A esquerda descobriu que empresário também vota
O governo anuncia bilhões em perdão de dívidas e benefícios aos MEIs, mas quanto disso representa ganhos reais para os empreendedores? Entre propostas ainda não vigentes, créditos de difícil recuperação e conveniência eleitoral, os números exigem uma análise mais profunda. Quando uma informação favorece nossas convicções políticas, até que ponto estamos dispostos a questionar sua veracidade?

Antes motivo de chacota por parte da própria esquerda, o MEI - ou pobre de direta, de acordo com muitos eleitores progressistas - é a nova prioridade do governo federal.
A facilidade com que parte da população transforma anúncios políticos em verdades absolutas talvez seja um dos retratos mais preocupantes da nossa incapacidade coletiva de interpretar informações. Basta que uma medida favoreça determinada ideologia para que perguntas elementares sejam abandonadas. O governo federal anunciou um pacote de benefícios aos microempreendedores individuais, incluindo a elevação do teto anual de faturamento dos atuais R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, além do perdão de aproximadamente R$ 12,6 bilhões em dívidas tributárias. A Câmara aprovou o projeto nesta quarta-feira, 14 de outubro, por 461 votos a quatro, mas a proposta ainda depende do Senado e da sanção presidencial. O aumento do teto está previsto para os próximos dois anos, enquanto a anistia depende da entrada em vigor da futura lei e exige condições específicas, como a manutenção dos recolhimentos pelos seis meses seguintes. Apesar disso, anúncios dessa natureza frequentemente circulam como benefícios já conquistados, alimentando uma percepção de generosidade governamental muito maior do que aquilo que efetivamente entrou em vigor.
A análise econômica também merece atenção. Parte expressiva dos R$ 12,6 bilhões em dívidas tributárias anunciados como perdão corresponde a créditos cuja recuperação já era considerada pouco provável. Paralelamente, o governo pretende negociar aproximadamente R$ 6 bilhões em dívidas bancárias de MEIs, adquirindo carteiras das instituições financeiras mediante descontos mínimos de 90%. Significa que uma carteira com valor nominal de R$ 100 milhões poderá custar ao governo, no máximo, R$ 10 milhões. Esses créditos podem envolver dívidas antigas, deterioradas e parcialmente provisionadas como perdas pelos próprios bancos. Isso levanta uma questão legítima sobre o benefício econômico da operação para cada participante e sobre o emprego de recursos públicos para adquirir ativos de difícil recuperação. A atualização do teto do MEI é necessária, assim como políticas que favoreçam a recuperação de pequenos negócios. Entretanto, a dimensão nominal das cifras anunciadas não corresponde necessariamente ao benefício econômico efetivo. O valor recuperável dessas dívidas, os custos da operação e seus resultados precisam ser conhecidos antes que bilhões sejam comemorados como se representassem riqueza efetivamente distribuída à população.
O aspecto mais inquietante está na naturalidade com que governantes conseguem transformar propostas, expectativas e números de grande repercussão em capital político imediato. O pacote foi anunciado a menos de duas semanas do segundo turno presidencial, circunstância que exige um escrutínio ainda maior de suas motivações, custos e resultados. A prática de explorar anúncios economicamente atraentes em períodos eleitorais atravessa governos e orientações partidárias, mas encontra terreno especialmente fértil em uma sociedade que parece cada vez menos disposta a questionar aquilo que confirma suas próprias convicções. A desinformação prospera porque encontra uma audiência interessada em acreditar, compartilhar e defender antes mesmo de compreender. Quando a credibilidade de uma afirmação passa a depender de quem a pronunciou, a mentira conveniente ganha status de verdade e o pensamento crítico torna-se quase uma inconveniência. Talvez o problema mais grave da política brasileira esteja justamente nessa disposição coletiva de exigir honestidade apenas dos adversários e oferecer indulgência irrestrita aos próprios representantes.
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Pai do Pedro e da Eva; Fundador da Elevion Consultoria; Diretor de Negócios da Rede de Franquias Animal Farma. Consultor e Conselheiro Empresarial.
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