de 2024, mas o cenário foi menos uniforme no decorrer do ano: entre junho e agosto, houve queda tanto no volume quanto, de maneira mais acentuada, no valor exportado. (Bourgogne Wines)
Isso significa que a Michelin entra no mercado de vinho justamente quando produtores precisam administrar um ambiente de consumo global mais desafiador.
Nesse contexto, reputação e diferenciação ganham peso econômico.
A classificação não altera legalmente uma denominação de origem, não transforma um vinhedo em Grand Cru e tampouco substitui os sistemas regulatórios franceses. Mas acrescenta uma chancela internacional de grande reconhecimento junto a consumidores de gastronomia, hotelaria e viagens.
É uma diferença importante: a Michelin não redefine o terroir; passa a atuar como intermediária de reputação entre produtor e consumidor.
Brasil já é mercado em expansão para os vinhos da Borgonha
A novidade também merece atenção do setor brasileiro.
Dados do BIVB mostram que o Brasil comprou aproximadamente 699 mil garrafas de vinhos da Borgonha em 2024, alta de 17,5% em relação ao ano anterior. Em valor, as exportações chegaram a € 8,5 milhões, crescimento de 21,8%.
Naquele ano, o país ocupava a 22ª posição entre os mercados da Borgonha em volume e a 24ª em valor. (Bourgogne Wines)
O avanço continuou: dados posteriores do conselho regional apontam que as exportações para o Brasil atingiram aproximadamente 917 mil garrafas em 2025, alta de 31% em volume na comparação anual, enquanto o valor cresceu 36%. (Bourgogne Wines)
É uma base ainda pequena diante de mercados tradicionais como Estados Unidos e Reino Unido, mas a trajetória ajuda a explicar por que uma classificação internacional simples de reconhecer pode interessar também a importadores, sommeliers, restaurantes e consumidores brasileiros.
Para produtores com distribuição no país, aparecer no guia cria um novo argumento de posicionamento. Para importadores, pode tornar-se um instrumento adicional de seleção de portfólio — embora não haja qualquer garantia de que uma Uva Michelin resulte automaticamente em aumento de vendas ou de preços.
O “efeito Michelin” pode chegar ao vinho?
No setor de restaurantes, as estrelas Michelin construíram ao longo de décadas uma capacidade incomum de influenciar decisões de viagem e consumo.
A questão agora é saber se as Uvas conseguirão desenvolver poder semelhante.
O vinho apresenta uma dificuldade adicional: o produto circula independentemente do lugar onde foi produzido. Para experimentar um restaurante Michelin é necessário ir ao estabelecimento; para beber um vinho classificado, em muitos casos basta encontrá-lo em uma importadora, restaurante ou loja especializada.
Isso amplia enormemente o alcance potencial da nova classificação, mas também torna seu impacto econômico mais difuso.
O beneficiário pode ser a vinícola, o distribuidor, um restaurante que inclui o rótulo na carta ou o próprio destino turístico.
Para a Michelin, por sua vez, a expansão cria um ecossistema cada vez mais integrado: restaurantes, hotéis e agora produtores de vinho passam a fazer parte de uma mesma arquitetura de recomendação voltada ao viajante de alto valor agregado.
Bordeaux será o próximo teste
Depois da Borgonha, o próximo capítulo será Bordeaux.
A Michelin já confirmou a região como parte da primeira fase do projeto, mas ainda não anunciou oficialmente quando seus resultados serão divulgados. (Michelin)
A comparação será particularmente relevante porque as duas regiões representam modelos bastante diferentes.
Enquanto a Borgonha é marcada por propriedades frequentemente menores e por uma fragmentação extrema dos terroirs, Bordeaux possui forte tradição de châteaux e classificações históricas próprias.
Se o sistema ganhar escala para outras regiões produtoras — algo que dependerá das próximas decisões da Michelin — poderá surgir uma referência internacional paralela às classificações tradicionais e às avaliações de críticos especializados.
O QUE ISSO SIGNIFICA
A estreia das Uvas Michelin não é apenas mais uma premiação em um mercado repleto de notas e rankings. Ela representa a entrada de uma das marcas de recomendação mais reconhecidas do turismo e da gastronomia diretamente na cadeia econômica do vinho. Para a Borgonha, o efeito imediato é de visibilidade: 94 produtores passam a integrar um sistema que pode ser compreendido por consumidores muito além do círculo dos especialistas.
O ponto a observar agora será a capacidade dessa classificação de influenciar demanda, preços, cartas de restaurantes, importações e fluxos turísticos. Bordeaux será o segundo grande teste. Se a Michelin conseguir transferir para o vinho parte da influência conquistada nos restaurantes e hotéis, as Uvas podem se transformar em um novo ativo de reputação para produtores e destinos enogastronômicos — sem substituir as denominações de origem, mas acrescentando uma nova camada de poder comercial ao conceito de terroir.
Sobre o autor

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Farmacêutico Bioquímico formado na Universidade Federal Santa Catarina (UFSC), pós graduado em Gestão Estratégica de Empresas pela Fundação Dom Cabral (FDC). Atual CFO do grupo ALLOYBR. Atual vice-presidente do Rotary Club de Blumenau-Norte gestão 2026-2027.
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