A imprensa que chora pelo PCC e esquece quem vive sob ele
João Paulo Taumaturgo critica a reação da imprensa à classificação do PCC como terrorista, destacando a realidade dos brasileiros sob domínio das facções.

Quando 73% dos brasileiros pedem que facções criminosas sejam tratadas como terroristas, e os grandes veículos respondem preocupados com o Pix e os vistos de viagem, alguma coisa está profundamente errada — e não é com o povo.
Na semana passada, o governo americano anunciou que, a partir de 5 de junho, o PCC e o Comando Vermelho passam a ser classificados como organizações terroristas estrangeiras. A decisão foi do secretário de Estado Marco Rubio, com base em ordem executiva de Donald Trump. A justificativa é objetiva: as duas facções controlam territórios, orquestram ataques contra policiais e civis, e operam redes transnacionais de tráfico de armas, drogas e lavagem de dinheiro.
A reação da imprensa brasileira? Preocupação com o Pix. Com os vistos. Com os riscos jurídicos para empresas. Com os impactos no comércio exterior.
Não estou inventando. Era o que os títulos diziam, publicados horas depois do anúncio, por alguns dos maiores veículos do país.
Quero entender o raciocínio. Existe no Brasil — hoje, agora, enquanto você lê isso — uma criança que não pode andar na rua de determinada cor de camisa porque a facção local proibiu. Existe um comerciante que paga taxa de proteção todo mês porque a alternativa é ver o estabelecimento incendiado. Existe um jovem recrutado à força porque dizer não equivale a uma sentença. Existem territórios inteiros onde a polícia não entra, o Estado não governa, e a lei é a lei da facção.
Isso não é crime organizado no sentido polido que o termo sugere. Isso é terrorismo de baixa intensidade exercido de forma sistemática, permanente, sobre populações que não escolheram viver assim.
A pergunta que a imprensa não faz: por que precisamos de uma decisão americana para levar a sério o que o povo brasileiro já sente na pele há décadas?
O governo brasileiro, convém lembrar, tentou ativamente evitar essa designação. Argumentou que PCC e CV são grupos criminosos movidos por lucro, não por motivação ideológica — como se a distinção jurídica importasse alguma coisa para quem tem uma arma apontada para a cabeça. A questão não é como você classifica o terror. A questão é se você decide enfrentá-lo ou administrá-lo.
E aqui chegamos ao nó que a cobertura jornalística prefere não nomear: parte do sistema político brasileiro tem uma relação funcional com a geografia do crime. Não necessariamente por cumplicidade direta — embora isso também exista. Mas porque o controle territorial das facções é, em muitos casos, também controle eleitoral. Quem governa a partir desse mapa não tem incentivo real para destruí-lo.
É isso que explica por que um governo eleito pelo povo se movimenta diplomaticamente para proteger organizações que aterrorizam esse mesmo povo. E é isso que explica por que parte da imprensa, ao cobrir a decisão americana, transforma a vítima em problema e o algoz em pauta secundária.
Não tenho nenhuma satisfação em dizer que um governo estrangeiro precisou nomear o que nós nos recusamos a encarar. Isso é, antes de qualquer coisa, uma humilhação nacional. É a confirmação de que a omissão virou política de Estado, e de que há governantes mais preocupados com a própria sobrevivência no poder do que com o bem-estar de quem os colocou lá.
Mas é o que é. E quando a realidade bate na porta com essa brutalidade, a imprensa tem uma escolha: amplificar a voz de quem vive sob esse estado de exceção silencioso, ou passar o tempo calculando o impacto nas operações de câmbio.
Setenta e três por cento dos brasileiros já tomaram a decisão deles. A imprensa que deveria servi-los ainda está pensando no Pix.
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