Da fornalha do pai às mãos dos filhos: a história emocionante da Padaria Bublitz
Após a morte do fundador Erno Bublitz em 2021, o filho Anderson e seus irmãos assumiram a padaria, ampliaram para 500m², investiram R$1,4mi e mantém a tradição a décadas.

Há padarias que vendem pão. E há padarias que guardam, dentro do cheiro do forno aceso de madrugada, a história inteira de uma família — e de um bairro. A Bublitz, na Itoupava Central, em Blumenau, é dessas.
O sonho de Seu Erno
Tudo começou em 1º de julho de 1983, quando o empresário Erno Bublitz fundou a Panificadora e Confeitaria Bublitz. Foi a primeira panificadora do bairro Itoupava Central, e nasceu de uma intuição simples: enquanto fazia entrega de pães e doces na padaria do irmão, na Vila Itoupava, Erno percebeu que aquele pedaço de Blumenau pedia um forno só seu.
O começo foi modesto — apenas quatro funcionários, contando com o próprio Erno, que se revezavam em todas as funções de produção e comércio, dentro de um salão de 180 metros quadrados. Mas havia algo que não se mede em metros: as receitas. Pratos típicos como heringsbrot, pão com kochkäse e cucas continuam sendo produzidos conforme as receitas originais, muitas da própria mãe de Erno. Cada cuca que sai do forno carrega, ainda hoje, o gosto de uma cozinha alemã que atravessou gerações.
Erno, no entanto, não foi só padeiro. Foi líder. Reconhecido pela atuação no ramo da panificação, Bublitz também foi vereador e intendente da Vila Itoupava — exerceu dois mandatos de vereador, entre 1993 e 2000, pelo PSDB, partido que ajudou a fundar em Blumenau, e foi presidente da Sociedade Serrinha e intendente da Vila Itoupava por outros dois mandatos, de 2013 a 2016. Onde o pão chegava, ele chegava também — em forma de gente, de causa, de comunidade.
A queda, a luta e a despedida
Em novembro de 2018, a vida virou. Erno lidava com as consequências de um acidente doméstico ocorrido em novembro de 2018. Ele teve traumatismo craniano ao cair de uma escada bater com a cabeça. Na época precisou passar por uma cirurgia para abrir o crânio e tentar diminuir o inchaço. Por conta disso, Bublitz teve de ser induzido ao coma. Foram mais de dois anos de luta silenciosa, dessas que a família trava entre orações e quartos de hospital.
Na madrugada de 19 de janeiro de 2021, em Blumenau, o empresário Erno Bublitz morreu aos 64 anos, vítima de complicações pulmonares. A padaria comunicou o falecimento em uma postagem nas redes sociais: "ele nos deixou depois de muita luta, e agora está descansando na paz que merece". O estabelecimento suspendeu as atividades naquele dia — um silêncio raro num forno que quase nunca apaga. A cidade chorou junto: a prefeita em exercício Maria Regina Soar lamentou a morte e decretou luto oficial de três dias, em homenagem a quem ela mesma chamou do maior líder político da Vila Itoupava das últimas três décadas.
A herança nas mãos de Anderson e Família.
Quando um pai assim parte, a pergunta que paira sobre o balcão é uma só: e agora? A resposta veio com Anderson Rafael Bublitz, hoje administrador da Panificadora e Confeitaria Bublitz Ltda, ao lado do irmão Jonathan Ronchi Bublitz e Bruna Bublitz. Não era só assumir uma empresa — era assumir um nome. Era acordar todo dia sabendo que cada cliente que entra ali entrou primeiro porque confiou no pai.
Anderson não quis transformar a padaria em outra coisa. Quis fazê-la respirar mais fundo. Sob sua direção, a Bublitz se tornou uma operação de mais de 2.000m² de área construída e cerca de 80 colaboradores, atendendo 24h todos os dias da semana — e essa parte, do atendimento ininterrupto, virou marca registrada da casa. Como o próprio Anderson resume: "Somos a única panificadora da região a atender 24 horas, nos sete dias da semana".
Em julho de 2023, a casa completou 40 anos. E o filho decidiu celebrar do jeito que o pai teria gostado: trabalhando. A ampliação demandou investimentos de R$ 1,4 milhão, com uma ampliação de 150 m² de área física, transformando a panificadora num ponto de parada para passageiros de ônibus e viajantes da SC-108. Novos banheiros, com acessibilidade para cadeirantes e fraldário foram implantados para melhor acomodar este público viajante. Na área de alimentação, cozinha e buffet novos, para que o local tenha opções de almoço, lanches rápidos, café colonial, além de chopes e iguarias típicas da região. Com a expansão, a panificadora passa a ter cerca de 500 metros quadrados de área de venda, e cinco novos funcionários foram contratados.
Tudo isso — e nada da identidade se perdeu. As cucas continuam sendo as da mãe do Seu Erno. O heringsbrot, o pão com kochkäse, o assadão de domingo, o Restaurante Bublitz inaugurado em 2008 com comida caseira e marmitas para levar. A tradição não foi enterrada com o pai; foi posta para fermentar.
O futuro: crescer no próprio chão
Diferente de muitas marcas que sonham em ganhar o estado, Anderson tem uma visão mais teimosa — e mais bonita. O plano não é sair de Blumenau. É enraizar ainda mais. Segundo Anderson, a operação primeiro será consolidada. Depois, a ideia é contatar empresas de transporte de passageiros para incluir a padaria no roteiro de paradas das viagens. A intenção é expandir a capacidade de atendimento sem perder a qualidade.
Crescer onde se nasceu. Melhorar o que o pai começou. Manter o forno aceso 24 horas para que ninguém, em momento algum do dia ou da noite, encontre as luzes apagadas — como aconteceu uma única vez, naquele 19 de janeiro de 2021.
Erno Bublitz e Tânia Bubliz construiram a Padaria Bublitz. Anderson Bublitz e seus irmãos estão construindo a continuidade — e talvez essa seja a parte mais difícil de qualquer história familiar. A massa que o pai sovou está, agora, descansando nas mãos dos filhos. E continua crescendo.
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