Com a IA mudou.. E a liderança ainda não percebeu.
E-book 'Destination AI' ensina a usar IA em negócios com narrativa envolvente.

A IA mudou o “construir ou comprar”. E a liderança ainda não percebeu.
Durante anos, uma das decisões clássicas das empresas era: vamos desenvolver internamente ou comprar uma solução pronta? A IA está tornando essa pergunta cada vez menos relevante — e criando um problema novo para as lideranças.
Alguém da equipe encontra um problema, abre uma ferramenta de IA para programação, cria uma solução e coloca aquilo para funcionar em poucos dias.
Sem projeto formal.
Sem orçamento específico.
Sem passar por um longo processo de aprovação.
E, muitas vezes, a liderança só descobre que aquilo existe depois que já está funcionando.
Esse é o novo cenário.
O problema não é mais construir. É saber o que está sendo construído.
A inteligência artificial reduziu drasticamente a barreira para criar.
Um funcionário que antes precisava depender de TI, fornecedores ou projetos estruturados agora consegue desenvolver automações, pequenos sistemas, integrações, dashboards e ferramentas específicas para resolver problemas do dia a dia.
Isso é fantástico para a produtividade.
Mas também cria uma contradição:
quanto mais fácil fica construir, mais difícil fica controlar tudo o que está sendo construído.
E talvez esse seja um dos grandes desafios de gestão que a IA está colocando dentro das empresas.
Não estamos necessariamente diante de uma falha de governança.
Estamos diante de uma mudança na própria dinâmica de inovação.
A empresa pode estar construindo sem perceber
Imagine uma equipe comercial que cria uma ferramenta para organizar leads.
O financeiro desenvolve uma automação para consolidar informações.
O marketing cria um sistema para analisar campanhas.
O RH utiliza IA para automatizar determinada rotina.
A operação desenvolve um pequeno aplicativo interno.
Tudo funciona.
O problema aparece quando começamos a perguntar:
Quem é responsável por isso?
Quem mantém?
Quem atualiza?
Quem conhece o código?
O que acontece se essa pessoa sair?
Essa ferramenta conversa com os sistemas oficiais da empresa?
Existe informação sensível ali?
Ela pode ser replicada?
E, principalmente:
quantas outras ferramentas semelhantes existem dentro da organização?
A empresa pode estar ganhando velocidade e, ao mesmo tempo, criando uma nova camada de complexidade.
Construir não significa necessariamente criar vantagem competitiva
Existe outro ponto ainda mais estratégico.
Imagine que sua equipe desenvolveu uma ferramenta incrível utilizando IA.
Você comemora.
Mas seu concorrente pode abrir a mesma ferramenta de IA amanhã e construir algo parecido.
Nesse caso, você ganhou produtividade.
Mas talvez não tenha criado diferenciação.
Essa distinção é fundamental.
Uma ferramenta pode melhorar sua operação sem necessariamente melhorar sua posição competitiva.
O diferencial aparece quando aquilo que foi construído incorpora conhecimento proprietário, processos, dados, experiência, relacionamento com clientes ou alguma capacidade difícil de copiar.
É aí que tecnologia deixa de ser apenas ferramenta e começa a virar estratégia.
O novo risco: a dependência invisível
Existe ainda um indicador que deveria entrar no radar dos executivos.
Se a pessoa que criou a solução sair amanhã, o negócio continua funcionando?
Se a resposta for não, talvez a empresa não tenha criado uma infraestrutura.
Criou uma dependência.
Esse fenômeno pode se multiplicar com a velocidade da IA.
Antes, desenvolver uma solução exigia equipes, orçamento e tempo.
Agora, uma pessoa pode construir algo funcional em horas ou dias.
A velocidade é uma vantagem.
Mas velocidade sem visibilidade pode criar uma dívida tecnológica silenciosa.
Então devemos proibir?
Na minha visão, esse seria o caminho mais fácil — e provavelmente o errado.
Se a empresa tentar controlar cada iniciativa criada com IA, pode matar justamente aquilo que a tecnologia oferece de mais valioso:
a capacidade de experimentar rapidamente.
O desafio não é colocar freio.
É criar contexto.
Talvez as empresas precisem começar a perguntar:
O que estamos construindo?
Por que estamos construindo?
Isso é apenas uma automação ou pode virar uma vantagem?
Quem será responsável pela solução?
Qual é o risco se ela parar de funcionar?
Existe algo semelhante dentro da empresa?
Isso deveria ser incorporado à infraestrutura oficial?
Qual é a vida útil provável dessa solução?
Isso muda completamente a conversa.
A inovação espontânea virou parte da estratégia
Durante muito tempo, inovação era algo que acontecia em projetos específicos.
Agora, ela pode acontecer em qualquer mesa.
Qualquer funcionário com conhecimento do negócio e acesso às ferramentas certas pode experimentar, automatizar e criar.
Isso é uma transformação enorme.
Mas existe uma condição:
a empresa precisa conseguir enxergar o que está acontecendo.
Porque o maior desperdício talvez não seja ter cinquenta ferramentas.
É ter cinquenta ferramentas resolvendo problemas que poderiam estar conectados em uma única estratégia.
E existe uma questão ainda maior: se cada área começa a construir rapidamente, mas de forma isolada, a empresa pode ganhar velocidade em cada departamento e perder direção como organização.
Por isso, a discussão sobre IA também precisa chegar ao go-to-market, à estratégia, à governança e ao modelo de negócio.
Não basta cada área ficar mais eficiente.
A empresa inteira precisa ficar mais inteligente.
Talvez a pergunta mais importante para uma reunião de diretoria tenha mudado
Em vez de perguntar apenas:
“O que precisamos comprar?”
ou
“O que precisamos desenvolver?”
talvez seja hora de perguntar:
“O que já está sendo construído dentro da nossa empresa que a liderança ainda não sabe que existe?”
A resposta pode revelar algumas das maiores oportunidades de produtividade da organização.
Mas também pode revelar riscos que ninguém estava olhando.
E na sua empresa: a IA está sendo usada de forma estratégica ou cada área já está construindo seu próprio “Frankenstein” digital?
Essa é uma discussão que vale levar para os comentários.
Sobre o autor

248 matérias publicadas
Thiago A. Busarello é cristão. Especialista em negócios, inovação e estratégia, com atuação direta na estruturação, gestão e escala de empresas, combinando experiência prática de mercado com visão orientada a dados, tecnologia e tomada de decisão. Com formação em Administração, MBA em Finanças pela FGV e especializações em ciência de dados, governança e investimento, atua como investidor-anjo, mentor e executivo, apoiando empresas e empreendedores na construção de modelos de negócio mais eficientes, competitivos e preparados para crescer de forma sustentável em um cenário cada vez mais dinâmico.
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