Até o Google precisa aprender a mudar
O Google está reorganizando sua liderança em inteligência artificial. Jeff Dean deixa a empresa após 27 anos, enquanto Demis Hassabis assume uma nova função dentro da Alphabet. Mas talvez a principal história aqui não seja sobre tecnologia. É sobre entender quando chegou a hora de mudar.

O Google está reorganizando sua liderança em inteligência artificial. Jeff Dean deixa a empresa após 27 anos, enquanto Demis Hassabis assume uma nova função dentro da Alphabet. Mas talvez a principal história aqui não seja sobre tecnologia. É sobre entender quando chegou a hora de mudar.
Tem uma coisa que a gente demora para aprender.
Nem tudo que funcionou até aqui vai funcionar para sempre.
E talvez uma das maiores demonstrações de maturidade seja justamente perceber isso antes que seja tarde demais.
Nesta semana, o Google anunciou uma mudança importante na estrutura responsável por uma das áreas mais estratégicas da empresa: inteligência artificial.
Jeff Dean, um dos nomes mais importantes da história tecnológica do Google, está deixando a companhia depois de 27 anos. Ao mesmo tempo, Demis Hassabis deixa a gestão diária do Google DeepMind para assumir uma posição mais ampla como cientista-chefe da Alphabet e chairman do DeepMind. Koray Kavukcuoglu passa a comandar as operações da divisão.
E olhando de fora, parece apenas mais uma reestruturação.
Executivos mudam.
Cargos mudam.
Organogramas mudam.
Mas eu vejo… outra coisa.
Vejo uma das maiores empresas de tecnologia do planeta reconhecendo que até estruturas extremamente bem-sucedidas precisam mudar quando o mundo muda ao redor delas.
E talvez essa seja uma lição que sirva para qualquer empresa.
O que trouxe você até aqui pode não levar você adiante
Jeff Dean passou quase três décadas ajudando a construir algumas das tecnologias que fizeram do Google o que ele é hoje.
Seu trabalho está profundamente ligado à história da infraestrutura tecnológica, do machine learning e da inteligência artificial dentro da companhia.
Agora, ele deixa o Google para criar a Discovery Loop, uma nova empresa voltada ao uso de machine learning em ciência e engenharia. Outros nomes importantes também estão envolvidos no novo projeto.
É curioso pensar nisso.
Porque a gente costuma acreditar que sucesso significa permanência.
Se está funcionando, não mexe.
Se uma pessoa foi importante até aqui, ela precisa continuar ocupando o mesmo lugar.
Se uma estrutura trouxe resultados durante anos, provavelmente continuará trazendo.
Mas empresas não vivem do passado.
Vivem da capacidade de entender o próximo ciclo.
E tecnologia talvez seja o lugar onde isso fica mais evidente.
Inteligência artificial mudou a velocidade das empresas
Durante muitos anos, empresas conseguiam atravessar transformações tecnológicas aos poucos.
Tinham tempo para observar.
Tempo para testar.
Tempo para decidir.
Hoje eu não sei se esse tempo existe mais.
A inteligência artificial está avançando numa velocidade que obriga até empresas gigantes a reverem constantemente pessoas, produtos, prioridades e estruturas.
O próprio Google já havia feito uma grande reorganização em 2023, quando uniu Google Brain e DeepMind para formar o Google DeepMind. Naquele momento, a justificativa era justamente concentrar talentos e acelerar o desenvolvimento da inteligência artificial.
Três anos depois…
Outra mudança.
E provavelmente não será a última.
Porque talvez a nova realidade seja exatamente essa.
Não existe mais estrutura definitiva.
Existe a estrutura que funciona para o momento que estamos vivendo.
Mudar não significa que aquilo que veio antes estava errado
Essa talvez seja a parte mais difícil.
Principalmente para quem construiu alguma coisa.
Quando você passa anos criando uma empresa, uma equipe, um processo ou uma maneira de trabalhar, existe um pouco de você ali.
Então mudar parece quase admitir que estávamos errados.
Mas não é.
Às vezes aquilo estava absolutamente certo.
Para aquele momento.
Jeff Dean ajudou a construir parte da história do Google.
Demis Hassabis esteve à frente do DeepMind durante uma das fases mais importantes da inteligência artificial moderna e agora continuará dentro da Alphabet, mas concentrado em ciência, AGI e pesquisa, enquanto outra liderança assume a operação cotidiana.
Não significa apagar o que foi construído.
Significa entender que uma nova fase pode exigir novas responsabilidades.
Eu penso muito nisso quando olho para empresas.
Principalmente para aquelas que cresceram.
Porque chega um momento em que aquilo que era solução começa silenciosamente a virar limitação.
O processo que funcionava com cinco pessoas começa a falhar com cinquenta.
A gestão que funcionava quando o dono conhecia todos os clientes deixa de funcionar quando existem milhares.
A planilha que organizava tudo começa a esconder informação.
O vendedor que lembrava de cada oportunidade começa a esquecer algumas.
E ninguém necessariamente fez algo errado.
A empresa apenas mudou.
Talvez o maior risco seja continuar igual
Existe muito medo em mudar.
Trocar processos.
Automatizar tarefas.
Implementar inteligência artificial.
Mudar responsabilidades.
Questionar aquilo que sempre foi feito daquele jeito.
Eu entendo.
Porque mudar significa abandonar uma parte da segurança que construímos.
Mas existe uma pergunta que eu aprendi a fazer:
qual é o risco de não mudar?
Porque às vezes a gente calcula todo o risco da transformação…
e esquece de calcular o risco da permanência.
O Google está disputando uma das maiores corridas tecnológicas da história contra empresas como OpenAI, Anthropic e tantos outros competidores.
E mesmo sendo uma das empresas mais poderosas do mundo, está mexendo novamente na própria estrutura.
Isso deveria dizer alguma coisa para nós.
Talvez ninguém tenha mais o direito de acreditar que chegou ao modelo definitivo.
Nem o Google.
Nem a nossa empresa.
Nem eu.
Nem você.
A tecnologia vai continuar mudando.
As empresas vão continuar mudando.
O mercado vai continuar mudando.
E provavelmente muitas coisas que hoje parecem indispensáveis deixarão de fazer sentido daqui a alguns anos.
Faz parte.
Porque construir algo duradouro não significa manter tudo igual.
Talvez seja justamente o contrário.
É ter coragem suficiente para mudar aquilo que precisa mudar sem esquecer os princípios que fizeram você chegar até aqui.
Sobre o autor

19 matérias publicadas
Empresário com mais de 10 anos de atuação na área de tecnologia, acompanhando de perto a transformação digital de empresas e o impacto dos dados na tomada de decisão. Pai de 4 filhos e entusiasta de processos comerciais, dedica-se a analisar como tecnologia, vendas e inteligência operacional moldam o crescimento sustentável dos negócios modernos.
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