El Niño muito forte pode pressionar preços e a economia brasileira
Boletim aponta intensificação do fenômeno em 2026, com riscos para a agricultura, o transporte, a geração de energia e os gastos públicos

O El Niño pode deixar a compra do mês mais cara para os brasileiros. Apesar de começar a milhares de quilômetros do país, no Oceano Pacífico, o fenômeno altera a circulação da atmosfera e pode provocar mudanças no regime de chuvas e nas temperaturas, com reflexos diretos sobre a produção de alimentos, o transporte de mercadorias e a inflação.
O Boletim nº 2 do Painel El Niño 2026-2027, divulgado em 31 de julho, indica que o fenômeno deve continuar se intensificando durante o segundo semestre. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia, há elevada probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão.
O documento foi elaborado por instituições como Inmet, Inpe, Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil Nacional e Censipam. Os órgãos alertam que a intensidade e a distribuição dos impactos dependerão da evolução das condições atmosféricas e oceânicas.
Agricultura pode sentir efeitos opostos
Na Região Sul, a expectativa é de chuvas mais frequentes e acima da média. O excesso de umidade pode aumentar o risco de enchentes, alagamentos e deslizamentos, além de dificultar a entrada de máquinas nas lavouras, favorecer doenças nas plantações e atrasar operações de manejo e colheita.
Embora a chuva possa beneficiar algumas culturas de inverno em determinados momentos, volumes excessivos representam risco para a produtividade e para o escoamento da produção. Estradas bloqueadas, pontes danificadas e interrupções logísticas podem elevar os custos de transporte e provocar atrasos na chegada dos produtos aos mercados.
Nas regiões Norte e Nordeste, o cenário esperado é diferente. A redução das chuvas e as temperaturas mais altas podem diminuir a umidade do solo, comprometer pastagens, prejudicar a agricultura familiar e reduzir a disponibilidade de água para a pecuária e para comunidades rurais.
Na Amazônia, a diminuição dos níveis dos rios também pode afetar a navegação, o abastecimento e atividades econômicas que dependem do transporte fluvial. Já no Centro-Oeste, o tempo seco pode favorecer algumas colheitas, mas o calor intenso representa risco para pastagens, recursos hídricos e a preparação da próxima safra.
Conta pode chegar ao consumidor
Quando a produção agrícola diminui ou o transporte fica mais caro, parte desse custo pode ser repassada ao consumidor. Com uma oferta menor e despesas maiores com frete, produtos como frutas, verduras, grãos, carnes e derivados podem sofrer pressão nos preços.
Eventos climáticos extremos também podem afetar a energia. Períodos prolongados de seca reduzem a disponibilidade de água, enquanto ondas de calor aumentam o consumo de eletricidade. A Agência Nacional de Águas informou que os principais reservatórios operavam próximos da normalidade no final de junho, mas reforçou a necessidade de monitoramento contínuo diante da intensificação do El Niño.
O Banco Central já reconheceu que secas, enchentes e ondas de calor podem afetar os preços dos alimentos e da energia, aumentando o custo de vida e criando riscos para a inflação, as finanças públicas e a atividade econômica.
Desastres também aumentam os gastos públicos
Além dos impactos sobre a produção, eventos extremos podem destruir residências, empresas, estradas, pontes e redes de abastecimento. Nesses casos, governos precisam ampliar os gastos com resgates, assistência às famílias, recuperação de serviços públicos e reconstrução das áreas atingidas.
Empresas também podem enfrentar paralisações, perda de estoques, danos estruturais e aumento dos custos com seguros e logística. Pequenos negócios localizados em regiões atingidas tendem a ser especialmente vulneráveis, pois muitas vezes possuem menos recursos para permanecer fechados ou reconstruir suas operações.
O El Niño não determina sozinho tudo o que acontecerá no clima brasileiro, já que outros sistemas meteorológicos também influenciam as chuvas e as temperaturas. Mesmo assim, a possibilidade de um fenômeno muito forte exige preparação de empresas, produtores rurais e governos.
No final, o caminho do impacto é direto: o El Niño começa no clima, afeta a produção, aumenta os custos, pressiona a inflação e pode terminar pesando no bolso do consumidor brasileiro.
Referência: CNN Brasil, Instituto Nacional de Meteorologia, Cemaden, Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico e Banco Central do Brasil.
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