Brasil endividado: o alerta de Casas Bahia e Habib’s para os empresários
Recordes de inadimplência, juros elevados e grandes grupos pressionados por dívidas revelam uma lição importante: vender muito não significa ter dinheiro em caixa.

Recordes de inadimplência, juros elevados e grandes grupos pressionados por dívidas revelam uma lição importante: vender muito não significa ter dinheiro em caixa.
O Brasil chegou a um ponto de alerta financeiro. Famílias sem capacidade de pagamento, empresas acumulando contas atrasadas e crédito caro formam uma combinação que afeta desde o pequeno comércio até alguns dos maiores grupos empresariais do país.
Em julho de 2026, o Brasil alcançou 83,9 milhões de consumidores inadimplentes — o equivalente a 51% da população adulta. No ambiente empresarial, mais de 9,1 milhões de CNPJs estavam negativados em junho, maior número já registrado.
Somadas, as dívidas atrasadas dessas empresas chegavam a R$ 232,9 bilhões, segundo a Serasa Experian.
O dado mais preocupante está na base da economia: 8,7 milhões das empresas inadimplentes são micro e pequenos negócios. Com menos reservas e maior dependência do capital de giro, essas empresas sentem primeiro quando as vendas diminuem, os clientes atrasam ou os custos aumentam.
Casas Bahia: bilhões em vendas, mas caixa pressionado
O Grupo Casas Bahia se tornou um dos principais retratos desse cenário. Em 16 de agosto, a companhia protocolou um pedido de recuperação judicial envolvendo R$ 17,3 bilhões em dívidas sujeitas ao processo.
A empresa já havia renegociado aproximadamente R$ 4,8 bilhões por meio de uma recuperação extrajudicial em 2024. Considerando também as obrigações que permanecem fora do plano, o passivo mencionado no processo ultrapassa R$ 27,8 bilhões.
Nos últimos anos, o grupo também reduziu sua estrutura operacional, com o fechamento de aproximadamente 300 lojas.
O pedido de recuperação judicial, porém, não significa que a Casas Bahia tenha falido. Trata-se de um mecanismo legal utilizado para tentar reorganizar as dívidas e preservar a operação.
Em comunicado publicado em 25 de agosto, a Secretaria Nacional do Consumidor informou que o pedido ainda permanecia sob análise da Justiça. A Senacon também iniciou o monitoramento da companhia para acompanhar possíveis impactos sobre consumidores. Confira a orientação oficial.
O caso revela uma realidade que muitos empresários ignoram: uma empresa pode faturar bilhões e ainda enfrentar uma grave crise de liquidez.
No varejo, é preciso financiar estoques, logística, tecnologia, lojas e vendas parceladas. Quando o dinheiro demora a entrar, mas salários, fornecedores, impostos e empréstimos vencem imediatamente, até o crescimento pode se transformar em um problema.
Habib’s negocia antes que a situação se agrave
Outro sinal de alerta vem do Grupo Gennius, controlador das marcas Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill.
A companhia declarou aproximadamente R$ 312,4 milhões em dívidas e conseguiu na Justiça uma proteção temporária contra cobranças enquanto negocia com os credores.
Diferentemente do caso das Casas Bahia, ainda não existe uma recuperação judicial formal. O grupo utiliza uma mediação pré-processual para tentar chegar a um acordo antes de recorrer a uma medida mais severa.
A empresa, que reúne cerca de 500 lojas, afirma que as operações continuam normalmente. Entenda o caso.
Redes de alimentação movimentam grandes volumes, mas frequentemente operam com margens apertadas. Insumos, aluguéis, folha de pagamento, taxas de delivery e juros podem consumir rapidamente o resultado das vendas.
O perigo de confundir faturamento com dinheiro
A principal lição desses casos é simples: faturamento, lucro e caixa são indicadores diferentes.
Uma empresa pode vender R$ 100 mil, apresentar lucro no relatório e receber boa parte desse valor somente depois de 60 dias. Enquanto espera, precisa pagar salários, estoque, impostos, fretes e fornecedores.
Sem capital de giro suficiente, vender mais pode aumentar o problema.
Outro sinal perigoso aparece quando a empresa contrata um empréstimo novo apenas para pagar uma dívida antiga, sem corrigir o motivo que provocou o déficit.
O risco se torna ainda maior com a Selic em 14% ao ano. Mesmo após a redução, o custo do crédito continua elevado, conforme o Banco Central.
A dívida não é a vilã — a falta de controle é
O crédito pode ser estratégico quando financia equipamentos, expansão, tecnologia ou projetos capazes de aumentar a produtividade.
O perigo começa quando a dívida serve apenas para comprar tempo enquanto a empresa continua perdendo margem e consumindo caixa.
Por isso, todo empresário deveria responder com clareza:
Quanto realmente sobra depois de todas as despesas?
Quando o dinheiro das vendas entra no caixa?
Qual é o custo total das dívidas?
Por quanto tempo a empresa sobreviveria com uma queda nas vendas?
O negócio consegue suportar o atraso de um grande cliente?
Empresas raramente entram em crise de uma hora para outra. Antes disso, perdem margem, atrasam compromissos e passam a depender cada vez mais de crédito.
Os casos de Casas Bahia e Habib’s deixam um recado direto para quem empreende: acompanhar o caixa com a mesma atenção dedicada às vendas pode ser o que separa o crescimento sustentável de uma crise financeira.
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