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Gestão Pública

A era de ouro da participação cidadã já começou

Nunca existiram tantas ferramentas para ouvir as pessoas — e nunca a confiança nas instituições que ouvem esteve tão baixa. O motivo não é falta de tecnologia.

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Existe hoje, em qualquer prefeitura, banco ou aplicativo de mobilidade, mais capacidade de processar a opinião de milhares de pessoas do que em qualquer outro momento da história. IA que agrupa reclamações por tema em segundos, plataformas que cruzam dados de milhares de respostas, painéis que geram gráfico de satisfação em tempo real. E, ainda assim, a confiança nas instituições que fazem essa escuta está em queda livre: 43% dos cidadãos da OCDE relatam pouca ou nenhuma confiança no governo nacional, a insatisfação mediana com a democracia chega a 54% em 16 países pesquisados pelo Pew Research na primavera deste ano, e apenas 31% dos canadenses sentem que pertencem, de fato, aos processos de decisão que os afetam.

Um ensaio publicado hoje pela Forbes chama esse momento de "era de ouro da participação" — não porque as pessoas estejam mais dispostas a participar, mas porque a tecnologia finalmente tornou barato fazer o que antes era caro: ouvir todo mundo, organizar isso e devolver uma síntese. O problema, segundo o próprio texto, não é técnico. É que a maioria das instituições ainda pratica o que os autores chamam de "consulta sem consequência" — pede a opinião, processa a opinião, e some. O cidadão aprende, na prática, que participar é teatro.

Vale a pena seguir a história até o fim, porque ela tem camadas.

Porto Alegre inventou o orçamento participativo em 1989, e pesquisas acadêmicas associam o modelo, nas cidades que o adotaram de forma consistente, a mais investimento em saúde e menor mortalidade infantil — não porque a ferramenta seja mágica, mas porque ela obriga a prefeitura a mostrar, ano após ano, no que o dinheiro que os moradores escolheram virou. Paris roda hoje um orçamento participativo de cerca de €100 milhões por ano. Taiwan foi mais longe: o processo vTaiwan usa uma plataforma chamada Pol.is, com IA, para pegar milhares de opiniões de cidadãos sobre um tema polêmico e encontrar, em meio ao ruído, os pontos onde a maioria já concorda — transformando debate público de arena de grito em mapa de consenso. E em julho, Columbus, Ohio, lançou uma versão bem mais modesta da mesma ideia: um mapa digital onde moradores marcam onde querem investimento, dividindo US$ 9 milhões entre nove distritos. Em poucas semanas, 123 propostas já chegaram.

O que essas experiências têm em comum não é o software. É que, em cada uma, existe algum mecanismo — por vezes rudimentar, por vezes sofisticado — que faz o ciclo se fechar: alguém mostra o que foi feito com o que foi dito.

No Brasil, essa lacuna aparece em números específicos. O Edelman Trust Barometer 2026 mostra o governo como a única instituição em zona de desconfiança entre os brasileiros, com 45% — enquanto empresas em geral somam 67% e o empregador direto chega a 80% de confiança entre os próprios funcionários. O índice geral de confiança do país é neutro, em 56%. Não é que o brasileiro tenha deixado de se importar com o que acontece à sua volta. É que ele parou de acreditar que dizer algo muda alguma coisa — e essa é uma conclusão racional, baseada em experiência repetida, não um humor passageiro.

Vale a pena parar um segundo antes de seguir para a conclusão óbvia de que isso é "só" um problema de governo. Não é. É um problema de produto, e ele se repete em qualquer empresa que roda uma pesquisa de satisfação, um NPS ou uma pesquisa de clima interno sem nunca mostrar, de volta, o que mudou por causa daquela resposta. A curva é a mesma: as primeiras respostas vêm cheias de detalhe e boa-fé; depois de alguns ciclos sem retorno visível, elas encolhem, ficam genéricas, ou simplesmente param de vir. O cliente e o funcionário aprendem a mesma lição que o eleitor: falar não muda nada, então por que falar.

É essa lacuna — entre pedir a opinião de alguém e provar o que foi feito com ela — que orienta a hipótese que estamos testando na prática na Praça (@pracaapp), uma plataforma de participação cidadã que nasce no Vale do Itajaí, começando por Indaial. A aposta ali não é que o morador precise de mais um canal para reclamar ou sugerir — isso já existe, em excesso, em quase toda cidade. A aposta é que o dado mais importante de qualquer sistema de participação não é o volume de manifestações recebidas, e sim quem confirma, no final, se aquilo foi de fato resolvido. E, por desenho, essa confirmação pertence a quem fez a publicação — não à prefeitura, não ao aplicativo, não a quem processou o dado.

Isso muda a pergunta que vale fazer sobre qualquer sistema — público ou privado — que hoje se orgulha de "ouvir o cliente" ou "ouvir o cidadão". A pergunta certa nunca foi quantos canais de escuta existem, nem quão rápido a IA consegue processar o que chega por eles. A pergunta é mais desconfortável: depois que alguém falou, o que prova, para quem falou, que aquilo teve efeito? Enquanto a resposta for "confie em nós", a era de ouro da participação vai continuar existindo só na tecnologia — nunca na confiança de quem participa.

#Confiança Institucional#pracaapp#Praça#inteligência artificial#experiência do cliente#Participação cidadã#tecnologia civica
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Sobre o autor

31 matérias publicadas

Daniel Huebes Haendchen é empresário, especialista em tecnologia e cofundador da ColabLife. Com mais de 20 anos de experiência no setor de tecnologia, atua como CEO da DGSys, fábrica de software especializada no desenvolvimento de sistemas, aplicativos, integrações e soluções de automação para empresas de diversos segmentos. Ao longo de sua trajetória, tem trabalhado diretamente com empresários, gestores e profissionais de RH, ajudando organizações a transformar processos, utilizar dados de forma estratégica e fortalecer sua capacidade de gestão. Também é cofundador da ColabLife, plataforma de gestão comportamental e cultura organizacional que apoia líderes e equipes por meio de feedback contínuo, acompanhamento de indicadores comportamentais e desenvolvimento da liderança no dia a dia. No Empreenda News, escreve sobre tecnologia, inovação, liderança, cultura organizacional, gestão de pessoas, empreendedorismo e transformação digital, compartilhando experiências práticas adquiridas no contato diário com empresas e seus desafios de crescimento.

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