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PolíticaBlumenau – SC

Depois das urnas, o Brasil continua sendo o Brasil

O Brasil chega a mais uma disputa presidencial profundamente polarizado, mas alguns de seus maiores problemas atravessam governos e ideologias. Indicadores de desenvolvimento, segurança, liberdade, Estado de Direito e violência contra a mulher mostram a dimensão dos desafios que permanecerão após as eleições. A questão talvez seja menos quem governará o país e mais qual Brasil o próximo ciclo presidencial terá de enfrentar.

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O Brasil terminou mais um primeiro turno profundamente dividido. De um lado, a esquerda. Do outro, a direita. Nas próximas semanas, boa parte do debate público estará concentrada em descobrir quem venceu determinada região, quem cresceu, quem perdeu votos e quais alianças serão decisivas para o segundo turno. Tudo isso faz parte da democracia. Há, porém, uma pergunta talvez mais desconfortável do que a disputa entre os candidatos: qual Brasil o próximo presidente receberá?

Os números ajudam a dimensionar o problema. No mais recente Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, o Brasil aparece apenas na 84ª posição entre 193 países e territórios, com IDH de 0,786. No Global Peace Index de 2026, que considera segurança, conflitos e militarização, estamos na 124ª colocação entre 163 países, atrás de grande parte da América do Sul e muito distantes das sociedades mais pacíficas do mundo. Quando a análise envolve liberdade pessoal, civil e econômica, o Human Freedom Index de 2025 coloca o Brasil em 66º entre 165 jurisdições. Na liberdade especificamente econômica, o país cai para a 87ª posição entre 165. Também estamos apenas em 78º lugar entre 143 países no índice de Estado de Direito do World Justice Project.

Alguns indicadores ficam ainda mais difíceis de tratar como simples estatística. O Brasil registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025. É verdade que a taxa de 19,1 mortes por 100 mil habitantes foi a menor da série iniciada em 2012, um avanço que precisa ser reconhecido. Ainda assim, estamos falando de mais de 40 mil pessoas mortas violentamente em apenas um ano. No mesmo período, os registros de feminicídio permaneceram em patamar extremamente elevado. Dados oficiais apontam mais de 1,5 mil mulheres assassinadas em circunstâncias classificadas como feminicídio em 2025. As bases divulgadas ao longo de 2026 apresentam pequenas diferenças de consolidação, mas todas descrevem a mesma dimensão do problema. Mesmo nos primeiros sete meses de 2026, já haviam sido registradas 848 vítimas de feminicídio no país.

Durante as últimas décadas, presidentes de esquerda e de direita governaram o Brasil. Houve avanços importantes em diferentes períodos e também erros profundos. Seria intelectualmente pobre atribuir todos esses números a Lula, Bolsonaro ou a qualquer presidente isoladamente. Alguns problemas brasileiros atravessam governos, partidos e gerações. Segurança pública, educação, produtividade, pobreza, desigualdade, funcionamento das instituições, ambiente regulatório e violência contra a mulher são questões grandes demais para caber no slogan de uma campanha eleitoral.

Talvez esse seja um dos pontos que a polarização nos impede de enxergar. Passamos enorme quantidade de energia discutindo quem destruiu mais e quem construiu mais, enquanto indicadores internacionais continuam mostrando um país muito aquém de sua dimensão econômica, territorial e humana. A eleição importa. O presidente importa. As escolhas ideológicas importam. Mas o próximo chefe do Executivo, qualquer que seja ele, encontrará uma sociedade que exige reformas e resultados muito maiores do que aqueles que cabem na disputa entre esquerda e direita.

Depois que as urnas fecharem novamente, metade do país estará comemorando e a outra metade provavelmente estará indignada. O Brasil continuará com mais de 200 milhões de habitantes, enormes recursos naturais, uma das maiores economias do planeta e posições constrangedoras em diversos indicadores básicos de desenvolvimento. Talvez a discussão política mais madura comece justamente aí. Podemos continuar escolhendo lados. Em algum momento, precisaremos também escolher quais problemas estamos realmente dispostos a resolver.

Blumenau – SC
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Sobre o autor

34 matérias publicadas

Pai do Pedro e da Eva; Fundador da Elevion Consultoria; Diretor de Negócios da Rede de Franquias Animal Farma. Consultor e Conselheiro Empresarial.

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