Foco na tarifa dos EUA esconde que a China já travou a carne
Pequim estabeleceu uma cota para a compra de carne bovina brasileira. O volume que ultrapassar esse limite passa a enfrentar uma sobretaxa de 55%, tornando as exportações muito menos competitivas.

Enquanto o tarifaço americano domina discursos sobre soberania e eleição, a restrição chinesa já reduz abates, provoca férias coletivas e expõe a dependência brasileira de seu principal parceiro comercial.
O Brasil passou esta quinta-feira, 16 de julho, discutindo novamente Donald Trump.
O governo dos Estados Unidos anunciou uma tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros. A resposta de Brasília foi imediata: reuniões de ministros, promessa de medidas duras, possibilidade de aplicação da Lei da Reciprocidade e novos discursos em defesa da soberania nacional. A medida americana deve atingir cerca de 18% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos, embora produtos importantes, como carne bovina, café e aeronaves, tenham sido poupados.
A reação é legítima. Um país precisa defender suas empresas, seus trabalhadores e seus interesses comerciais.
Mas existe uma pergunta que Brasília ainda não respondeu com a mesma intensidade: por que uma barreira imposta pelos Estados Unidos se transforma rapidamente em crise política nacional, enquanto uma restrição chinesa capaz de reduzir praticamente pela metade as compras de carne brasileira permanece tratada como um problema técnico do agronegócio?
Enquanto o governo mira Trump, frigoríficos brasileiros reduzem abates, suspendem operações e colocam trabalhadores em férias coletivas por causa de uma medida tomada por Pequim.
O tarifaço que cabe em uma nota técnica
Desde 1º de janeiro, a China aplica um sistema de cotas para a importação de carne bovina. O Brasil pode enviar até 1,106 milhão de toneladas em 2026 dentro da cota estabelecida. O volume que ultrapassar esse limite recebe uma tarifa adicional de 55%.
Como a carne já enfrenta uma alíquota regular de 12%, a tributação total sobre o excedente pode chegar a aproximadamente 67%. Na prática, exportar acima da cota se torna pouco competitivo para frigoríficos e importadores. A medida valerá por três anos e foi justificada pelo governo chinês como uma forma de proteger os pecuaristas e a indústria bovina daquele país.
A China não criou a restrição exclusivamente contra o Brasil. Austrália, Argentina, Estados Unidos e outros fornecedores também receberam limites próprios.
Mas nenhum deles depende tanto do mercado chinês quanto a cadeia brasileira da carne.
Em 2025, o Brasil enviou aproximadamente 1,65 milhão de toneladas de carne bovina à China. A cota de 2026 é mais de 500 mil toneladas inferior a esse volume. Além disso, cargas embarcadas no final do ano passado, mas desembaraçadas em território chinês somente neste ano, também passaram a consumir o limite de 2026.
O resultado é uma cota que deveria durar doze meses sendo praticamente comprometida no primeiro semestre.
Mais de 20 empresas já anunciaram férias coletivas
A consequência deixou de ser apenas uma projeção de mercado.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes, mais de 20 empresas já anunciaram férias coletivas, enquanto outras avaliam fazer o mesmo. A entidade prevê uma redução de 10% nas exportações brasileiras de carne bovina em 2026.
A expectativa é que as vendas para a China terminem o ano entre 850 mil e 900 mil toneladas, diante das 1,65 milhão de toneladas registradas em 2025.
Alguns frigoríficos já tornaram públicos os ajustes.
A Frigol concedeu 18 dias de férias coletivas para quase mil trabalhadores da unidade de Água Azul do Norte, no Pará. A planta destinava cerca de 70% de sua produção à China. Nas demais unidades, a companhia anunciou redução de aproximadamente 20% nos abates.
A Iguatemi Beef programou férias para cerca de 650 funcionários em Mato Grosso do Sul. A unidade exportava entre 90% e 95% do que produzia, sendo aproximadamente 80% destinado ao mercado chinês.
A Plena Alimentos adotou férias coletivas para 1,5 mil funcionários de plantas em Goiás e Tocantins. Better Beef e outras empresas também reorganizaram escalas e interromperam parcialmente suas operações.
Não se trata, portanto, de uma hipótese distante.
São trabalhadores parados, bois que deixam de ser abatidos, produtores com menos compradores e cidades que começam a sentir a redução da atividade econômica.
A carne pode cair agora e subir depois
O impacto também pode chegar à mesa do brasileiro.
Em um primeiro momento, parte da carne que não será exportada pode permanecer no mercado interno. Com mais produto disponível, os preços no atacado tendem a sofrer alguma pressão de baixa.
Isso não significa que o consumidor necessariamente encontrará uma grande redução no supermercado. Historicamente, quedas no campo e no atacado nem sempre chegam integralmente às prateleiras.
O presidente da Abiec, Roberto Perosa, alerta para um segundo movimento. Para preservar margens e compromissos financeiros, os frigoríficos devem reduzir a produção. Com menos abates, a oferta doméstica pode diminuir novamente e provocar alta nos preços no médio prazo.
O pecuarista tende a sentir o problema antes do consumidor.
Com menos frigoríficos comprando animais, diminui a disputa pelo gado e aumenta a pressão sobre o preço da arroba. O produtor recebe menos, enquanto o consumidor pode continuar pagando caro por causa dos custos e das margens existentes entre o campo e o varejo.
O governo não ficou completamente parado
Seria incorreto afirmar que o governo brasileiro não tomou nenhuma providência.
Desde o início do ano, Brasília negocia com os chineses, tenta ampliar a cota e chegou a estudar uma divisão interna do volume entre os frigoríficos para evitar uma corrida desorganizada de exportações. Brasil e Austrália também pressionaram Pequim para aproveitar cotas que poderiam ficar ociosas em outros países fornecedores.
Até agora, porém, não há indicação de que a China aceitará mudar os limites. Segundo a Abiec, as informações transmitidas pelo governo apontam que as cotas deverão permanecer pelos próximos três anos.
A diferença está menos na existência de alguma ação diplomática e mais na forma como cada crise é apresentada à população.
Contra os Estados Unidos, o governo fala em soberania, reciprocidade, interferência estrangeira e defesa nacional. Ministros concedem entrevistas, lideranças partidárias se manifestam e o tema imediatamente entra na disputa eleitoral.
Diante da China, predomina uma linguagem cautelosa, formada por expressões como “salvaguarda”, “adequação de mercado”, “diversificação de destinos” e “negociação técnica”.
Na prática, as duas potências estão fazendo o mesmo movimento básico: protegendo seus próprios interesses econômicos.
A China considerou que a entrada de carne estrangeira estava prejudicando seus produtores e fechou parte do mercado. Não agiu por amizade ou hostilidade ideológica ao governo brasileiro. Agiu porque julgou que isso beneficiaria sua economia.
A política externa não funciona com amigos permanentes. Funciona com interesses permanentes.
A contradição que Brasília evita
O problema político não está em o Brasil negociar com a China. O país asiático é nosso maior parceiro comercial e continuará sendo decisivo para o agronegócio, a mineração e a balança comercial.
O erro está em vender ao eleitor a ideia de que existem parceiros que nos atacam e parceiros que nos protegem.
Quando Pequim compra volumes recordes, a relação é apresentada como prova do sucesso diplomático brasileiro. Quando Pequim restringe o mesmo produto para defender seus pecuaristas, o episódio perde o conteúdo político e passa a ser tratado como uma dificuldade setorial.
Com Washington acontece o contrário. Cada tarifa é incorporada ao confronto entre Lula, Trump e o bolsonarismo. O comércio exterior deixa de ser uma questão de Estado e vira instrumento de campanha eleitoral.
Essa seletividade interessa aos dois lados.
O governo Lula explora o embate com Trump para construir uma imagem de resistência e soberania. Parte da oposição evita criticar o presidente americano com a mesma força porque o enxerga como aliado político e ideológico.
Enquanto isso, a China permanece em uma espécie de zona de proteção discursiva: importante demais para ser enfrentada publicamente pelo governo e distante demais das paixões políticas da oposição para provocar a mesma mobilização.
O problema não é escolher entre China e Estados Unidos
O verdadeiro debate não deveria ser sobre escolher Pequim ou Washington.
O Brasil precisa manter relações comerciais com os dois países, buscar previsibilidade e reagir de maneira proporcional sempre que seus produtos forem prejudicados.
O alerta deixado pelo tarifaço chinês é outro: uma cadeia produtiva que depende excessivamente de um único comprador fica vulnerável às decisões políticas tomadas do outro lado do mundo.
Nos últimos anos, a demanda chinesa ajudou o Brasil a elevar o abate de bovinos de aproximadamente 30 milhões para 42 milhões de cabeças. Agora que o principal comprador reduz o ritmo, a indústria precisa repensar rapidamente um sistema construído para atender a esse crescimento.
Não existe atualmente outro mercado capaz de absorver todo o volume que deixará de ser comprado pelos chineses. Estados Unidos, México, Chile, Oriente Médio e países do Sudeste Asiático podem reduzir parte do prejuízo, mas não substituem a China no curto prazo.
O tarifaço chinês não exige uma guerra diplomática. Também não justifica transformar a China em inimiga do Brasil.
Mas exige coerência.
Se uma barreira comercial contra produtos brasileiros representa uma ameaça aos empregos, à produção e à soberania econômica, o peso político da reação não deveria depender da bandeira do país que criou a barreira.
A pergunta que permanece é simples:
O Brasil está preocupado com os tarifaços ou apenas com a utilidade eleitoral de quem os impõe?
Sobre o autor

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Jornalista com atuação estratégica na política, no relacionamento institucional e na articulação com lideranças públicas e empresariais. No EmpreendaNews, lidera a cobertura e os projetos da área política, conduzindo entrevistas, agendas e conteúdos de alcance nacional sobre poder, economia, gestão pública e os impactos das decisões políticas na sociedade. Sua atuação reúne leitura de cenário, acesso a lideranças, experiência diante das câmeras e capacidade de transformar temas complexos em conteúdos relevantes, diretos e capazes de influenciar o debate público.
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